Um “abraço” imenso… Francisco Cabaço!

Entre música, ovações e também silêncios, abriu ontem as suas portas, 4 de Julho do ano 24, a Praça de Toiros do Campo Pequeno convertida num verdadeiro Templo à resistência da Tauromaquia na capital do País.

A Praça de Toiros da capital – primeira Praça do país – recebeu uma manifestação de Cultura que se mantém viva- a Festa dos toiros- correspondendo à identidade cultural de uma grande parte da população portuguesa. A identidade de um povo está na sua Cultura… Em cada corrida de toiros, nós aficionados, contribuímos para a diversidade e riqueza da humanidade, permitindo que os indivíduos conectem com as suas raízes contrariando a maldita globalização que nos é impingida todos os dias por “gente de meia tigela”.

Grande entrada de público registou ontem o Campo Pequeno, um cheio à vista! Muita juventude nas bancadas… O público jovem é a vitalidade da nossa Festa… e anda a desafinar as trombetas do apocalipse com as quais o progresso hipócrita anunciou o fim das corridas… puro engano! A Juventude vai aos toiros!

Ontem em Lisboa, vivemos uma noite de enorme expressão emotiva, criativa e estética. Ontem no Campo Pequeno, houve todos os predicados que se querem na nossa Festa…A corrida de toiros é eucaristia, a corrida de toiros é morte e a corrida de toiros é vida.

Duas glórias da forcadagem (Nuno Megre e João Cortes) tiveram a homenagem que mereciam em Lisboa – digna, justa e consensual. Uma homenagem à sua imagem e semelhança. Os aficionados homenagearam o forcado, o exemplo de serviço à Festa, a grandeza dos seus feitos nas arenas deste mundo, a referência moral e ética de dois grandes portugueses, e daí os aficionados curvaram-se perante dois grandes forcados e homens bons!

Ontem, também os grupos e os forcados que envergaram as jaquetas das ramagem ( Santarém e Montemor) homenagearam a grandeza de Portugal: o Toiro, o Forcado, a Festa e o Campo Pequeno!

Ontem Lisboa foi maior! Recebeu numa das suas melhores salas os maiores heróis deste nosso país, o Forcado!

Santarém, o mais antigo grupo deste país com 109 anos de história, escreveu uma das suas melhores noites naquela arena!

A pega do terceiro toiro de nome “Alferes” marcado a fogo com o número 75 e de 546kg de peso. Ficará guardada nos anais da História e na memória de quem a viu. Francisco Cabaço foi o protagonista… O Francisco leva no sangue apelidos de epopeias grandes nas nossas arenas… ele é Murteira, ele é Grave, ele é Jesus, ele é Cabaço… atrevo-me a dizer, ele ontem foi tudo isso numa só pega! Francisco, a tua pega ficará gravada nas caliças da Monumental do Campo Pequeno. Ali houve a arte do cite, a classe do receber, a toreria no recuar, a raça de lhe aguentar os derrotes, a alma enorme daquela viagem infindável. Ali houve mais de cinco mil almas que te ajudaram naqueles segundos intermináveis. Ali houve uma explosão de emoções! Ali houve a simplicidade de um menino de sorriso tímido que foi o grande triunfador da noite! As palmas fizeram fumo, houve abraços, saltos e algumas lágrimas caíram… Ali houve uma emoção que chegou aos céus…

João Faro, esteve enorme na pega do primeiro da noite. Do difícil fez facilidade. Bem o grupo ajudar.

Outra das grandes pegas da noite esteve a cargo de Joaquim Grave. Que pega… Bonito no cite, entrando em terrenos de compromisso no carregar, braços para receber a investida e o grupo a ajudar na perfeição.

Havia dois prémios em disputa: Nuno Megre para o melhor grupo e João Cortes para a melhor pega. Decidiu o júri, composto pelos dois homenageados da noites, que o melhor grupo foi Santarém e a melhor pega a de Francisco Cabaço.

A noite dos de Montemor também foi imensa e cheia de significado. Também ali houve um hino de valentia, emoção e sentimento.

Decidiu o cabo António Pena Monteiro que o primeiro da noite fosse para a cernelha, sorte de pega que me emociona de uma maneira particular.

Saltou para a pega o próprio cabo e Joel Santos. Para esta sorte existem tantos factores que se tem que conjugar… a dupla tem que estar alinhada, os campinos têm que ter um ofício enorme, o jogo de cabrestos tem que colaborar e o factor sorte é essencial… por umas e por outras a pega foi demorada… hoje dia não há paciência para nada e nisto dos toiros as pressas nunca foram amigas dos artistas.

Francisco Borges em ano de despedia fez tudo bem feito, tão bem feito que tudo pareceu fácil. Pega de época à primeira tentativa com o grupo a ajudar brilhantemente.

Para o último da noite saltou José Maria Cortes que executou uma grande pega à segunda tentativa, novamente os ajudas estiveram exemplares nesta sorte.

A Tauromaquia gira em torno de um animal único que o homem venera desde a Antiguidade. A simbiose entre o toiro, símbolo de poder, fertilidade, virilidade e até sensualidade e o homem que atinge o seu máximo esplendor quando consegue dominá-lo, superando o seu medo com valentia para criar, junto com o toiro, a beleza incomparável de uma lide ou de uma pega. Ontem houve momentos que guardaremos na nossa memória para tertúlias futuras em redor disto…Existiu ali uma emoção incomparável do espírito humano… o entusiasmo com a bravura, nobreza, casta, perigo e a estética de um toiro bravo e a grandeza de vários homens.

Os homens não se medem aos palmos e os toiros também não!

Ontem dos campos de Galeana rumaram até à capital seis toiros marcados com o ferro da espora de Murteira Grave. De apresentação díspar, o primeiro era terciado de apresentação e de bonito teve pouco. Os cinco restantes foram toiros reunidos, baixos, com bom tipo, nada exagerados de caras e pesos. Pareciam aqueles toiros de outros tempos em que os quilos e as cornamentas eram mais equilibradas.

Quanto ao comportamento tiveram muitos matizes para analisar e pensar… Corrida com mobilidade, raça, casta, sentido e emoção. Alguns tiveram pouca entrega mas possivelmente também quem lhes esteve por diante não lha procurou. Como disse um dia Juan Belmonte “ Que Dios te livre de un toro bravo”!

O toureiro é o homem na arena! Num sentido literal mas também num sentido metafórico e político. É o homem que não se limita a criticar desde a barreira ou a esconder-se nos burladeros, mas que assume pessoalmente o risco e a responsabilidade do que faz numa arena. Aquele que não procura atalhos, nem culpados alheios, nem superproteção de ninguém. É aquele que exibe uma bravura incomensurável diante do público mais exigente… diante de um rival nobre ao seu nível. Na sombra da própria morte!

Neste tempo de impostura, cálculo e cobardia, neste tempo de vitimização e de susceptibilidades abertas, a figura do toureiro surge como algo mais do que um herói. É um exemplo cívico! Um cidadão exemplar! Ontem três nomes dinásticos Moura, Bastinhas e Telles foram os protagonistas do cartel de Lisboa.

Existem noites em que os astros não se alinham e os génios não tem o seu dia…

João Moura Jr. cavaleiro pragmático diante das dificuldades, calmo e sereno não brilhou a 100%… ele existem noites…

No seu primeiro não houve entendimento entre o Grave e o João… coisa estranha nos tempos que correm. Fico com o ferro e posterior remate depois da colhida sofrida pelo cavaleiro de Monforte.

No quarto da noite a lide teve coisas muito boas mas o publico tem na memória fresca a anteriormente na pega do terceiro da corrida…

Moura teve por diante um Grave bravo mas não fácil… Daqueles que fazem pensar… e descompõem o mais habilitado. Houve ferros de enorme nota, remates soberbos e umamourina incrível… possivelmente das melhores que vi ao João e no remate possivelmente se tenha pintado um dos mais emocionantes que vi… mas o público ainda pensava na epopeia do Francisco Cabaço.

Marcos Bastinhas, no segundo da noite aproveitou a emoção do Grave e realizou a lide mais redonda da noite lisboeta. Muito bem nos compridos, lidando e cravando no sito. Nos curtos houve bom toureio, ferros de grande nota e remates cheios de raça toureira. Rematou a lide com violino e palmo que levantaram o conclave dos assentos.

No quinto da noite Bastinhas voltou a estar bem mas sem a conectividade com os tendidos que teve no segundo da corrida. Cravou com eficiência os compridos e nos curtos andou ligado ao oponente, rematando bem as sortes. Finalizou a lide com um bom par de bandarilhas nos médios.

António Ribeiro Telles filho realizou ontem em Lisboa uma segunda parte de lide ao terceiro da noite genial… mas a mim soube a pouco! Correto nos compridos, bem a lidar e bregar, cravando com eficiência… eis se não quando se destampam o frasco das essências e o visto na arena foi puro toureio a cavalo. Ferros extraordinários, remates bonitos e uma ousadia a cravar possivelmente um dos ferros da noite… um palmo soltado as rédeas do cavalo de frente e ao estribo no centro da Catedral do toureio a cavalo.

No que fechou praça, a lide foi intermitente… Houve alguma falta de sorte nos compridos que teimaram em não ficar no morrilho do toiro . Nos curtos a coisa parecia que ia por bom caminho mas não foi redonda. Os ferros foram cravados com eficiência mas chegando pouco as bancadas.

Dirigiu a corrida Lara Oliveira, sendo o médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

Artigos Similares

Destaques