- Local: Almendralejo (ES)
- Data: 1 de maio às 18h
- Novilheiros: João Diogo Fera, José Rojo e Garcia Corbacho
- Novilhos: Gaudajira, José Luís Pereda e El Torreón
A arte do toureio, quando apresentada com uma clareza explosiva, sem espalhafato ou qualquer dogmatismo estúpido, quando transcende mais além do cenário pelo cordão umbilical da emoção, encontra sua verdadeira razão de ser, a sua textura imperecível de uma obra fascinante. E nada melhor que começar assim esta temporada a que já me castraram os meses de Fevereiro, Março e Abril…
Reconheço que gosto de novilhadas e um gosto por quem começa nisto do toureio. São eles provavelmente os culpados de meus primeiros gostos por esta coisa dos toiros, naquelas Feiras de Barrancos eu menino! Os culpados das minhas primeiras emoções, as pessoas que me ensinaram como eram fascinantes os primeiros triunfos e como eram amargas as primeiras decepções; os portadores genuínos daquela coisa tão intangível quanto agradável, a ilusão.
Fui a Almendralejo ver a novilhada anunciada para este 1 de Maio deste 2021. Fui ver o sonho de três jovens novilheiros em querer ser toureiros e vim de lá com uma alma nova e cheia.
A novilhada estava composta por três ganadarias distintas: Guadajira(1º e 4º), El Torreon (2º e 5º) e José Luis Pereda (3º e 6º) estava bem apresentada, mais terciado o terceiro da ordem. Foi, em geral, excelente, com três novilhos de nota, de nota muito alta mesmo, pela bravura, casta e nobreza: Segundo, quarto, e sobretudo o bravo “Margarito” de Torreon que foi indultado em quinto lugar; O primeiro, mais feito e com ares de toiro guapo, teve querenças, exigiu mando mas tinha um bom piton direito, pelo esquerdo a história era outra… O terceiro, também nobre, mas mansote e fugido, acabou acobardado. O sexto, humilhava uma barbaridade, pedia muito temple e que fosse tudo feito a camara lenta.
O português João Diogo Fera abriu a tarde, diante de um utrero musculado e muito sério. Chegou à muleta com um ponto de gênio defensivo, que nada mais é do que consequência da casta brava, quando é encastada. É verdade que veio a menos e que teve melhor condição pelo lado direito. Mas Fera deu-lhe festa… Principalmente em duas tandas de redondos com cintura quebrada, braço estendido e sapatilhas firmes no albero. Quando o novilho se sentiu “podido se puso remolón” e a faena veio a menos. Matou de estocada algo defeituosa, o que fez tardar a morte e perder uma orelha.
A faena ao quarto da tarde, esteve assentada no repouso, na firmeza, no temple e no mando. Todas elas são virtudes indispensáveis que se têm que demonstrar quando um toureiro se encontra diante de um toiro bravo e encastado. Começou magnificamente a faena, com muletazos largos, templados e ajustados, executados por baixo que despertaram os primeiros olés da magnífica faena. Soberbios foram os passes em redondo, de traço largo e remate curvo de píton a rabo e desmaiados por baixo. A faena teve graça, beleza, movimentos finos, três graças que se resumem numa única palavra: pintureria! Matou de estocada efectiva e cortou duas orelhas, também foi outorgada volta ao ruedo ao bravo novilho de nome “Siempre en Pie” de Guadajira.
O segundo novilho da tarde teve boa condição de lide, foi fácil de princípio a fim. O melhor da faena o início baixo e alguns muletazos soltos… José Rojo não se acoplou às nobres investidas do novilho do maestro César Rincón e só as espaços lhe sacou algum luzimento. Andou variado de capote, por verónicas e chicuelinas e regular em bandarilhas. Matou ao segundo intento de estocada dianteira e escutou palmas.
O novilho “Margarito” de El Torreón foi, na minha opinião, foi uma simbiose perfeita de casta e de nobreza, ou seja, o paradigma do toiro bravo, um modelo magnífico que deve ser recompensado com a mais alta distinção, o indulto e foi!
Bonito de tipo, foi um compêndio de codicia e uma predisposição de ataque de princípio ao fim da sua lide. Empurrou no cavalo, humilhou, com o “hocico” por diante e largo, a vir a mais, não deu tréguas ao novilheiro, e estas lides modernas por vezes são muito cansativas…, baseadas na ligação de passes e mais passes, com a muleta pelo chão em redondos e mais um cem número de coisas…. Portanto, “Margarito”, foi um novilho nota dez.
Grande novilho e grande faena de José Rojo. Ajustado ao novilho, num palmo de terreno em redondo e ao natural, tudo isto, com aquela mistura de destemor e profundidade tão de novilheiro que começa”. Os remates das tandas foram tão profundos, ajustados e genuínos que fizeram que a emoção invadisse os tendidos e a loucura sã de uma tarde de toiros foi vivida no “Coso de la Piedad”. Duas orelhas e rabo simbólico para Rojo.
Garcia Corbacho, com rachado mas nobre terceiro, andou mais tempo atrás do manso para o convencer a investir onde o toureiro queria do que a tentar parar os pés ao novilho. Fez um esforço voluntarioso e conseguiu roubar algum muletazo de qualidade, o público estava carinhoso com o novilheiro de estremenho e não lhe regateou palmas… Esteve atascado a matar e escutou silêncio depois de um aviso.
O sexto novilho da tarde, gateava as investidas na muleta de Garcia Corbacho, tinha um temple e nobreza esquistita…Com duas largas de joelhos em terra recebeu este oponente e deram o mote a umas verônicas com algum gosto Dizendo que também não queria sair de vazio da tarde. No quite por tafalleras, entusiasmou o conclave Porém, na muleta foi um tanto apressado na construção das tandas, pois as três primeiras foram com três passes em redondo e o de peito. Isso sabia a pouco… Um novilho como aquele não merecia “raciones”, embora os passes tivessem alguma coisa mas, tão parco conteúdo tardou a chegar aos tendidos. Só no fim da faena houve uma tanda larga em redondo pela direita e claro está o público acordou novamente para a tarde. Matou de meia estocada e descabelho, foi-lhe concedida uma orelha.
No primeiro da tarde, Nuno Silva andou bem com as bandarilhas e o público aplaudiu com força, obrigando o bandarilheiro português a “saludar montera en mano”. Ovação que quis compartilhar com o terceiro da quadrilha, Juan Izquierdo.
Estas e outras coisas aconteceram ontem em Almendralejo, no dia em que a sorte nos convidou a olhar para uma janela de futuro.










