Os Telles: Mestre, Talento, Raça e Intuição

No meio das incertezas em que vivemos, há uma evidência que emerge: nestes tempos em que fomos forçados a um isolamento por motivos sanitários, mais do que nunca, sentimos o desejo, a vontade de voltar a assistir a uma corrida de toiros, um concerto, de voltar a ver filmes nas salas de cinema, etc.. no fundo de poder fazer de novo tudo aquilo de que gostávamos, e cuja ausência veio apenas confirmar a importância da cultura e das nossas tradições nas nossas vidas.

A cultura é a alavanca do desenvolvimento sustentável de qualquer país e o seu papel tem de ser assumido de forma pragmática, estruturada e sistemática, assumido como objectivo estratégico e os homens dos toiros neste início de temporada novamente atípica estão de parabéns por terem arriscado e programarem um leque de espectáculos a que o público tem respondido com força. Caso disso foi a Feira Taurina da Ascensão na Chamusca com duas corridas esgotadas dentro claro está das medidas impostas pela DGS.
Ontem o sol raiou entre as nuvens na centenária praça de toiros da Chamusca e uma bonita moldura humana, sedenta de toiros assistiu a um espectáculo sem tempos mortos, agradável, com alguns motivos de destaque como: A bonita apresentação dos toiros de Vale de Sorraia; A classe, uma sorte gaiola impactante, um par de ferros curtos e uma brega magistral de António Ribeiro Telles; A irreverência, o mostrar que esta temporada de 2021 vai ser a dele e um conjunto de ferros de grande nota de João Ribeiro Telles; Um António filho, cheio de pormenores, senhor de uma brega e lide ao alcance de poucos e um par de ferros de nota; E um Tristão Ribeiro Telles que pode vir a ser um caso sério nisto da arte do toureio a cavalo, têm intuição, graça, raça e mostrou isso ontem dando a volta a um novilho incômodo de Sorraia. Boas pegas dos Amadores do Ribatejo e da Chamusca; Mas faltou qualquer coisa para a tarde ser redonda… O comportamento dos toiros foi o culpado de tal não ter acontecido!
Os seis Sorraias, como já disse, estavam bem apresentados, com bonitas caras, algumas até muito agradáveis para o que costumam ser as destes toiros. Quanto ao comportamento nenhum rompeu de verdade, algo sonsos, a medir muito, faltou-lhes entrega e finais, sem transparecer para as bancadas as dificuldades do que realmente tinham . Os melhores os dois últimos, o pior o terceiro, teve tanto de bonito como de manso…
António Ribeiro Telles abriu a tarde com uma lide correcta, bem nos compridos, na brega, nos curtos, mas chegou pouco as bancadas, diante do mais sonso da corrida toiro com querença em tábuas. No segundo a história foi diferente… Uma porta gaiola genial para começar a lide e um remate da mesma sensacional, uma brega extraordinária, a mexer o toiro e colocar o mesmo nos terrenos indicados. Os curtos, o segundo e principalmente o último à António, os restantes bons mas sem o toiro empurrar de verdade no momento da sorte.
João Ribeiro Telles, teve duas boas lides, que chegaram com impacto às bancadas. Na do seu primeiro andou bem nos compridos a tentar perceber o toiro que tinha por diante, nos curtos, o primeiro foi o ferro da corrida. Os restantes tiveram boa nota, pena um toque na montada no fim da lide mas que o público perdoou pelo já visto anteriormente. No que fechou a corrida o melhor toiro do lote a lide foi de bom tom, bem nos compridos, na brega e nos curtos dentro de uma boa série, o terceiro e o com que rematou a lide são à João!
António Ribeiro Telles (filho), “bailou com a mais feia”… Saiu-lhe um toiro manso sem paliativos. Mas o António quanto a mim fez a lide da tarde… A vontade, o querer, a raça imprimida, a resiliência mostrada na arena da Chamusca tiveram um mérito ao alcance de poucos. Andou bem nos compridos, nos curtos a brega foi cheia de intuição a tentar tirar o teimoso manso da querença. O António com sabedoria conseguiu por vezes que isso acontecesse, o terceiro curto é soberbo e o sesgo com finalizou a lide?! Grandioso!
O outro Ribeiro Telles que rematava o cartel foi o Tristão, quando o vi em Coruche há um par de anos numa noite de garraiada, pensei este pode ser um caso sério se tiver vontade e pelos visto tem… A intuição que mostra, a facilidade com que anda em praça, a graça e o destemor ao mesmo tempo que imprime nas lides não deixa ninguém indiferente. Arrisca, crava a preceito, remata as sortes com toreria e tudo isto diante de um novilho que podia ter trazido de cabeça a qualquer um… Não parou uma lide inteira, não teve fijeza nenhuma, sempre a trote, mas o Tristão não lhe importou nada disso e deu-lhe a volta como quem bebe um copo de água.
As pegas desta tarde estiveram a cargo dos Amadores do Ribatejo e dos Amadores da Chamusca. E a tarde não foi fácil, os grupos tinham que ser lestos a formar para a pega, os toiros tinham pouca fijeza e saiam soltos para as sortes, alguns foram brutos no momento da reunião caso do terceiro.
Abriu a corrida numa boa pega ao primeiro intento e à barbela André Martins. O terceiro da tarde foi pegado ao terceiro intento numa pega dura André Laranjinha. Fechou a função pelos Amadores do Ribatejo, Pedro Oliveira numa pega à segunda tentativa.
Pelos Amadores da Chamusca, Miguel Santos saltou para a cara do primeiro do lote, um toiro que teimava em não se querer fixar em sítio nenhum o que dificultou a tarefa a bandarilheiros e forcados mas à primeira tentativa resolveu o problema. Diogo Marques filho do antigo cabo dos Amadores, Nuno Marques pegou o novilho bem à primeira tentativa. Fechou a corrida Francisco Rocha numa boa pega também ao primeiro intento. Ambos os grupos ajudaram com decisão e coesos.
Dirigiu a corrida Marco Cardoso e foi veterinário José Luis Cruz.

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