75 anos do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa

Não é fácil escrever sobre a nossa vida, manter a isenção, permanecer focado e objectivo, felizmente o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa é mais do que uma parte importante da minha vida, é seguramente a parte mais importante da vida de centenas de homens que por ele passaram, o legado de Mestre Nuno Salvação Barreto é parte importante da história.

 

No dia 14 de Agosto de 1385, um grupo de rapazes valentes a quem chamavam Ala dos Namorados derrotou definitivamente o exército castelhano sob o comando de D. Nuno Álvares Pereira. Líder por natureza, tinha o condão de juntar à sua volta os mais bravos cavaleiros do reino.

 

Exactamente 559 anos depois, a 14 de Agosto de 1944 estreia-se em Cascais o valoroso grupo de Forcados Amadores de Lisboa, coincidência ou não, também eles liderados por um Nuno, com a mesma capacidade de juntar à sua volta os bravos de então.

O grupo começa a formar-se nas noites cálidas de 1942 e 43 nas esplanadas de Lisboa. Um grupo de rapazinhos que tinha largado os calções há pouco tempo, mostrava a sua aficción fazendo pegas às cadeiras da esplanada que algum deles empunhava. Os rapazes foram crescendo sem que a concentração de aficción decrescesse, antes pelo contrário. A quem os viu principiar, não passaria pela cabeça o que viria a suceder mais tarde.

 

O grupo começa então uma ascensão meteórica pegando por todos os grandes palcos da tauromaquia nacional e internacional,de triunfo em triunfo assumindo rapidamente a liderança em número de corridas. Madrid, Sevilla, Pamplona, Puerto de Santa Maria, Canárias, Mont-de-Marsan , Nîmes, Arles, Beziers, Fréjus . Sería exaustivo mencionar o percurso e todas as tardes de glória vividas em todos os quadrantes da tauromaquia mundial.

 

A 25 de Junho de 1992 Nuno Salvação Barreto entrega a chefia do grupo a José Luís Gomes, tendo cumprido como ninguém a missão de que se incumbira aos 14 anos de idade, fundou e elevou o seu grupo a um patamar nunca antes visto, saiu pela Porta Grande. Foi um Forcado dos mais notáveis, foi fundamentalmente o maior mestre na arte de pegar toiros.

 

José Luís Gomes, nasceu em Lisboa a 23 de Novembro de 1954, filho do primeiro Novilheiro Português e posteriormente matador de toiros e bandarilheiro Augusto Gomes Júnior, forcado pleno de arte e de técnica, coube-lhe a ele liderar um grupo em renovação, com a difícil tarefa de substituir um homem insubstituível. Com muita entrega e mérito dos forcados dessa altura, conseguiu trazer o grupo de volta ao seu lugar cimeiro, com ele o Grupo chega à Ásia e à América.

 

Tive a felicidade de chegar ao grupo em 1998 levado pela sua mão, o que na altura foi encarado como uma brincadeira, depressa se tornou num modo de vida, na minha escola, na minha família, na família da minha família.

 

Com os mais velhos aprendi a crescer, e tentei ajudar os mais novos a crescerem , dentro e fora de praça.

 

É assim um grupo sólido que José Luís Gomes passa ao comando de seu filho, Pedro Maria Gomes, no dia 8 de Abril de 2010. Nesta data, José Luís Gomes é premiado com a medalha de ouro da cidade de Lisboa e dedica a sua ultima pega aos elementos do seu grupo.

 

Pedro Maria Gomes é o forcado símbolo da entrega ao grupo e do amor pela jaqueta, sofreu enorme colhida na Malveira a 19 de Junho de 2003 que o deixou às portas da morte, mas a vontade de abraçar os toiros foi mais forte. Regressou às pegas e foi o eleito pelos restantes elementos para a chefia do grupo. Com ele chegámos a terras Mexicanas pela primeira vez.

Neste momento o grupo atravessa uma fase fantástica que me enche de orgulho.

 

Agora, retirado, não sinto falta dos toiros… nem das flores, nem dos sorrisos do publico… Sinto  a falta todos os dias… da nossa troca de olhares… da cumplicidade que existe no instante em que toca para a pega… onde sorrimos uns para os outros agarrados ás tábuas… Onde sabemos que naquele momento, nos nossos olhos brilhantes cada um de nós está disposto a dar a vida pelo irmão que tem a seu lado!

 

A mística do grupo é como o historial de uma nação guerreira, olhamos para os antigos como grandes gladiadores que realizaram feitos titânicos sob o comando desse grande líder que foi Mestre Nuno Salvação Barreto. Sonhamos ser como eles, repetir a historia, e cada vez que envergamos esta jaqueta é como um ritual mágico de quem se sente portador do mais poderoso estandarte á face da terra.

 

Amanhã lá estarei , orgulhoso pelos 75 anos do meu Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, ansioso por atravessar a arena ao lado de tantos forcados históricos que me permitiram ter o privilegio de pertencer a esta escola tão marcante e que me proporcionaram os melhores momentos da minha vida.

Quero que os meus filhos nos vejam, e , que um dia se quiserem vir a ser forcados, que sejam dignos para vestir a jaqueta dos Amadores de Lisboa, que a honrem como eu a honro, que se sintam a pessoa mais feliz do mundo quando a vestirem, que sintam o peso da história nos seus ombros…

 

Porque essa, é a maior herança que posso  deixar a um filho… Porque ser do GFAL é a minha maior riqueza e a minha jaqueta o meu maior tesouro!

 

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