As corridas de toiros, entre outras coisas, são um nível da amostra que podem atingir colectivos humanos como um factor capaz de colocar em alerta os neurónios sensoriais dos indivíduos. Em suma, as corridas são, entre outras coisas, um misto de humores, estados de alma, termómetro de uma massa heterogénea a que chamamos de público quando afectados por uma causa comum: a emoção.
Emoção é, por norma, o ponto fulcral de uma corrida. Sem emoção, as corridas seriam uma arte ou coisa que não faria muito sentido… Seriam uma maçada.
Acontece, porém, que a Festa depende principalmente do grau de emoção fornecido pelo seu elemento fundamental e principal: O toiro. Se o toiro não emocionar com a força, bravura e casta, falta tudo ou quase tudo a uma corrida de toiros… E a grande maioria dos toiros lidados ontem na Moita, numa casa que teve 3/4 de praça preenchidos, faltou-lhes casta e bravura. E sem casta e bravura, não existe muita emoção!
Era um concurso de ganadarias a segunda corrida da Feira da Moita 2019 e nela estavam seis toiros a Concurso de seis ganadarias diferentes. Não foi uma corrida parelha a nível de apresentação… Houve de tudo como na farmácia, desde os bonitos primeiro e sexto, aos bastos terceiro e quinto, passando pelos harmoniosos segundo e quarto. De comportamento foram mais homogéneos… Onde faltou bravura a quase todos. Com destaques pela positiva para o manso encastado primeiro de Jorge de Carvalho, ao nobre Passanha e o que mais qualidades teve foi o de Mata o Demo, toiro que meteu bem a cara nos capotes, e acometida com nobreza e alegria ao cavalo. O de Condessa de Sobral foi manso e desinteressado, o de Ascenção Vaz teve querenças, andou a passo e veio a menos e o de Prudêncio foi um manso com perigo.
António Ribeiro Telles abriu a noite diante de um Jorge de Carvalho que na primeira fase da lide se mostrou distraído, mas veio a mais. António, “encheu o toiro de cavalo”, tampando defeitos e acentuando as suas virtudes, a mobilidade e a casta. Foi a lide mais completa da corrida sem chegar a ser de triunfo gordo, bem nos compridos e nos curtos cravando com a mestria que nos tem habituado ao longo da sua carreira e senhor de uma brega de altos quilates.
Luís Rouxinol, teve por diante um Condessa de Sobral terciado, com pouca casta, com muitas querenças e remisso a acometer ao cavalo quando o via por diante… Rouxinol andou esforçado, cravando a ferragem da ordem com correcção e tentado sacar água de um poço quase seco, rematou a lide com um bom ferro de palmo.
João Moura Jr., enfrentou o maior, um Ascenção Vaz, alto, grande e pouco fino de tipo. Foi um toiro com querença em tábuas e mais na zona dos curros. Moura, tentou tudo para triunfar mas sem ovos não se podem fazer omeletes, isso sim cravou os ferros com limpeza com destaque para um que mostra bem o que leva dentro este cavaleiro… Aguentou uma barbaridade a acometida do toiro que vinha a passo e cravou quanto a mim o ferro da noite.
A Andrés Romero, tocou em sorte o toiro da ganadaria Passanha, toiro bonito e bem apresentado, foi nobre, teve qualidade mas depois dos ferros não rematava com emoção.
Romero, desenvolveu uma lide que chegou ao público, cravando a ferragem com limpeza, mostrando alguns detalhes de boa nota artística.
Um quinto lugar saiu o “garbanzo negro” da noite e de muitas noites… Toiro manso de livro, perigoso, e o que queria era fugir dali para fora e até a trincheira saltou…. Luís Rouxinol Jr., esteve enorme e deu a volta a uma “tortilha” difícil… Cravou ferros de grande valor, tentando desenganar o toiro, tanto a sesgo como nos médios, bem a bregar. Lide com muitos argumentos, cabeça, conseguiu superar as dificuldades do toiro e cravar ferros de alta nota, para mim o triunfador da noite.
Fechou a noite o mais bonito do concurso, toiro baixo, harmonioso de tipo, bonito de cara e colorado de capa, um Mata o Demo. Foi nobre, meteu a cara com qualidade nos capotes mas também ele teve várias querenças na arena, isso sim delas saia facilmente e sem maldade. António Prates, desenvolveu um lide vibrante por vezes até atacado de toiro, pedindo este uma lide mais templada e pausada para lhe serem aproveitadas as qualidades. Mas sede de triunfo é compreensível para um toureiro que começa, isso sim cravou bons ferros em entradas com vibração e que chegaram aos tendidos.
Nocturna que quinta-feira da Feira da Nossa Senhora da Boa Viagem na Moita é sinónimo de encerrona para o Grupo de Forcados do Aposento da Moita.
Fazia a estreia como cabo na Feira Leonardo Mathias e a noite não foi fácil… Toiros mansos é sinónimo de noite de aperto para os forcados e assim foi!
Abriu a noite Ruben Sarafim à terceira tentativa, num toiro que tinha uma investida dura por baixo e quando sentia o forcado na cara afocinhava na arena. João Ventura à segunda num toiro que até não metia mal mas quando sentia o forcado fugia desalmado praça fora para a sua querença… Saindo maltratado o ajuda Manuel Mendes, que felizmente acabou por recuperar. Para a cara do terceiro foi Martim Cosme que fez um pegão a um toiro tardo de investida, mediu o forcado de alto a baixo, escarvando uma barbaridade com o forcado a poucos metros e arrancar descomposto, braços de ferro, grupo a ajudar bem e pega realizada com brilhantismo. O cabo Leonardo Mathias foi para a cara do Passanha e realizou outra grande pega à primeira tentativa, bem a receber, a trazer o toiro toureado e a fechar com galhardia, grupo a ajudar com eficiência. Para a cara do Prudêncio saltou Martim Afonso que saiu visivelmente maltrado, com um toiro a meter um piton e a derrotar forte para cima. Marco Ventura, foi para a dobra e à terceira tentativa a sesgo resolveu um grande problema. Fechou a noite João Gomes à terceira tentativa ao qual no meu ponto de vista lhe faltou alguma calma e mandar mais na investida do toiro, saindo este sempre a “su aire” e a derrotar forte.
Como se tratava de um Concurso de Ganadarias havia dois prémios em disputa, Bravura e Apresentação sendo ganhos pelo toiro de Mata o Demo. Foram júris para o prémio de bravura a Sociedade Moitense de Tauromaquia e para o Prémio de Apresentação o Aposento da Moita.
Incidências da corrida: Durante a lide do quinto toiro foi colhido com alguma gravidade o fotografo Fernando Clemente, após o toiro ter saltado a trincheira. Um abraço Fernando e melhoras.
Dirigiu a corrida de forma correcta Ricardo Dias assessorado pelo médico veterinário Carlos Santos.










