30.07.2020 Praça de Touros do Campo Pequeno, Lisboa, 1.ª de Abono
Cavaleiros:
Luis Rouxinol
Marcos Bastinhas
Duarte Pinto
Ganadaria: Dr. António Raul Brito Paes
Grupos de Forcados Amadores de Santarém e Lisboa, capitaneados pelos Exmos. Senhores João Grave e Pedro Maria Gomes, respetivamente.
Lotação: praça cheia sem esgotar (tendo em conta a limitação reduzida para 50% da capacidade).
Espetáculo com direção de Sr. Tiago Tavares, discreta e sem incidências, coadjuvado pelo médico veterinário, Dr. Jorge Moreira da Silva.
De tempos em tempos a Humanidade é posta à prova, é assim desde o princípio, ciclicamente, e sabemos que não fica por aqui.
Somos seres adaptáveis e como tal temos a capacidade de improvisar perante as adversidades, assim se foi construindo a História e as nossas histórias, de todos e cada um.
Não há novas normalidades, há o ontem, que já lá vai, e o amanhã que virá e que desconhecemos, mas que esperamos com curiosidade.
Depois de libertos da cápsula temporal que nos congelou por tempo determinado, depois da tentativa do aproveitamento desleal dessa circunstância, para nos asfixiar, voltámos.
As primeiras palavras não podem deixar de ser para o Dr. Luis Miguel Pombeiro, na qualidade de concorrente vencedor do concurso para exploração da Praça de Touros do Campo Pequeno, e para os demais concorrentes não vencedores.
Porque, à semelhança dos nossos antepassados e perante mares nunca dantes navegados, arriscaram, não temeram os monstros do desconhecido e quiseram dar touros em Lisboa, com todos os perigos anunciados pelos Velhos do Restelo.
Quis Deus e Fortuna que essa empresa coubesse ao Dr. Luís Miguel Pombeiro, a quem felicito pela coragem e ousadia de içar vela e fazer-se ao mar.
Que consiga passar o Bojador, passando além da dor. O seu sucesso é o sucesso da Tauromaquia, e este, a nossa alegria.
Na rua sentia-se o ambiente do passado, expetativa, curiosidade perante tantas mudanças, tantas regras que pautarão o nosso futuro incerto, mas quase seguro, e a praça lisboeta, aos poucos e de forma ordeira, o que nos pauta a todos nós aficionados, foi preenchendo a sua lotação até uma meia casa, em tempos idos, casa cheia, sem esgotar, nos dias que correm.
Cortesias atípicas, mas rápidas, o que se revela positivo para o espetáculo, habitualmente muito demorado, tocou-se o Hino no arranque e prestou-se homenagem aos Caídos na guerra pandémica, em especial ao Matador Mário Coelho, colhido fatalmente por cornada viral.
Muita expetativa para a corrida embarcada pelo Dr. António Raul Brito Paes, triunfador da passada temporada lisboeta. Corrida séria, pesada, com hondura, algo distraída na generalidade, de saída, e também revelando alguma falta de força, com destaque para um bom quinto, premiado com volta à arena e volta ao campo.
Uma nota prévia quanto às medidas impostas pela DGS, em coordenação com a IGAC, se louvamos o procedimento ordeiro e eficaz quanto a cortesias, entrada e saída de público, achamos contraproducente a entrada e saída dos grupos de forcados em cada touro, o movimento de dezoito forcados da trincheira para o pátio de cavalos em cada touro acarreta maiores eventuais riscos do que estarem disciplinadamente sossegados nos burladeros que lhes compete. O mesmo se aplica a apoderados, num entra e sai, ou sobe e desce, da trincheira para a bancada e vice-versa em cada atuação do seu toureiro. Existem burladeros, são suficientes, conjugado com a obrigação de uso de equipamento de proteção individual, não vemos que aumente exponencialmente o risco.
Vamos ao que interessa, a corrida em si.
Inaugurou a temporada o veterano Luis Rouxinol, habituado a não defraudar, recebeu um primeiro distraído e desinteressado que apenas deu importância ao toureiro após a série de compridos. Andou sempre meio reservado e sem ligar a lide, não chegou para aquecer os ânimos nem certamente para o triunfo que esperaria Rouxinol.
Pelos Amadores de Santarém foi à cara Salvador Ribeiro de Almeida, consumando à segunda, sem problemas, reunindo corretamente e levando o touro para o meio do grupo que ajudou em todos os setores. Na primeira tentativa fica-nos a sensação de que Salvador se desequilibra, recuando e por isso não consegue reunir.
Ambos agradeceram nos médios, em substituição, imposta, da volta.
O segundo calhou a Marcos Bastinhas que o parou com vistosidade e eficácia, o touro saiu com mais fijeza e com um galope agradável para a lide a cavalo, sem apertos e cómodo, embora se tenha deitado no decurso da lide, não comprometeu a atuação, tendo vindo um pouco a menos, Marcos, inteligentemente, deu a lide por terminada, fechando com o par de bandarilhas marca registada.
Pega efetuada à primeira tentativa por Duarte Mira, doa Amadores de Lisboa, sóbrio no brinde, cite e toureio, entrou nos terrenos do touro para o fazer sair e reunir tecnicamente perfeito, levando-o para o grupo, onde este o ajudou, tapando fugas.
Ovação nos médios para Cavaleiro e Forcado.
O terceiro, lidado por Duarte Pinto, foi um touro sério, comprido, hondo, impunha respeito e fazia-se respeitar, distraído de saída, dificultando a tarefa a Duarte no que aos compridos diz respeito.
A lide não ganhou dimensão pela reserva do oponente, pouco colaborador e sem permitir criatividade no toureio, lide esforçada e digna, embora sem o efeito desejado nas bancadas.
Pelos Amadores de Santarém, Joaquim Grave, forcado dinástico, vistoso e alegre no cite, na primeira e depois de estoica luta e longa viagem preso apenas num piton, sem que os ajudas tenham conseguido entrar, saiu.
Na segunda, não reúne corretamente, aparentemente por desequilíbrio, mas consegue emendar-se, recuperando-se na cara e consumando a pega,
Pega protestada por alguns setores em virtude da incerteza se estaria ou não na cara do touro.
Ovação para ambos, novamente com protestos, na dúvida instalada, relativamente à pega.
Sem intervalo rapidamente saiu o quarto da ordem, embora mais pronto que o seu primeiro, não foi ainda a lide que nos habituou Rouxinol, sempre profissional, nunca defraudando, mas gostaria seguramente de ter tido outro êxito. Lide comprometida, compridos que serviram para centrar o oponente e depois, nos curtos, regularidade sem as desejáveis notas mais altas.
Touro nunca se empregou, denotando falta de força.
Vítor Epifânio, pelos Forcados de Lisboa, brindou ao empresário, e citou de largo e com segurança, na primeira fica fora da cara do touro na reunião e tem que repetir.
Pega à segunda, recebendo bem, e consumando, bem ajudado, sem dificuldades.
Ovação para ambos.
O melhor estava reservado para o quinto, que dizem não haver mau.
Bastinhas recebe-o de porta gaiola para depois lhe deixar dois compridos de livro, o primeiro comprido de curto e meia volta, depois de parar muito bem o touro, e o segundo, aguentando a investida de largo, um dos ferros da noite.
Touro com mais alegria e transmissão, pronto, saindo sempre de largo e com fijeza, com toureabilidade, permitiu que Marcos se sentisse a gosto e fizesse o seu toureio alegre, dinâmico e entusiasmante.
Terminou novamente com o par, marca registada, e saiu sob fortíssima ovação.
António Queiroz de Melo, pelos de Santarém, na primeira tentativa vê o touro sair de largo com velocidade, reúne bem, mas muito duro, sofrendo violento derrote para cima, tirando a cara, difícil de ajudar.
Na segunda o touro tira novamente a cara, como na primeira inviabilizando a pega.
Consuma à terceira, finalmente recebendo bem e entrando pelo grupo.
Volta para o touro aquando da recolha e ovação para Cavaleiro e Forcado, com nova chamada aos médios a Marcos, quando se dirigia para a Porta de Cavalos.
Fechou a primeira noturna Duarte Pinto, no principio o touro emparelhava-se ligeiramente e não rompia a investir, frenando nas reuniões, Duarte encastou-se, ligando-se mais ao oponente, já acoplado, o que permitiu que Duarte deixasse dois dos melhores ferros da noite, o antepenúltimo e penúltimo curtos, com grande impacto nas bancadas e deixando um sabor doce na hora da partida.
Para a derradeira pega, pelos Amadores de Lisboa, o consagrado João Varanda de Carvalho, num brinde aos Deputados da Assembleia da República ali presentes, manifestando, sem complexos e preconceitos, o seu apoio à causa taurina, retribuído com a maior ovação da noite.
Na primeira tentativa o touro sai com muita pata e surpresa, ocasionando uma reunião deficiente, dura e por baixo, saindo o forcado depois da primeira ajuda.
Na segunda reúne com pouca ortodoxia, aproveitando um tropeção do touro, reúne bem e vai fechado saindo na trincheira, faltando ajudas para poder consumar.
Na terceira apenas é ajudado pelo primeira ajuda João Dias Abreu, que vem ajudando e recuperando até ao limite, esperando-se depois a entrada dos segundas e terceiras, o que não se verificou, faltou coesão e confiança no setor traseiro, num touro que, manifestamente, tirava a cara no final da viagem, deixando o forcado despejado no vazio.
Na quarta já nem mete a cara e embora o forcado fosse colocado na cabeça, decide e bem repetir, para dissipar dúvidas.
Pegado à quinta, como se pôde, não se livrando da contestação por parte do público, tal como a pega do grupo de Santarém, por se desconhecer se estaria ou não na cara. Louva-se a atitude, honra e pundonor por querer repetir e fazer bem, depois de várias tentativas frustradas, pena que tenha prevalecido a ineficácia.
O Hino tocado ao inicio deu lugar as instruções de saída com ordem e disciplina.
Voltámos ao futuro, fazemos tudo como no passado, mas de forma distinta, saímos da cápsula que nos reteve, e voltámos ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído, voltámos diferentes para encontrar um lugar diferente, mas somos dotados de adaptabilidade e otimistas por natureza.
Desconhecemos o amanhã, mas procuramo-lo com muita vontade e voltámos a ser felizes, não foi a noite artística sonhada, mas foi a primeira de muitas segura e desejavelmente melhores.
Como disse Ludwing “Lale” Einsenberg, o tatuador de Auschwitz, preso no infame campo de concentração, “se acordarmos pela manhã, é um bom dia”, e nós, taurinos, acordámos.










