Os “Pseudogrupos”

Crónica

Nos forcados, como nos outros artistas do toureio, o que marca são os gestos, os pormenores… Quem vai aos toiros, vai em busca de detalhes de artista que captem a sua atenção, mereçam o seu aplauso ou o “obriguem” a levantar da cadeira.

Eu fui forcado e, por ser uma arte que conheço, todos os pormenores merecem a minha atenção.

Desta forma, constato que continuamos a ter, efetivamente, grandes Grupos de Forcados que são autênticas escolas desta arte, de vida… é, no entanto, pena que, misturados com estes, estejam outros que em nada dignificam esta Figura que cresci a admirar. Esses grupos que chamo de “pseudogrupos “, aparecem muitas vezes em datas importantes e corridas televisionadas e são autênticos professores de “Como não fazer”.

Esta situação, quando em direto para a televisão, é ainda mais grave pela divulgação que tem! Por exemplo, se perguntarmos aos forcados da minha e outras gerações quantas vezes viram as pegas da corrida comemorativa do centenário do Campo Pequeno (1992), chegaremos à conclusão que constituíam um autêntico vídeo de culto! Certamente que muitos quiseram ser forcados depois de ver aquele espetáculo e tantos que, como eu, quiseram imitar a pega do Manuel Murteira, do Jorge Faria ou o combate do Caló daquele dia.

Hoje em dia, adoraria ver pegar mais vezes na TV o Francisco Borges ou o Ricardo Castelo, mais primeiras ajudas do João Ângelo ou o Miguel Ribeiro Lopes a rabejar, que, juntamente com outros nomes, são a prova que continuam a existir excelentes forcados e que deverão ser os grandes exemplos para as gerações seguintes.

Em vez disso, entram-me pelo ecrã, não todos, mas na sua grande maioria, forcados da cara mal preparados, sem “escola”, pegas mal ajudadas, grupos que, de Forcados só têm a farda, e que só estão ali por questões que nada têm a ver com a respetiva qualidade. Esta situação é, na minha opinião, um problema grave e que põe em risco a posição do Forcado no futuro e pergunto-me: Quem tem a obrigação de pôr um termo a isto? Para mim só há uma resposta: os Forcados! São eles que precisam de ter coragem de separar o “trigo do joio” e juntar os Grupos que, efetivamente, valorizam esta figura.

Tem de haver a coragem por parte dos verdadeiros Grupos de Forcados de se desmarcarem daqueles que só andam na festa em busca de protagonismo e aí se vão mantendo devido a patrocinadores que, dessa forma, entendem estar a ajudar esses “pseudogrupos”. Havendo essa coragem por parte dos Forcados, as consequências negativas poderão passar por uma maior dificuldade em arranjar corridas ou ficarem afastados de datas importantes, que, vendo bem, são situações que já constituem a realidade atual.

Existe uma Associação, cujo funcionamento interno conheço mal, mas que, do meu ponto de vista, não está a contribuir para a melhoria da imagem do Forcado e que, a continuar nestes moldes, não tem razão de existir. Não estou com isto a criticar aqueles que a fundaram, pois teriam certamente as melhores das intenções, mas, efetivamente, esta instituição não evoluiu no melhor caminho.

Precisa-se de uma Associação onde só estejam os Grupos que são comprovadamente escolas de Forcados, de valores, de amizade, que tenha os corpos sociais eleitos e com rotatividade obrigatória, com uma contabilidade organizada, transparente e acessível aos associados. Onde exista uma Direção conhecedora, que apresente um plano de atividades anual que seja cumprido e onde constem iniciativas que valorizem os Grupos, que os consigam manter unidos dentro de um espírito de rivalidade saudável e em prol de um bem comum. Aqui usaria a expressão, “uma Direção que não esteja ali para fazer amigos”, pois há muitos nãos para serem ditos e pior que decidir mal é não decidir e deixar as coisas nos moldes atuais.

Há uma situação que nos verdadeiros Grupos é lembrada, mas fora deles ignorada: a imagem do Forcado foi construída graças a muitos que, de forma mais ou menos mediática, deram o melhor que puderam por esta arte e é da responsabilidade de quem veste uma jaqueta honrar e dignificar esse testemunho. Quem não sente este peso nas costas não é digno de vestir uma jaqueta!

João Camejo

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