Um Cortes e um Comenda, a arte de bem cernelhar ao serviço do espetáculo!

A tarde de domingo em Montemor foi típica de outono em que o sol brilha a espaços e o vento não sopra, com os seus vinte e poucos graus à sombra, que são uma bênção nestes tempos. Era do melhor estar na rua ou na praça e se a corrida for boa, melhor ainda! Ir a Montemor, portanto, significou vivenciar uma grande tarde de toiros.

As pessoas que foram à praça tinham emoção estampada nos rostos, parecia que vislumbravam um grande acontecimento e foi .Não tiveram medo da chuva, apesar dos avisos (agora as cores) que os senhores das TVs e rádios apregoavam insistentemente na véspera e no dia da corrida…
Montemor voltou a ser um mar de gente, nas ruas da vila em direção à praça enchendo quase na totalidade as bancadas da velhinha praça. Montemor por estas datas é sem dúvida um dos pontos altos da temporada. Cartel de luxo, três dinastias toureiras em praça, Ribeiro Telles, Moura e Salgueiro, toiros de Veiga Teixeira e o grupo de Montemor em solitário.
A arte de bem pegar toiros ao serviço do espetáculo, ou vice-versa foi o que mais uma vez demonstrou o Grupo de Forcados Amadores de Montemor neste que é o seu dia! Foi um gosto ver as pegas desta tarde, caras e ajudas foram um compêndio incrível, magnífico, havendo um par de sortes que me ficaram na retina mas uma em particular a última, uma cernelha fantástica. Protagonistas deste feito um Cortes (António Cortes Pena Monteiro) e um Comenda ( João José Comenda). Esta pega foi a prova provada da beleza desta sorte, houve a inteligência, o saber dos terrenos, o saber do toiro, o sentido de oportunidade, a valentia, a raça e a arte de bem pegar de um jovem e de um veterano. Parabéns e obrigado António e João José, foi emocionante e bonito! Só por este momento já valia ter ido à corrida. Mas houve mais, muitos mais em termos de pegas, lides e toiros.
Vasco Ponce, abriu a tarde pelos de Montemor com uma tentativa de pega de caras brutal, bem o forcado a citar, recuar, receber magnificamente, suportou vários derrotes e cá atrás foi um único deslize da tarde do grupo, as ajudas não chegaram a tempo. Na segunda tentativa o toiro não deu hipóteses e num derrote tirou o forcado da cara. Na terceira tentativa, bem o cara com uma primeira ajuda superior de Pena Monteiro que dobrava o JP.
Francisco Borges, pegou o segundo da tarde e foi simplesmente o Francisco, ou seja, perfeito!
Francisco Bissaya Barreto, em tarde de despedida deste grande forcado, esteve genial!! Desde os brindes ao pai e grupo, como citou, recebeu, se fechou e saiu da cara do toiro. Olé!
Bernardo Dentinho, também em dia de adeus às arenas, esteve superior nesta sua última pega de caras, aproveitou a brava investida do Teixeira e disso tirou partido, fechando-se como uma lapa na cara do oponente. Nesta pega também se despediu o ajuda Diego Caeiro.
Vasco Carolino pegou o quinto da tarde, com raça e valentia, grande pega à primeira tentativa como as outras, superior o grupo a ajudar.
Tarde para recordar esta de 4 de Setembro em Montemor no capítulo desta arte de bem pegar toiros, Olé!
Seis toiros de Veiga Teixeira de fina estampa vieram dos campos do Pedrógão. Bonitos, bem armados, baixos, rematados, variados de capa, quatro negros, um colorado e outro burraco. Houve toiros de nota, o ganadero deu duas voltas à arena no segundo e quarto da tarde.
O primeiro foi um toiro com muitos quês e porquês, não foi fácil, teve algumas complicações, mas foi um toiro interessante. Nobre, muito nobre o segundo, quis mais que pode, foi bravo! O terceiro teve mobilidade, mas quanto a mim teve pouca entrega, cumprindo. Bravo foi o enclassado quarto, um toiro de bandeira! O quinto foi um toiro um tanto ou quanto reservado, que acabou por se entregar durante a lide. O burraco sexto, foi dos que menos gostei a par do primeiro, mostrando algumas coisas a destacar como a nobreza mas também foi o que menos andou dos seis.
António Ribeiro Telles diante do primeiro não andou a gosto…  Havendo apenas detalhes de bom toureio a espaços, resolvendo com eficácia os problemas que o toiro evidenciava. Cravou a ferragem da ordem, curtos e compridos de forma eficiente.
Desde que apareceu na arena o quarto toiro mostrou as suas qualidades excepcionais, nomeadamente, viagens longas nos capotes e um ritmo sustentado no galope que lhe confere o título de extraordinário. O Mestre da Torrinha logo se precatou do que tinha por diante, abriu o livro e realizou uma lide extraordinária. Um toiro bravo e um ser humano foram capaz de criar arte! Desafiando o risco latente e permanente, ambos unidos geram a mais sublime das sensações que alteram o estado de espírito das pessoas racionais: a emoção! Um António focando e concentrando-se na interpretação de um toureio cheio de classicismo refinado. Tudo nesta lide teve o toque suave daquela elegância inimitável que é a sua maneira de tourear e a deslumbrante beleza da arte do toureio quando se pratica “desde dentro”. Que maneira de investir e que maneira de tourear! Obrigado António!
João Moura Jr. teve como primeiro oponente um Teixeira tão suave e tão nobre, tão nobre… Com toiros assim não pensem que é fácil tourear, chegar e muito menos emocionar o público. Mas este cavaleiro utiliza uma clarividência e uma cadência nas suas lides e nesta em particular que o qualificam como verdadeiramente um privilegiado. Isso chega aos aficionados conhecedores da coisa ao mesmo tempo ao público em geral. Houve uma calma rítmica nos remates e nas preparações dos ferros, temple e mando na hora de cravar tanto compridos como curtos, nesta lide viu-se um João com uma segurança surpreendente, a inteligência de acariciar o Teixeira que tinha por diante para poder triunfar.
No quinto houve a obra de um toureiro completo e ambicioso, daqueles que vão por tudo e por todos. A denominação de origem Moura esteve presente desde o início da sua actuação. Houve a variedade ao serviço do espetáculo. O toiro não era claro, de início houve um João pragmático  fora daquela corrente emocional que chamamos de sentimento. Lentamente, foi-se apoderando do toiro, limando arestas, para surgirem na arena momentos de toureio caro, novamente uma segurança surpreendente surgiu na arena e a primeira Mourina foi espectacular, num palmo de terreno, entrando em terrenos de compromisso, girando o cavalo na cara do toiro e cravando de alto abaixo… Praça de pé! Outra se seguiu também de boa nota, cavaleiro e público desfrutaram com o realizado.
João Salgueiro da Costa, foi nesta tarde um cavaleiro solene e destemido, mas, fundamentalmente, clarividente! No seu primeiro, o terceiro da tarde, houve a coragem serena, sempre templada, sempre ligado e ajustado ao toiro, sempre atento às suas reações, dando-lhe assim a melhor lide. Uma actuação de conexão precisa e a astúcia pronta, com o toiro, cavalo e público. Cravou bons compridos e nos curtos, três de boa nota; sendo, o último, a sesgo já com o toiro fechado em tábua.
No sexto da tarde tentou fazer tudo simples, bonito e por direito, lide cheia de técnica e elegância. Mostrou solvência, tapou defeitos e tentou tentar partido das qualidades do oponente. Cravou os ferros com uma composição harmoniosa da figura, mostrando a sua capacidade de lidador, valor e talento, tirando o melhor proveito disso, atuação de maestria do cavaleiro de Valada em terra de Montemor.
Dirigiu a corrida Maria Florindo, sendo o médico veterinário Feliciano Reis. Brilhante atuação dos campinos João Inácio “Janica” e Henrique Pinheiro.

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