A emoção numa corrida de toiros chega a quem gosta disto por impulso. O temple, por momentos. Nas corridas, a emoção é ditada pelo toiro e o temple pelo toureiro. Quando um toiro bravo e nobre e um toureiro que sabe e quer tourear coincidem numa arena, é possível que isso aconteça; Ou seja, é acesa, aquela centelha milagrosa produzida que é a arte do toureio e isso aconteceu ontem em tarde de quinta feira da Ascenção na Chamusca na lide do sexto toiro. Numa tarde de papel esgotado dentro das limitações de lotação exigidas pela DGS.
Foram lidados seis toiros da ganadaria São Torcato com o peso certo, baixos agulhas, musculados, sérios de cara e de miradas fortes, mais terciados os dois primeiros. Quinto e sexto de bandeira: alegre, com muita mobilidade, a vir pelo caminho dele e a querer luta de princípio ao fim da lide; O que fechou a corrida, queria tudo feito por baixo, foi nobre, templado nas investidas, pronto, ia largo e com uns excelentes finais. Ou seja, um grande toiro! Estava marcado com o número 41 e foi anunciado com 450kg.
O primeiro da tarde foi um toiro formal nas suas acometidas ao cavalo, sendo um bom toiro; O segundo, terceiro e quarto foram toiros complicados, que exigiram muito a quem tiveram por diante.
Abria o cartel Luís Rouxinol, e o Luís deu uma boa tarde de toiros aos presentes. Com o primeiro, cravou três bons compridos, aproveitou as qualidades do toiro e desenvolveu uma lide correcta, cravando bons curtos. O quarto era um toiro difícil e pedia muito oficio… Rouxinol, tentou corrigir os defeitos, escolhendo os terrenos e as distâncias correctas do Torcato para lhe receitar uma lide de sabedoria. A série de curtos foi em crescendo, cravando bons curtos, a brega teve primor. Rematou a lide com um palmo e um grande par de bandarilhas e público não regateou as ovações.
João Salgueiro da Costa, cravou o ferro da tarde, um ferro daqueles à Salgueiro, foi na lide do primeiro do seu lote. Um toiro deveras complicado, a pedir muito oficio e foi o que lhe deu o João. Gostei de o ver francamente na lide desse seu primeiro toiro. Os compridos foram cravados com determinação e nos curtos o segundo foi o tal ferro da tarde! De alto a baixo a deixar vir o toiro, um bonito momento na arte de bem tourear a cavalo. Os restantes foram de boa nota, e do agrado dos presentes. Na brega andou bem, entendeu as distâncias do toiro, coisa que lhe permitiu limar as dificuldades que tinha por diante. Boa lide!
O quinto o tal de bandeira, Salgueiro tinha tudo para triunfar e meter a praça “boca abajo”. A lide foi de altos e baixos, com pormenores fantásticos só alcances de alguns eleitos nisto na arte de tourear e outros menos bons como a desacerto de mão à hora de cravar, ou alguma passagem em falso. Mesmo assim cravou bons ferros, por vezes andou a gosto e para a primeira corrida desde Fevereiro de 2020 a passagem pela Chamusca foi muito positiva.
O matador Joaquim Ribeiro “Cuqui”, triunfou forte no que fechou praça e andou em plano lidador no complicado terceiro da tarde.
Com o capote pouco pode fazer diante do primeiro do seu lote, toiro que ficava curto, frenava as investidas e buscava o toureiro. Grande tércio de bandarilhas protagonizado por Cláudio Miguel e João Martins e tiveram que agradecer montera em mão as forte ovação do público. Na muleta o início teve graça e mando por baixo, depois disso houve tandas tanto pela esquerda, como pela direita com temple, a fazer as coisas com cabeça, a correr a mão e a tapar muitos defeitos ao oponente. Faena de valor!
O sexto recebido com uma larga afarolada de joelhos que teve impacto no público, desenhou bonitas verónicas e os primeiros olés surgiram. Bom tércio de bandarilhas de Jorge Alegrias e bem no capote Claudio Miguel. A faena de muleta teve altos quilates… O toiro tomou a muleta com alegria, encastada nobreza, e acusada fijeza. Cuqui aproveitou o São Torcato, os naturais foram largos, desmaiados, rotundos, de arrebatada execução, rematados com sentidos passses de peito. Pela direita em redondo houve uma tanda extraordinária, bordada. Os passes foram lentos, largos, com o toureiro abandonado naqueles mágicos instantes. O público rugiu com olés e ovacionou de pé aquele momento único. Rematou a faena de rodilhas, em redondo num acto de valor.
As pegas da tarde estiveram a cargo dos dois grupos da terra, Amadores e Aposento da Chamusca.
Abriu a tarde Pedro Moreira, numa boa pega à primeira tentativa com o grupo a ajudar bem e coeso. Saltou para a cara do quarto David Silva que saiu maltratado na primeira tentativa e foi dobrado Francisco Rocha que fez uma grande pega.
Pelo Aposento da Chamusca abriu a tarde João Rui Salgueiro em tarde de despedida das arenas, e realizou uma boa pega à primeira tentativa. Para a cara do quinto da tarde foi eleito Vasco Coelho dos Reis que se fechou à primeira tentativa.
Uma nota para o piso da praça, e um grande bem haja para que teve que andar de capote, bandarilhas, muleta e a corpo limpo como os forcados na arena da Chamusca, aquele piso tira muito do brilhantismo que uma corrida de toiros tem e deve ter.
O ganadero Joaquim Alves foi chamado à praça após a lide do sexto toiro.
Dirigiu a corrida Manuel Gama e foi o veterinário José Luis Cruz.










