Deve ser terrivelmente difícil ser acordado pela realidade em pouco mais de duas horas! E a realidade de ontem é que os toureiros em praça que tinham a “necessidade urgente” de triunfo, ao terem uma única carta na mão não depende de si mesmos, mas das muitas outras cartas que compõem o baralho, ou seja, das múltiplas e variadas circunstâncias colaterais de uma corrida de toiros. Posto assim, só a sua vontade, ofício, arte, valor não podem ser consideradas garantias de triunfo garantido, pelo contrário, as suas carreiras são muitas vezes regida por contratempos, dos quais o maior é o toiro que tem que enfrentar. Cientes do papel que iam desempenhar na Daniel Nascimento em ano tão atípico como este, três matadores de toiros portugueses abriram o seu peito e alma, movidos pela necessidade urgente de triunfo e de toiro na arena. O ferro não importava. Seis Palhas para três valentes, Nuno Casquinha, Joaquim Ribeiro “Cuqui” e Juanito.
Da Adema veio um curro forte, bem apresentado, gordo, musculado, bem posto de cara, variado de capas, pois houve desde o calçado primeiro, ao entrepelado terceiro, um chorreado em castanho e um colorado e dois negros. De comportamento também houve de tudo como na farmacia… O primeiro foi complicado, ficava curto com rebricadas investidas. Assim que o segundo toiro de nome “Gattito”, com o número 680 nos costados, apareceu na arena, cantou a bondade e as virtudes que levava dentro: Bonito de lâmina, apertado e rematado desde o testuz à penca do rabo, bonito de cara, “un dije”. Um bravo toiro, repetidor, humilhado,ia largo e rematava por baixo, teve durabilidade, nobreza e casta das boas. O terceiro saiu frio e distraído, mas com o decorrer da faena foi mostrando virtudes, como a humilhação e nobreza na muleta, sem ser um toiro de escândalo, foi um bom toiro. O quarto foi um manso sem maldade, com muita querença em tábuas, nunca se fixou na muleta e queria era fugir. O quinto apontou coisas boas no início, mas acabou rachado, à defensiva e rematar os muletazos por dentro e por cima. O sexto era o sobrero, feiote de tipo, foi perigoso e complicado.
A Nuno Casquinha, tocou um lote difícil para se luzir, sim para porfiar, andar em toureiro, com o oficio que se lhe conhece e assim andou toda a noite na Moita. No primeiro ainda se pôde por com o toiro e roubar de um em um algum passe com muito mérito com a muleta por ambos os lados. Em bandarilhas repartiu tercio com o Cuqui e mostrou também ofício a coisa não estava para muito luzimentos. No quarto de capote ainda se pode ver algumas verônicas com gosto, mas o toiro “canto la gallina” e procurou tábuas desesperadamente, o Nuno tentou, tentou e voltou a tentar roubar e ligar alguns passes mas a tarefa foi impossível.
No recebimento de capote Cuqui mostrou ao que vinha… E vinha para triunfar forte na sua terra e assim foi! De joelhos engendrou os lances, rematados com uma bonita larga. Replicou Juanito por chicuelinas. O tércio de bandarilhas com Casquinha, foi eficiente e os pares ficaram reunidos. Cuqui foi aos médios, montera na mão, brindou, ergueu os olhos para as alturas e lá estava, esperando por ele, a glória que é alcançada com um triunfo retumbante e incontestável. Lá estava aquele toiro, com a sorte grande da loteria, pronto para perseguir a muleta do toureiro com galope largo, extraordinária fixidez e humilhação. Iniciou a faena de forma ousada de joelhos em terra. As primeiras tandas em redondo fizeram o público rugir os olés, a música tocou… E os naturales de figura hirta e relaxada, pés pregados na arena e pulso de seda na muleta “sem altos e baixos entre passes” ligados cosendo os muletazos e toureando a gosto. Com a direita, mais um par de tandas em redondo, muleta arrastada ligou e os passes tiveram profundidade e toureio del bueno. Comunhão total com o público já quase rouco de gritar olés que soavam como “soles y troenos”. Glória, para Joaquim Ribeiro “Cuqui” na sua praça!
O sexto, sobrero da corrida, o toiro de lide ordinária ao rematar num burladero partiu um corno. Cuqui mostrou ofício, o valor e a vontade de triunfo não chegaram para conseguir luzimento. O toiro era difícil, com o decorrer da lide foi mostrando más ideias e a faena foi abreviada.
Juanito, que na noite antes tinha toureado na Moita dois Ascenção Vaz, “guapos”, ontem o primeiro que lhe saiu era um “tio com toda la barba”. Não houve muito acoplamento tanto no recibo de capote, nem em bandarilhas. O toiro não mostrava muita fijeza em nada… Juanito, apostou forte e meteu o Palha na muleta, que respondeu com humilhação e algum recorrido, ligou boas tandas em redondo e por naturales. Mostrou que quer ser gente nisto dos toiros, tem todas as capacidades para isso e ontem neste toiro quando lhe fez as coisas bem feitas, deixou a muleta na cara, mandou nas investidas e ligou, surgiram passes de muito valor, tecnica e até alguns com arte dadas as circunstâncias do oponente.
O segundo do seu lote saiu solto, de capote e não houve grandes opções para se recriar. O toiro no segundo tércio e na primeira tanda em redondo pareceu mostrar qualidades, mas foi sol de pouca dura… Começou a defender-se, a rematar os passes por cima e a ficar curto. O João, quis mas o colorado não se dispôs para o triunfo.
Mas há outro nome que marcou a noite… Claudio Miguel! Quando o Cláudio ofereceu o peito ao último toiro, bandarilhas em mão, cravando no alto do morrilho, como um soldado que prega a bandeira que defende de alto do território conquistado. O público de pé ovacionou o mérito deste homem… No primeiro par saiu volteado felizmente sem consequências… Também Jorge Alegrias cravou um bom par neste tercio. Ovação de luxo para estes dois homens de prata!
Volta à arena para o bravo toiro de nome “Gattito”, saído em segundo lugar e também para o maioral da ganadaria.
Ao finalizar o passeillo foi guardado um minuto de silêncio em memória do bandarilheiro Jacinto Fernandes e do forcado Luís Branquinho.
Dirigiu a corrida Tiago Martins, assessorado pelo médico veterinário Jorge Moreira da Silva
Foto Miguel Alvarenga – Farpasblogue










