Académicos de Elvas

O simples facto de ter sido em Elvas, no dia 16 de Maio de 1909, que Juan Belmonte vestiu pela primeira vez “de luces”, aos dezassete anos, já catapultaria por si esta cidade para os anais da história taurina. Em todas as biografias do “Pasmo de Triana” Elvas vem mencionada como local do seu debute “becerrista” e, apesar de já não existir a velha praça que testemunhou a estreia desse colosso, no seu herdeiro espiritual – o Coliseu de Elvas – encontra-se uma placa que recorda a efeméride. Mas Elvas não se relacionou com um único fenómeno da Festa Brava.

 

De facto, a afición sempre esteve presente no espírito da cidade. Uma das razões pelas quais a hoje Praça da República foi aberta no centro da urbe foi precisamente para nela se realizaram touradas e outros divertimentos. E Luís Keil até afirma que a varanda-tribuna da Sé foi mandada executar em 1637 pelo Cabido, em sede vacante, para que daí pudesse “presenciar as touradas e jogos na praça fronteira”. Apesar de esta tese ter sido rejeitada por Mário Cabeças, tendo em conta a dignidade própria de uma Sé, a recomendação ao clero para se abster de assistir a tais eventos e a norma das Constituições do Bispado de Elvas dispondo que nenhum clérigo “[…] de qualquer estado ou condição que seja [ande] no corro aos touros, nem os mande correr, nem seja nisso participante, dando ajuda para se cõprarem, trazerem ou correrem […]”, duvido que o clero elvense conseguisse ignorar as corridas de toiros que se davam no adro da Sé e que tanto deveriam dificultar o desenrolar dos ofícios divinos pela azáfama e excitamento do povo ao ver esses divertimentos.

 

Ainda hoje o gosto taurino se mantém aqui bem vivo, mas felizmente tudo já é organizado de forma a que os festejos sagrados e profanos não colidam, nem no espaço nem no tempo. Não fosse este um ano atípico, teríamos dia 20 de Setembro a Procissão dos Pendões a marcar o início das Festas em Honra do Senhor Jesus da Piedade. E com essas festas viriam também as touradas que lhes são próprias. Mas não havendo procissão, e estando apenas organizadas as cerimónias religiosas numa versão compatível com a actual pandemia, salve-se ao menos uma das típicas corridas de São Mateus que felizmente terá lugar no próximo sábado.

 

Esta corrida será especial não só por ser a única que se realizará em Elvas neste ano, mas sobretudo por comemorar as duas décadas do Grupo de Forcados Amadores Académicos de Elvas. Não sendo membro do grupo, considero-me um amigo do grupo, pois, se tantos dos meus amigos por lá andam, a colectividade de que eles formam parte há-de também dizer-me alguma coisa. Há precisamente cinco anos, na ocasião do seu décimo-quinto aniversário, assinalei essa comemoração dedicando aos Académicos de Elvas um poema, cantado na música do fado Georgino. Na altura estes versos não foram tornados públicos e, apesar de entretanto já terem sido incluídos na colectânea literária “Elvas à Vista”, gostava de os republicar em homenagem ao grupo, na esperança de que venham mais vinte anos de boas pegas e amizade:

 

Toca-se em Elvas p’rá pega,

O toiro é bravo e não sossega,

Fica à espera do forcado.

O académico amador

Lembra o orgulho e valor

Do grupo que tem a seu lado.

 

Três sinais da Santa Cruz

Faz quando pede a Jesus

Que o salve de ser colhido.

Garboso, o elvense de raça,

Salta a trincheira p’rá praça,

Com grandeza, destemido.

 

É para o céu que dedica,

A quem na memória lhe fica,

A pega, esta noite e a vida.

Bate as palmas, cita o toiro,

Que rasga a jaqueta d’oiro

Quando sai em investida.

 

Mas o grupo é leal,

Unido pega sem igual,

Deixa ao rubro esta cidade.

No fim, por campos e relvas,

Correm forcados em Elvas

Ao Senhor da Piedade.

 

Tiago Picão de Abreu

 

(Texto originalmente publicado no semanário “Linhas de Elvas” a 17.09.2020)

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