Os forcados, revelam qualidades que fazem deles o que outros não são, pessoas únicas! Num tempo em que o digital, a mecanização, o automatismo, transforma os homens em máquinas, isolam-nos brutalmente substituindo os seus gestos e impulsos afectivos por complicadas e frias engrenagens, os forcados não tudo o contrário disso. O espírito de humanidade, companheirismo e amizade, a valentia sem alardes, a capacidade de imprimir os traços do modo de ser próprios, o apreço aos valores morais, um espírito de superação e bravura, um apreço pelo que não é material ou lucrativo. São eles os últimos descendentes da história deste Povo, que descobriu mundo, que levou a nossa história a outras civilizações. Sem outra protecção ou engano que a confiança, destreza, amizade, sabedoria, e arte, tal qual como esses marinheiros que descobriram mundo, enfrentam um toiro para lhe dar um abraço, sempre de sorriso na cara e com um espírito de missão de mostrar de como se deve enfrentar a vida, sempre de frente e sem excitações. Nada é mais importante que aquilo que une os homens, aquilo que os singulariza, que os identifica, que os faz sacrificarem-se com alegria e orgulho por um projecto de todos: Unidade táctica, objectivo comum, espírito de entreajuda, em que um vai na frente e à frente, para a cabeça do toiro, mas confia e conta com todos os outros. São eles ainda de certa forma fazerem este País Grande!
Hoje tentarei de certa forma escrever o que vi nas arenas por parte desses bravos! Nunca é fácil escrever e emitir opiniões, pelo menos para mim sobre forcados, se a bravura de um toiro é subjectiva, o toureio é um misto de emoções e gostos, a arte de pegar é misto disso tudo com o acrescento de estar a “julgar” quem tudo dá sem nada em troca… Não poderei de maneira nenhuma escrever de todas as pegas e grupos que vi, felizmente houve na temporada vários momentos de exaltação à figura do forcado e tentarei abordar alguns neste texto.
Montemor, 80 anos na arte de bem pegar toiros! Nasceram e cresceram neste meu Alentejo de vastas planícies e é aqui neste imenso País do Sul, onde a aficion aos toiros está bem enraizada, que ao longo dos anos têm saído grandes forcados. Na temporada de 2019, temporada de Festa, brilharam pelas arenas mais uma vez os Amadores de Montemor. Foram muitas e tardes e noites de glória, Lisboa, Évora, Montemor, Santarém, Coruche, Alcochete, Salvaterra, Abiul, Reguengos e Alcácer por exemplo.
Francisco Borges é um referente para qualquer forcado de qualquer grupo, reduz a investida do toiro através da beleza artística do seu cite, parece que sonha o toureio quando têm um toiro por diante, com as suas pegas transmite aos aficionados sentimentos como drama, mistério, desgarro e glória mais uma vez foi um dos forcados que marcou o ano de 2019.
João da Camara, raça, valor, graça toureira na maneira como recebe os toiros, figura. Há um par de pegas este ano espectaculares mas uma para mim em particular aquela a um Palha em Coruche…
Francisco Bissaya Barreto, técnica, valentia, superação outro forcado de eleição este ano apesar de uma lesão a meio da época foi a confirmação do grande forcado que é.
Um ajuda e um rabejador que fazem a diferença… António Cortes Pena Monteiro, primeiro ajuda genial, têm a percepção do toiro que vai ajudar, entra sempre a tempo, com um jeito fora do comum, são poucos os toiros que lhe passam. Francisco Godinho, rabejador eficiente que que resolve muitas vezes situações complicadas e muitas vezes passam desapercebidas pelo grande público.
Lisboa, a Porta Grande nas Bodas de Diamante! Fundado por Nuno Salvação Barreto, figura mítica das arenas em Portugal, dirigido por José Luís Gomes e agora pelo seu filho Pedro Maria Gomes, três nomes que têm comandado esta instituição brilhantemente e que leva o nome da capital por esse Mundo fora. Na temporada passada o Grupo de Lisboa brilhou em várias arenas como Campo Pequeno, Abiul, Salvaterra, Sobral, Nazaré, Beja, Chamusca, Paio Pires e Vila Franca. Mas foi sobretudo em Lisboa e Salvaterra as duas praças em que os forcados que envergam esta jaqueta mais sobressaíram.
A corrida da comemoração dos 75 anos já ficaria na história do grupo mas foi consagrada com a Porta Grande de Lisboa. Os aficionados presentes desfrutaram ao máximo com uma exibição fantástica e sublime da arte incomparável de bem pegar toiros, mas dessa noite têm que sobressair um nome José Luís Gomes!
O Zé Luís nessa noite foi o arrebato, o valor, a suavidade, o génio. Foi grande! Foi um forcado “del más alla”… O Zé Luís, guarda num pote de essências a jovialidade e toureria onde tudo pode ser perfeito. Citou com tanta suavidade que se esqueceu que tinha um toiro por diante, deu-lhe aquele abraço como se dá a um grande amigo e depois não mais o largou até se fechar numa pega que ficará na história da tauromaquia.
Em contra ponto a corrida de Salvaterra com uns Aguirres enormes e com más intenções… Houve um forcado que sobressaiu e de que maneira, Pedro Gil. O Pedro teve por diante um toiro de 770kg, uma autentica locomotiva… Pega que não se antevia fácil, mas a raça, valentia e técnica vieram ao de cima e resolveram um problema grande.
Santarém, uma escola de vida, uma escola de futuro! O mais antigo grupo de forcados portugueses a meu ver na temporada de 2019 mostrou que têm grupo para mais 100 anos… A rapaziada nova deu provas, o corpo aos toiros e já ali se vislumbram grandes forcados. Nomes como Salvador Ribeiro de Almeida, António Queiroz e Melo e Joaquim Grave são provas disso. Mas os consagrados, Francisco Graciosa, Lourenço Ribeiro e António Taurino fizeram algumas das grandes pegas da temporada.
O Francisco em Salvaterra diante de um Castro esteve insuperável, que pegão… Todos os adjectivos que se podem escrever para descrever um forcado são poucos e que dizer das tardes em Santarém em Março!? A quinta pega da tarde foi um verdadeiro hino à arte de pegar, esteve sublime a mandar na investida do toiro, fechou-se com braços de ferro e aguentou uma barbaridade sem nunca sair
O Lourenço em Lisboa diante um Grave arrebatou o troféu do melhor forcado da temporada Lisboeta, tudo bem feito. Perfeito no cite, bem a recuar, para se fechar na cara de um toiro que o levou às alturas.
O António quanto a mim fez uma das melhores a pegas da temporada na Celestino Graça em Março… Um pegão diante de um Cunhal Patrício, aguentou uma reunião dura duas vezes e embarcou numa viagem incrível com o toiro a carregar nos forcados… Citou-o desde cá de trás lentamente, adivinhando a prontidão rápida do toiro, provocou-lhe a investida carregando na justa medida, começando depois a recuar já com o toiro próximo, com arte acompanhando a investida totalmente consentida deste, obrigou-o a humilhar e fechou-se em seguida com perfeição e segurança.
Évora, chão de glória e tradição, Pátria de Forcados! Évora das suas ruas medievais, com as suas casas pintadas de branco, palácios, igrejas e mosteiros têm no seu grupo de Forcados um orgulho sem fim. Évora é como Roma: todos os caminhos vão dar à Praça de Toiros em dia de corrida… Concurso, São Pedro, Julho, Setembro, e Outubro. Fardar-se para ir pegar a Évora é uma das maiores ambições que um forcado pode ter, imagine-se para os forcados da terra. São muitos os consagrados e os da nova geração para ocuparem esse lugar.
O cabo João Pedro Oliveira, esteve estóico, enorme no são Pedro… Foi buscar forças ao mais além para dar conta do Grave que teve por diante… Cinco Tentativas mas mesmo assim foi obrigado por uma praça em pé a dar uma volta à arena.
Manuel Rovisco, Gonçalo Pires João Madeira, Dinis Caeiro, Ricardo Sousa, são a confiança que qualquer cabo quer ter numa teia para pegar toiros de caras.
Nos mais novos Miguel Direito vai limando defeitos e aperfeiçoando a sua técnica, sendo um forcado eficiente.
José Maria Caeiro, pode ser um caso na arte de bem pegar toiros… No Concurso teve aquele valor, momento da reunião e uma “graça toureira” só ao alcance dos grandes, voltou a confirmar tudo isso no São Pedro numa pega brilhante.
António Torres, bom o António já é um caso! O extraordinário de um “artista” é que nunca deixe o público indiferente. O António conseguiu isso em cada pega que fez esta temporada. E não apenas pelos toiros que pegou mas também pela sua personalidade na cara dos mesmos. É uma surpresa contínua, consegue colocar os corações dos aficionados num punho e ganha, com todo o mérito o triunfo… São Pedro, Moura, o Teixeira em Évora em Setembro e o Passanha também em Évora são hinos às pegas de caras.
Vila Franca, Raça, Classe e Alma! Foi o primeiro ano do Vasco Pereira como cabo dos Amadores de uma das terras mais aficionadas do Mundo, Vila Franca. Ano duro para este grupo, ano em que os toiros não facilitam em nada a vida aos forcados. Mas demonstraram a raça das nossas gentes e superaram as dificuldades com a classe dos grandes.
Francisco Faria, teve um inicio de temporada muito duro, Santarém e Lisboa foram provas disso, um Cunhal e um Silva puseram à prova a alma deste forcado… Mas abraçou os problemas que teve por diante com raça e apesar da dura temporada foi um dos forcados da mesma.
João Luz em Salvaterra genial! Esteve bem a citar, a recuar e a receber, fechou-se com decisão, fechou-se com braços de ferro, suportou sem pestanejar um violentíssimo e bem alto derrote, aguentou estoicamente até não poder mais até que o grupo fechou.
O Cabo outro forcado que fez grandes pegas caso disso são Santarém, Vila Franca em Maio, e Lisboa por exemplo, sempre com bastante perfeição na cara dos toiros, com um cite correto e a mandar na investida dos oponentes dentro dos terrenos adequados para conseguir aguentar a alegrar a mesmas.
Outro forcado que deu nas vista em 2019 foi Guilherme Dotti. Este jovem forcado “fez-se” aos toiros com grande confiança, manda no oponente e está tecnicamente irrepreensível em cada momento da pega, fechando-se na córnea com grande eficácia.
Amadores de Alcochete,“Terra mãe de forcados”! Pegar toiros é também uma forma de Alcochete se cumprir. Na coragem, na tradição, no compromisso com a vida, na entrega à sorte, na honra da pega. Os Amadores de Alcochete Grupo de antigos e grandes forcados, cabe aos actuais a responsabilidade de honrarem a imagem dos Amadores. Por Agosto nas suas Festas das Salinas e do Barrete Verde o Concurso de Ganadarias é dia grande, este ano não foi menos… Cinco pegas à primeira tentativa e somente a do sexto da ordem à segunda. Novamente mais uma tarde histórica para o Forcado Amador!
Diogo Timóteo numa grande pega, António Cardoso esteve enorme na cara do Vinhas, João Machacaz fez a sua despedida de Alcochete, com uma pega monumental, Nuno Santana bateu as palmas ao Silva e que dizer desta pega, tudo perfeito, João Belmonte fez um pegão duro com um toiro a pedir contas e com uma grande ajuda de João Rei no sexto.
Manuel Pinto, se houvesse uma selecção de forcados para disputarem um Europeu ou Mundial como no futebol, o Manuel seria um dos seleccionados… Será certamente um forcado de época, têm isso de ser forcado metido no corpo, nasceu forcado… Cresce tarde a tarde na arte de bem pegar toiros! Cita com calma, com uma graça toureira incrível, trás o toiro embebido e quando acha oportuno fecha-se à barbela com raça. Em Salvaterra e Alcochete ficou bem patente quem é este grande forcado.
São Manços, os consagrados e os da nova vaga deram cartas! Grupo que ao longo dos anos têm vindo a demonstrar nas arenas de todo o Mundo a arte de pegar toiros. Foi este um ano em que muitos elementos novos começaram a mostrar nas praças de toiros em que o grupo foi convidado a pegar o valor que levam dentro.
Forcados de cara como João José Rosmaninho, Jorge Silva, Hugo Passos e Duarte Quintas demonstraram que o grupo vive de grande juventude e que os da nova vaga se querem afirmar. Exemplos disso são pegas como as de Moura, Amareleja, São Manços e Viana do Alentejo.
Dos consagrados, Pedro Fonseca é sempre um exemplo de superação, são muitos e muitos anos a bater as palmas aos toiros, este ano não foi o seu… Os toiros que lhe tocaram foram ossos duros de roer mas deu sempre a cara e mostrando aos mais novos como se deve andar nisto dos forcados.
Pedro Galhardo, é um forcado que ao longo dos anos têm vindo a limar defeitos e é hoje em dia um forcado seguro, eficiente que resolve os problemas que têm por diante com alma e raça.
Jorge Valadas é um caso… Um forcadão para ele não há toiros difíceis, executa sempre um cite limpo e templa muito as investidas, trazendo o oponente toureado e quando se fecha não há quem o tire da cara.
O cabo, João Fortunato, é outro forcado de mão cheia… Entende os toiros na perfeição, sempre templado no cite, carrega com poder, recua e trás o oponente toureado e quando se fecha dificilmente lhe sai da cara.
Aposento da Moita, o Ressurgir de um grupo de primeira linha! Leonardo Mathias, tomou os comandos do grupo em Maio passado na praça de toiros de Almeirim, era a sua estreia como cabo, a ansiedade e responsabilidade dessa tarde eram muitas… Não houve passagem de testemunho em praça, por motivos profissionais o antigo cabo José Maria Bettencourt teve que se ausentar do País e o Leonardo foi o escolhido entre os seus pares para a chefia o Grupo. Tarde de triunfo, de superação, e confiança para o resto da temporada.
Os últimos anos não têm sido fáceis para o Aposento… Mas este ano com algumas corridas muito difíceis como as de Coruche, Caldas e Moita o Grupo mostrou união, gente nova e vontade de voltar às grandes tardes e noites.
O Leonardo foi exemplo disso mostrando orgulho, ambição e grandes conhecimentos em cada corrida aos seus pares, mostrando acima de tudo o que é ser forcado. Grandes pegas em Almeirim, Lisboa e na Moita marcaram a temporada deste grande forcado em que o mando, poder e domínio estão sempre presentes.
Outro forcado que se destacou esta temporada foi Martim Cosme Lopes, forcado com raça, força, poderoso e demonstra que os toiros são para se pegar à primeira, exemplos disso são as pegões na Moita em Maio e Setembro, Lisboa, e Caldas.
Da nova vaga João Gomes têm tudo para ser um enorme forcado, exemplo disso foi a pega realizada em Lisboa. Foi devagar para a cara do toiro, falou, citou com graça e mandou vir o oponente… o Passanha arranca a “dois tempos”, o João templa, espera, toureia a investida para o receber, pena não ter concretizado a pega, derrote lateral de um toiro fechado de cara e o forcado sai … Na segunda tentativa, novamente derramou a arte de bem pegar toiros na arena do Campo Pequeno, mais sereno e toureio ainda. Cita, espera, fala, recua e toureia…Concretiza para mim uma das pegas da temporada, tudo bem feito!
Coruche, esforço, perseverança e dedicação! O grupo de Forcados Amadores de Coruche, têm vindo a desenvolver um trabalho sem precedentes em prol da Festa e da cultura taurina numa altura em que a tauromaquia está a atravessar um período de dificuldades. Organizando durante todo o ano actividades culturais e eventos de solidariedade para não se perderem raízes das nossas gentes e da sua cultura.
Em praça mostram sempre um espírito de união enorme, cumplicidade, amizade, mas sobretudo pela solidariedade que têm uns com os outros quando vão para dentro da arena, sendo a figura do Cabo José Tomás central e agregadora nos comandos do grupo.
Nomes como: José Tomás sempre tecnicamente perfeito; João Ferreira como sempre, enorme a recuar e a mandar na investida com arte e com braços de ferros; Fábio Casinhas valoroso e sempre com enorme decisão; António Tomás perfeito no cite, recua como poucos e pega com galhardia; Miguel Raposo sabedoria, técnica e valor. Foram nomes que marcaram esta temporada para os Amadores de Coruche. Não tendo sido a temporada redonda do ano de 2018, voltaram a pisar os grandes palcos e erguer o nome do Sorraia bem alto.
Moura, Elvas e Monsaraz também tiveram uma época brilhante destacando a forma como se encerraram sozinhos com seis toiros, sendo sempre uma prova de superação para qualquer Grupo.
Forcados como o cabo dos Amadores das Caldas, Francisco Mascarenhas que esteve monumental na corrida da TVI em Lisboa e João Saraiva, do Aposento da Chamusca na corrida de Gala da RTP também merecem sem dúvida um lugar de destaque na temporada de 2019.
Um Bom Ano 2020 e que Deus Reparta a Sorte por todos!










