Vivemos dias de enorme complexidade.
Se por um lado não há ninguém minimamente consciente que coloque em causa a necessidade de tratarmos o tema da pandemia com o máximo de precaução, por outro lado, todos percebemos que a vida tem de continuar porque, não tendo as pessoas nem as empresas capacidade para hibernar, se não houver atividade, não morremos de COVID mas morreremos de fome ou de loucura.
O equilíbrio entre estas duas questões é certamente muito difícil e, infelizmente, os governantes, na ânsia de atender aos dois temas em simultâneo, passam os dias a dar “uma no cravo e outra na ferradura”, deixando-nos baralhados e, pior que isso, descrentes nas suas palavras, nas suas estratégias e na sua capacidade.
No meio deste turbilhão, que resultará inevitavelmente numa crise económica grave e de dimensões que ainda desconhecemos, vive a Tauromaquia.
Naturalmente a dinâmica da Tauromaquia, expressão da cultura popular portuguesa (como diz a lei), teria de ser fortemente afetada pelo Coronavírus, tal e qual como as demais atividades desportivas e culturais que congregam público, sendo que, no que toca à quantidade de público, a Tauromaquia só tem comparação com o Futebol, com os Festivais de Música e com os grandes Concertos. Neste domínio não somos “mais que os menos” e foi por isso que, até antes do Governo o decretar, houve promotores de espetáculos tauromáquicos que, a bem da saúde de todos, decidiram adiar ou anular esses mesmos espetáculos.
Até aqui não tínhamos nenhuma razão de queixa, a não ser lamentarmo-nos, como toda a gente, por ter surgido este raio de doença para a qual não temos vacina, nem cura.
O tema começou a complicar-se quando, na preparação do desconfinamento, a tentação da ditadura do gosto começou a tomar conta da atuação do governo e das entidades que dele dependem. Estava aqui mais uma oportunidade para tentarem enfraquecer e diminuir a Tauromaquia, agenda que escondem nas campanhas eleitorais, mas que impõem depois dos votos recolhidos.
E foi assim que, durante semanas, a DGS e a IGAC não responderam às sucessivas tentativas de contacto das entidades que representam o setor da Tauromaquia que queriam conhecer expectativas e construir planos de contigência.
Pensaram os mais crédulos, ou inocentes, que tal se devia às grandes dificuldades que estas entidades estariam a viver que as impediam de dar atenção aos diversos agentes culturais que ansiosamente queriam preparar o reinício das suas atividades para logo que possível.
Mas não. Estas entidades governamentais não tinham dificuldade nenhuma em reunir N vezes com a Liga de Clubes, com os promotores de festivais de música, ou com os representantes das salas de cinema. Simplesmente se limitavam a ignorar a Tauromaquia, atividade tão legal e legitima como qualquer outra daquelas que tutelam e com quem foram preparando o desconfinamento. Tinhamos a ditadura do gosto em funcionamento!
Foi assim que chegou o dia 30 de maio no qual o Governo decretou as regras de desconfinamento das atividades culturais, deixando apenas de fora as Grutas e as Praças de Toiros, numa imagem feliz para aqueles que querem ver a tauromaquia num buraco.
Note-se que o Governo não decretou que não podia haver corridas de toiros mas sim que as Praças de Toiros não podiam abrir.
Para cúmulo dos cúmulos, após decretar que as Praças de Toiros não podiam abrir, anuncia-se que o primeiro grande espetáculo cultural do desconfinamento, ao qual o próprio Presidente da Républica e membros do governo iriam assistir se iria realizar… no Campo Pequeno, numa Praça de Toiros!
Julgam que foi por acaso? Não foi. Foi mesmo para nos achincalhar e para nos dizerem que, para eles, o Campo Pequeno já não é uma Praça de Toiros. Se fosse, estava proibida de abrir.
Não aceitando isto houve uma pequena ação de protesto da Tauromaquia na porta do próprio Campo Pequeno no dia do tal espetáculo.
Para não enfrentar tal manifestação, o Presidente da República, aficionado aquando da caça ao voto, mas que deixou de o ser depois dos votos recolhidos, mudou cobardemente a sua agenda. E a Ministra da Cultura, que, cobardemente, entrou pela porta dos fundos, mandou o IGAC dizer que se ia marcar uma reunião para que se pudesse decretar a abertura da Tauromaquia na próxima decisão do Conselho de Ministros (que seria a 12 de Junho).
Após a dita reunião que juntou DGS, IGAC e representantes do setor, a Tauromaquia lá esperou, pacientemente, pela dita decisão de reabertura e pelas regras da mesma.
No dia 12 de Junho o Governo manda-nos “areia para os olhos” e diz que a Tauromaquia pode abrir… mas só quando a DGS ditar as regras. E lá ficámos novamente pacientemente à espera.
Uma semana depois chegam as regras que supostamente vinham viabilizar a reabertura da atividade. No meio de um conjunto de regras especificas da organização do espetáculo, lá vinha o presente envenenado: em vez de 50% de lotação, lugar sim, lugar não, com lugares cruzados nas filas, como nos demais espetáculos culturais, inclusivamente aqueles que se realizam em recintos fechados, a Tauromaquia só poderia abrir com 25% de lotação, ou até menos, pois é preciso 1 metro de distanciamento entre lugares ocupados e metade da lotação fica logo impedida pois fila sim, fila não, tem de haver uma fila desocupada.
25% de lotação não é um acaso. As entidades governamentais que emitiram estas regras sabem perfeitamente que com 25% de lotação o espetáculo tauromáquico é financeiramente inviável. Mas a decisão é ainda pior que isso!
Para um concerto a Praça de Toiros do Campo Pequeno pode abrir todas as filas, lugar sim, lugar não (50% de lotação), como aliás já fez com a presença dos nossos governantes. Para uma corrida de toiros, exatamente no mesmo espaço, onde o público se irá sentar exatamente da mesma forma, tem de haver uma fila de distanciamento (25% de lotação). O gozo é total!
Começam por nos ignorar (não deram resposta aos pedidos de reunião), a seguir secundarizam-nos (ficámos para depois de todos os outros), depois provocam-nos (decretam as Praças de Toiros fechadas, mas abrem o Campo Pequeno) e agora até já gozam connosco!
Nós aficionados somos gente boa e gente de bem. Ao longo das últimas dezenas de anos temos respondido com elevação e tranquilidade aos insultos com que uma pequena minoria nos brinda, às provocações que nos fazem, às mentiras que propagandeiam, às manobras baixas e encapotadas com que nos tentam minar e enfraquecer.
Mas não confundam a nossa elevação e a nossa tranquilidade com cobardia ou com resignação. Na Tauromaquia, além de muitos outros valores, cultiva-se a Valentia, a Superação e a União. E é com isso que contam agora que decidiram gozar connosco.
Tal como a ANGF disse ontem no seu comunicado no qual, de forma mais uma vez responsável e a pensar no bem maior, desconvocava as Marchas pela Tauromaquia, nós aficionados estamos cá para vencer esta pandemia, mas também estamos cá para vencer todos aqueles que querem acabar connosco.
É que a Cultura é do Povo e o Povo somos nós!
Sim! O Povo somos nós! Somos o Povo que vota desde o PCP ao Chega, passando pelo Bloco de Esquerda. Somos o Povo que vive nas aldeias, nas vilas e nas cidades de Portugal. Somos o Povo do Norte, do Centro, do Alentejo, do Algarve e dos Açores. Somos o Povo do Litoral e do Interior. Somos o Povo que compra bilhete para a última fila ao Sol e o que compra uma Barreira de Sombra. Somos o Povo das esperas, das largadas, das vacadas, do forcão, da corda e das corridas formais. Somos o Povo que se senta aos milhões à frente da televisão em dias de Corridas televisionadas. Somos o Povo que sustenta um espetáculo que não recebe um euro do orçamento do Ministério da Cultura mas que para ele contribui com centenas de milhares de euros todos os anos. O Povo somos nós!
E enquanto houver uma parte do Povo português que queira que haja Tauromaquia, ninguém vai acabar connosco. Mesmo que nos afoguem com impostos, mesmo que ilegalmente nos discriminem, mesmo que algum dia no Parlamento haja uma maioria de deputados que seja anti-taurino, a Tauromaquia nunca acabará por decreto político.
Enquanto houver um toiro no qual corra nas veias o sangue bravo, alguém que tenha a coragem de se lhe pôr diante e um aficionado que com isso se fascine, a Tauromaquia não acabará!
Em Santarém, onde temos orgulhosamente a Maior Praça do país, onde ainda no ano passado estiveram 25.000 espectadores em apenas 3 espetáculos, estamos a preparar tudo para voltar a celebrar Corridas de Toiros, garantindo a segurança que esta situação exige, mas garantindo também que em 2020, com ou sem pandemia, continuará a haver Tauromaquia em Santarém e em Portugal.
Contam connosco para vencer a Pandemia, mas também contam connosco para lutar pela nossa Cultura, pela nossa Liberdade e pela nossa Festa!










