E vão duas

Crónica

17.05.2018 – Praça de Touros do Campo Pequeno, Segunda de Abono

Cavaleiros:

António Telles

Pablo Hermoso de Mendoza

João Moura Caetano

Grupos de Forcados Amadores de Lisboa (Cabo Pedro Maria Gomes) e Coruche (Cabo José Tomás)

Ganadaria: David Ribeiro Telles

 

Noite de primavera, cabelos penteados, tudo aperaltado, perfumado e praça cheia nos tendidos, nas galerias a juventude preferiu outros espetáculos, ambiente criado para uma grande de noite de touros, o que faltou para tudo bater certo?

Bom, comecemos como deve ser, pelo princípio, decisões acertadas as de antecipar o começo da corrida para as 21h45, assim, deixámos quinze minutos de cortesias, sim, um quarto de hora, e começo efetivo pelas 22h; depois a supressão do intervalo, torna o espetáculo mais célere e quando enfadonho, muito menos pesado.

Faltou a recordação a Dr. Ramón Vila, cirurgião da Maestranza de Sevilha, a juntar ao minuto de silêncio pelo Matador Amadeu dos Anjos.

Passemos à função, corrida desigual de hechuras e pesos, os mais pequenos pouco sérios de hechuras e os mais gordos, altos e com quilos a mais, o que se refletiu no comportamento, melhor, primeiro e quinto (este mesmo sem força nenhuma), mais complicado o sexto.

António Telles, símbolo do classicismo, nunca desatualizado, não se entendeu com o primeiro, touro com fijeza e mobilidade, arrancadas prontas e por direito que deram origem a muitos toques nas montadas, Maestro António não se sentiu a gosto e a lide nunca ganhou volume.

Touro pegado pelos Amadores de Lisboa através de Martim Cosme Lopes, forcado jovem de idade, mas já com alguma experiência, esteve correto desde o saltar trincheira, passando pelo brinde ao antigo elemento de ambos os grupos, Lisboa e Coruche, que atravessa por uma fase menos boa, Carlos Galamba, até ao cite, sereno e templado e finalizando no recuar na cara do touro, pondo-lhe a velocidade que pretendia e por isso, para mim, mandando, para se fechar à primeira, tão bem fechado que vinha fez o touro girar sobre si no chão, sem nunca se largar. Para pôr um “se” na pega, talvez não tivesse precisado de carregar a última vez o touro, tão franco que vinha, poderia ter tirado mais partido disso e encher o touro de forcado e a praça do Martim, depois teve que recuperar mais rápido, mas é um “se” para se pôr um “se”.

Volta para o forcado ao som do pasodoble Maestranza, aquele que abre os paseíllos em Sevilha, Telles recusou.

Um detalhe, na volta do Forcado e já após ter sido brindado com flores, Martim dirigiu-se discretamente ao Maestro António Telles, à sua passagem, e deu-lhe um ramo de flores, pormenores dos que fazem diferença entre a normalidade e os que estão ou podem estar noutro patamar.

O segundo, mais pequeno, parecendo ainda mais, pelo grande e gordo que era o primeiro, saiu fixo, colaborador e galopando no ritmo murubeño, não rompeu, Hermoso, na sua equitação, e no seu conceito, ritmo e velocidade, deu-lhe a lide que podia, não deixando sumo por espremer, o ponto alto foram as passagens de garupa ajustadas, os ladeares, em tábuas e nos curros.

Boa pega, igualmente à primeira, de Miguel Ribeiro Lopes, veterano e experiente rabejador, que decidiu passar para a frente e em boa hora que o fez, cite sereno e experiente e reunião semelhante, bem ajudado por todo o seu Grupo de Coruche. Volta para ambos.

O terceiro foi recebido pela dupla que tão bem resulta, Moura Caetano e Aramis, um touro bisco, que se descompunha das reuniões, quiçá pelo corno que prejudicava a visão. Caetano esteve correto sem brilhantismo, com vontade mas falta de colaboração do oponente.

Duarte Mira, pelos Amadores de Lisboa fez mais uma bela pega à primeira tentativa, correto em todas as fases da pega, tal como o grupo a fechar.

Volta recusada pelo Diretor de Corrida a Moura Caetano, Mira deu volta sozinho, depois de um tumulto provocado, primeiro pela recusa à volta de Caetano e depois pelo desrespeito de um individuo que pretendia propagandear extremismos e fundamentalismos, que não merecem mais considerações das que aqui reportamos.

No quarto António Telles continuou sem sintonia com o oponente, cumpriu a sua lide com muito profissionalismo, não tendo contudo atingido quotas altas.

Pega, pelos de Coruche, ao touro que poderia dar e deu a pega mais vistosa, através de João Ferreira, reuniu no peito e de forma audível, bem ajudado por todos, sem exceção. Volta para ambos.

Uma nota quanto aos critérios de voltas para Cavaleiros, ou davam volta ambos os cavaleiros, Moura Caetano, no seu primeiro e Telles, no quarto, ou não tinha dado nenhum, houve dualidade de critérios, sem justificação aceitável.

O quinto, um murube dos quatro costados, o que teve de nobreza, fijeza, obediência e bondade, faltou em força, uma pena, um touro de hechuras perfeitas no encaste e muito boa condição de investir, não lhe tivesse faltado a força. Hermoso fez o que podia, sem levantar voo.

Para a pega saltou, pelos Amadores de Lisboa, João Varanda de Carvalho, experiente e rodado, este touro pedia experiência para por o que o touro não tinha, são touros ingratos por parecerem fáceis, mas a falta de força e de empuje obrigam a estar perfeitos os forcados, para não haver erros que comprometam. O João não aguentou suficientemente a investida franca mas lenta do touro e desencontraram-se no caminho e reunião. Ali, ou subia mais para os terrenos do oponente, e o touro deixava, ou naquela investida de largo, o aguentava para que não o perdesse. Teve que voltar para uma segunda tentativa, onde depois de derrotes por falta de força, fica fechado num pitón, sem nunca ter saído da cara, o grupo, rápido e bem, fez o seu papel de ajudar e fechar a pega.

Outro detalhe, é lamentável que forcados ativos de grupos consagrados, ali na condição de espetadores, pagantes ou não, tenham assobiado João e o Grupo de Lisboa. O critério de quem paga o bilhete poder livremente manifestar-se serve para quem não tem obrigações na corrida de touros, quem as tem, deve lembrar-se, e se não se recordam, eu deixo o lembrete, que quem cospe para o ar, pode vir a ser atingido, se não aconteceu nunca, poderá acontecer.

Volta merecida para Pablo e João Varanda de Carvalho.

Veio o sexto e último e com ele um Moura Caetano com pundonor e cojones, para uma faena boa de verdade, exigente, sério e comprometido, em terrenos de aperto com um touro de aperto, reservado e brusco nas investidas e reuniões. Termina com o ferro da noite, debaixo do braço, no terreno em que atasca e com uma investida bruta, grande ferro a terminar as hostes.

Neste touro previam-se dificuldades na pega, reunião dura, investida violenta e a fugir, querendo despachar, assim se consumou nas quatro tentativas que tiveram os Amadores de Coruche que lhe fazer, primeira de Miguel Raposo, que saiu lesionado e as restantes três por um rijo António Tomás, estoico e que, mesmo depois de na sua última ter ficado de forma menos ortodoxa na cara de um touro difícil, duro e que dali por diante poderia provocar uma tragédia, ainda se mostrou disponível para confirmar a pega, indo mais uma vez. Este animal pedia ajudas mais eficazes e nas primeiras assim não se verificou, depois e já nas tentativas a sesgo, as lesões a sucederem-se e os nervos, perfeitamente entendíveis, não ajudaram ao discernimento necessário para estas dificuldades. Tarefa dura, mas meritória e boa atitude do Grupo que nunca virou a cara ao problema. As melhoras aos lesionados, que se recuperem bem, para um temporada que se afigura importante e boa.

Volta para Moura Caetano.

E vão duas, o que faltou? Faltou touro, emoção, não confundamos com tragédia, faltou rugir das bancadas, da praça, pode ser que seja na próxima.

E ao jeito do Embuçado, ante admiração geral, NÃO se descobriu o embuçado, não foi el-rei de Portugal, nem houve beija-mão real, mas depois cantou-se o hino.

 

Ultimos Artigos

Artigos relacionados