Marcos Bastinhas prestou bonita homenagem ao seu avô Rui Nabeiro 

As horas passavam e os relógios avançavam em direção ao dia e hora marcada, 23 de Setembro, 22h00, Marcos Bastinhas sozinho no Coliseu de Elvas para se encerrar com seis toiros de diferentes ganadarias em noite de homenagem, naquela que era a primeira corrida da Feira de São Mateus 2023.

Tourear seis toiros em solitário e com um único actor começou naquele dia memorável em que Joselito el Gallo protagonizou em Madrid há um século, sem suar a camisa, sozinho, lidou-se não seis, mas sete, toiros Martínez.

Todo o toureiro que assume um desafio desta magnitude deve possuir, entre outras virtudes inquestionáveis, duas fundamentais: preparação física e variedade de repertório. E, depois, um factor que desempenha um papel decisivo neste jogo: a convocação de público. Tudo isto possui Marcos Bastinhas! Praça Cheia para assistir à homenagem de um neto a um avô que marcou a sua vida, a vida das gentes daquela zona do País e dos Portugueses, o Comendador Rui Nabeiro.

Começou a noite com o desfile dos quinze cavalos que iam ser os companheiros nas lides dos toiros, depois uma homenagem no centro da arena ao Comendador Rui Nabeiro com o som do toque do silêncio. No intervalo foi descerrada uma lápide em homenagem ao comendador no atrium principal do Coliseu Elvense.

 

As corridas de toiros sempre tiveram como principal atrativo – a bravura de um toiro e a coragem e arte de um toureiro!

Quando falta alguma… a coisa só resulta a meias. E no sábado, salvo os dois primeiros toiros da noite, os restantes puseram a coisa bem difícil ao cavaleiro de Elvas…

Seis toiros de ganadarias de renome, Canas Vigouroux, Murteira Grave, Charrua, Passanha, Vale de Sorraia e Romão Tenório. Todos muito bem apresentados, pesados, sérios e variados de pelagem. Se o toiro não emociona com ímpeto, força, casta e bravura, a questão torna-se extremamente complicada, por mais esforço que os toureiros façam, por mais “vontade de agradar” que expressem ou por mais esforço que coloquem para contrariar as deficiências e os fundamentos do toiro bravo. Mas Bastinhas nesta noite foi novamente vontade, coragem, querer e pôs a emoção que faltou a alguns dos oponentes. Levando de certo modo a “água a bom porto”.

 

Abriu a noite Marcos diante de uma estampa de Canas Vigourox, burraco de capa, bonito de cara, toiro este que cumpriu, teve alguma mobilidade, vindo a mais com o decorrer da lide. Marcos foi o retrato vivo da ambição. Como diziam os antigos aficionados vinha com a erva na boca, brilhavam-lhe os olhos, vinha a por todas e com vontade desde o início de alcançar o triunfo. Bonito foi como recebeu este primeiro toiro, em curto e no centro da arena, cravando de seguida um par de compridos a preceito. Nos curtos a lide veio a mais, havendo cites de praça a praça dando a iniciativa ao toiro. Cravou bons ferros, foi aplaudido com força pelos presentes. Rematou as sortes com garbo, executando bons momentos de toureio a cavalo.

Saltou para a pega Manuel Trindade dos Amadores de São Manços que à segunda tentativa executou uma boa pega, sendo bem ajudado pelo grupo.

 

De Murteira Grave foi o segundo, toiro grande, composto de cara, também burraco de capa. Foi nobre, teve som enquanto durou, meteu bem a cara nos capotes, bom toiro. Foi o melhor dos seis lidados nesta noite de Elvas. Houve emoção nesta lide! O triunfo do valor e da inteligência frente à nobreza de um toiro. Marcos recebeu o de Galeana  na porta dos curros, levando o toiro toureado desde o início, para de sentir e recrear em bonitos momentos de toureio. Cravou dois grandes compridos de praça a praça, aguentando a acometida do toiro, rematando de forma superior as sortes. Nos curtos a lide teve bonitos momentos de ladeio a duas pistas, levando o toiro prendido ao cavalo para o deixar colocado nos terrenos indicados. Voltou a dar vantagem ao oponente e cravou bons ferros, que tiveram os aplausos do público que viu entusiasmado esta segunda lide. Rematou a sua actuação com um violino e um grande ferro de palmo, público de pé!

Rodrigo Picão de Abreu pelos Amadores de Arronches à segunda tentativa numa pega dura, bem executada por parte do forcado da cara e ajudando bem o grupo.

 

Colorado de capa, aberto de cara foi o alto e comprido o de Charrua. Toiro que nunca rompeu, andando um tanto ou quanto a chouto e a medir sempre que citado pelo cavaleiro, acabou metido em tábuas.

O cavaleiro teve que puxar dos galões para dar a volta a esta “tortilha”. Correcto nos compridos, lidando com solvência, tentando abrir os caminhos ao de Charrua. Os curtos foram cravados com acerto, lidando bem, tentando sempre mudar o toiro de terrenos. Lide de muito querer mas quando um dos protagonistas não quer colaborar… é complicado chegar com força as bancadas.

Este toiro ao ser colocado para a pega, ficou incapacitado para esta sorte ao rematar na trincheira, sendo de imediato mandado recolher pela direcção de corrida, negando assim a possibilidade aos Académicos de Elvas de pegarem o seu primeiro toiro da noite. O forcado que tinha sido escolhido para a pega deste toiro foi Gonçalo Machado.

 

Em quarto lugar Marcos Bastinhas lidou um Passanha, negro de capa, bonito de tipo mas que não correspondeu certamente às expectaivas que o ganadero e cavaleiro depositavam nele… Toiro com pouca mobilidade e a menos, tendo algumas querenças em tábuas. Nesta lide houve dedicação apaixonada e sincera. O cavaleiro teve que novamente soar a “gota gorda” para levar a água a bom porto. Bem nos compridos, nos curtos teve que sovar, voltar a sovar o de Passanha para o tentar desenganar e conseguir cravar os primeiros curtos, o terceiro foi dos bons. Finalizou a sua lide com dois ferros de palmo em terrenos de dentro, o conclave reconheceu o esforço e aplaudiu com força Marcos.

Saltou para a pega Duarte Teles e por quatro vezes teve que bater as palmas e suportar os derrotes do Passanha. Toiro a derrotar forte e despejar o cara. Há quarta deu por vencido o toiro com ajudas carregadas.

 

Cardeno de capa, arrobado de quilos, sério de cara foi o de Vale de Sorraia. Toiro difícil, sempre solto, sem entrega e a querer sair dali para fora. A capacidade de surpreender é uma das condições básicas que um toureiro deve ter para entrar no lugar tão desejado e tão obscuro que é o recanto imóvel da memória. E Bastinhas surpreendeu, chamou António Prates para compartilhar esta lide, em boa hora o fez. Houve bonitos momentos de toureio, bons ferros, entradas oportunas de ambos os cavaleiros, interação e conseguiram os dois resolver o problema que tinham por diante.

Luís Sarrato pelos Amadores de Arronches, à segunda tentativa, num toiro mais que investir, atropelava, bem o forcado da cara e o grupo ajudar. Uma palavra para o primeiro ajuda Tiago Cabeceira, enorme toda a noite nas primeiras ajudas.

 

Fechou a noite, um toiro muito sério, cinquenho de Francisco Romão Tenório. Toiro reservado, sempre a medir e com pouca mobilidade. O cavaleiro de Elvas teve que pôr a emoção que faltou ao oponente. A emoção é, portanto, o centro nevrálgico da corrida e de uma lide. Marcos sabe disso e conseguiu agitar as águas! Cravou dois bons compridos, três curtos a entrar em terrenos de compromisso e três pares de bandarilhas que levantaram o público das bancadas, desmontou do cavalo no fim a sua lide e a ovação foi efusiva.

Pelos Académicos de Elvas fechou a noite numa grande pega à primeira tentativa Paulo Barradas, bem o grupo a ajudar.

 

Dirigiu a corrida Agostinho Borges, sendo médico veterinário José Miguel Guerra.

 

Foto destaque: João Pedro Canhoto

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