Neste artigo optei por opinar sobre um pormenor que considero essencial no toureio a cavalo. Será unanimemente aceite que para se ser toureiro e, mais ainda, figura do toureio, há que conjugar uma série de características ou capacidades, tais como valor, arte, conhecimento do toiro, sentido de lide, sentido de espectáculo e mais uma série de delas, alguns destacam-se por umas, outros por outras. Para se chegar a este ponto no toureio a cavalo há ainda duas variáveis: ter cavalos bons com vocação para tourear e ter conhecimentos técnicos de equitação para lhes dar arranjo de forma a aproveitar da melhor maneira as suas qualidades.
Noto, hoje em dia, que cavaleiros com muita sensibilidade e que reúnem apodos que poderiam fazer deles casos sérios no toureio, pecam por falta de bases de equitação ou de arranjo nos seus cavalos. Dos cavalos há que esperar que tenham maturidade para aguentarem a enorme pressão que é enfrentar toiros, assim como por que cheguem a uma fase de ensino e sujeição que permitam ao cavaleiro a condução por terrenos onde as actuações resultam triunfantes. Posto isto, o bom arranjo das montadas é fulcral no toureio a cavalo com qualidade, independentemente dos estilos. Para além disso, os alardes de alta escola só engrandecem, ligam e conferem maior graciosidade às lides.
Todos os cavaleiros de destaque na rica História da Tauromaquia ou foram acompanhados por grandes cavaleiros, ou eles próprios assim o foram, ou sentiram a necessidade de evoluir na sua técnica em determinada fase da sua carreira…
oO Sr. João Núncio, máxima figura do toureio até à sua época, é reconhecido por todos como um grande equitador. O Eng José Samuel Lupi, era tido como um cavaleiro muito desembaraçado, na sua época áurea em que foi figura em quase todos os países taurinos montava e contava com o apoio de D. Francisco Mascarenhas, exímio equitador com uma vocação especial para o toureio por ser também cavaleiro tauromáquico. D. Alvarito Domecq a partir de certa altura montou com as maiores referências europeias de equitação do seu tempo, fundando a Real Escuela Andaluza de Arte Ecuestre, tendo um currículo invejável não só como toureiro mas também como impulsionador da boa equitação em Espanha. José Mestre Baptista, que muitos dos que tiveram a sorte de o ver consideram o melhor, a certa altura sentiu limitações na sua equitação e procurou desenvolvê-la tendo aulas com Mestre Nuno de Oliveira, tão só uma das maiores referências mundiais de equitação no séx XX. João Moura, possivelmente a maior figura do toureio a cavalo de todos os tempos, começou com os cavalos arranjados pelo seu Pai que era um excelente equitador e certamente que muito com ele aprendeu, dizem ainda os que conhecem o seu trabalho em casa que tem uma mão de uma sensibilidade extraordinária, conseguindo tirar partido de qualquer montada. Paulo Caetano preocupou-se de tal maneira com a equitação que é actualmente treinador de cavaleiros de competição na disciplina de dressage, nomeadamente da sua filha Maria que actualmente ocupa uma posição no Top 100 do raking mundial. António Ribeiro Telles, quanto a mim a mais elegante figura a cavalo da actualidade, reconhecido como um cavaleiro de excepção, para além de ser filho de Mestre David Ribeiro Telles, afamado pelo arranjo que tinham os cavalos da sua quadra, foi ainda aluno de Mestre Nuno de Oliveira. João Salgueiro montou muito com o seu Avô, Dr. Fernando Salgueiro, para além de toureiro, ficou famoso pelo seu ecletismo equestre e por ser um finíssimo equitador. Ainda Pablo Hermoso de Mendoza e Diego Ventura, essas duas grandes figuras da actualidade, que se apresentam invariavelmente em praça com um arranjo irrepreensível dos seus cavalos, para além de serem notoriamente dois grandes cavaleiros, têm a preocupação de entregar alguns dos seus cavalos novos a equitadores da sua confiança apenas para que lhes dêem boas bases de equitação antes de começarem a tourear.
Muitos mais exemplos haverá, estes são aqueles que achei mais pertinente referir para suportar a minha tese. Até os toureiros que têm em mente a importância do arranjo perdem belíssimos cavalos por erros cometidos no seu percurso. Creio piamente que em cavaleiros com menos formação equestre mais facilmente se desperdiçam cavalos, sobretudo alguns cracks que geralmente tem mais génio, agressevidade e inerentemente, maiores complicações no ensino. E ainda que não se percam, reforço, muitos não serão aproveitados no pleno das suas possibilidades.
Tenho para mim que seria importantíssimo para todos os cavaleiros tauromáquicos durante parte do defeso montarem com algum equitador não toureiro, seja para aprender, experimentar diferentes abordagens da equitação, trocar impressões e ideias ou só mesmo para, durante uns dias, não estarem focados na finalidade mas sim na base, base essa que qualquer cavalo precisa de ter para vingar seja qual for a função a que se destina.
Não pretendo com este artigo criticar ou apontar o dedo a nenhum artista, desejo sim que todos tenham ciente a importância do ensino para atingirem o patamar de figura que qualquer um ambiciona. Sou, como referi em textos anteriores, um apaixonado pelos cavalos e, em especial, pelos cavalos toureiros. A paixão por este animal não se deve exclusivamente à sua beleza, mas ao facto de um dia o Homem ter percebido que ao escarranchar-se no seu dorso e ganhando a sua confiança poderia aí ter um aliado para as mais diversas funções. Esta é a base de tudo, e a isto se chama equitação! Felizmente esta técnica e arte milenar teve uma grande evolução ao longo dos tempos, permitindo tirar o maior partido deste animal que a tantos nos apaixona. Que a equitação esteja ao serviço do toureio para gáudio dos seus intérpretes e dos meros aficionados como eu!
Ilustração: Joaquim Pedro Quintella











