Versatilidade do Toiro

Começo este novo desafio encarando a tela do meu computador com a mesma apreensão que sempre tive ao olhar a porta dos curros. Uma mistura de medo com ilusão, em que a ansiedade se entrelaça com uma estranha quietude. Aquela sensação de frio na barriga que antecede a saída do TOIRO.

A quem já passou por esta experiência não é necessário explicar, a quem nunca passou… não adianta explicar porque nunca irá entender.

É impressionante a quantidade de sentimentos contraditórios e apaixonantes que este animal gera em nós, seja qual for a modalidade. No campo ou na praça, numa rua na Terceira ou em Pamplona, quem enfrenta um toiro é tocado pela magia e à sua maneira pinta uma tela, seja com as sedas de um cavalo, com a suavidade da flanela, com um chapéu de chuva ou com um jornal, alguns a corpo limpo. As interpretações do toureio são infinitas, permitidas apenas pela versatilidade desse rei do campo bravo… o TOIRO.

É por isso que me revolta profundamente a facilidade com que se se desvaloriza um tipo de toureio ou se desprezam alguns encastes. Sinto que quem o faz não se apercebe da versatilidade do pilar da festa.

A selecção do toiro bravo é um fenómeno de apuramento genético que permitiu ao longo de séculos adaptar um animal selvagem a todos os tipos de tauromaquia. É surpreendente ver como um toiro da corda sai à rua dezenas de vezes e continua com o instinto perseguidor,enquanto na pastagem ao lado está um toiro de praça que investe com o temple, a nobreza e a repetição que um matador sonha. Bravos… cada um à sua maneira.

Reduzir esta raça a um tipo de toiro pretendido por alguns aficionados, é tão egoísta como um adepto de jazz reduzir a música ao mesmo, ou um impressionista reduzir a pintura a esse estilo. Um toureiro interpreta as suas faenas de acordo com o seu sentimento, como disse o homem que revolucionou o toureio (Juan Belmonte) “ Se torea con el alma, como se sueña y se juega, se baila y se canta”.

Parece natural e até consequente que um toureiro procure um tipo de toiro que se adapte ao seu estilo de toureio. Não se pode pretender que um toureiro tremendista tenha o fino corte de um artista, como não se pode pretender que o artista tenha a abnegação do tremendista. Do mesmo modo que alguns nunca seriam figuras sem os toiros macios, alguns nunca seriam figuras sem os toiros ásperos. Raramente aparecem toureiros que superam as expectativas e se destacam como figuras de época. Eleitos que se adaptam a qualquer tipo de toiro e de investida, que lêem os toiros como um livro aberto, sabem os terrenos a escolher e as distâncias a dar, espremem a bravura e a nobreza até ao limite… Maestros!

O certo é que todas estas possibilidades resultam da versatilidade que advém da selecção do toiro e esta tem como interveniente supremo o ganadero. A escolha da genealogia passa assim pela intuição e gosto pessoal de cada criador que tenta adaptar as qualidades da sua ganadaria ao seu sentimento pessoal. E não se diga que o ganadero procura simplesmente um toiro que invista… não. Enquanto um ganadero dá prioridade a um toiro que humilhe, outro procura um que repita, alguns dão prioridade à entrega no cavalo, outros à investida de largo. As combinações são infinitas, no fim… “o toiro é como um melão, só depois de aberto é que se sabe o que lá está dentro.” É isso que torna o toiro e a sua criação na parte mais apaixonante da tauromaquia.

Actualmente tenho o privilégio de trabalhar de perto com quase todos os ganaderos e é indescritível a paixão que os move. O modo como reconhecem a linha da mãe pela “pinta” do bezerro. É enternecedor como alguns maiorais vivem para a ganaderia e se referem aos toiros como “os nossos”. Ver algumas crianças  crescer para se tornarem campinos como o pai, o avô e o bisavô e usar com orgulho o ferro da casa ao peito. Durante 4 anos zelar diariamente pelo bezerro que se torna toiro.

Por toda esta entrega, é revoltante que se despreze um toiro!

A bravura será sempre uma incógnita, por isso quando um toiro com trapio, idade e cara sai pela porta dos sustos, seja qual for o encaste ou a ganadaria, quem o vai receber sente aquele frio na barriga e aquele misto de sensações que só o rei da festa nos proporciona.

Para quem fica de fora a criticar e às vezes ainda usa o celebre chavão “com toiros destes também eu” , deixo uma expressão taurina de nuestros hermanos: “A toro pasado todos somos Manolete!”

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