A aragem, oriunda de um horizonte onde o astro Rei premeditava sinais de intensa canícula, aliviava rostos que evidenciaram uma autêntica alegria sábado, 20 de Julho do ano 24, em Évora para assistirmos a mais uma tarde de toiros na Arena da Cidade Museu. Cerca de três quartos de casa, no quarto espetáculo da temporada, (Festival da Gala da Tauromaquia, Concurso de Ganadarias, São Pedro) e desta vez para despedir uma Figura máxima do toureio, Pablo Hermoso de Mendoza.
Évora é um “museu a céu aberto” estreitas ruas empedradas, monumentos excepcionais e uma mistura de diversos estilos arquitectónicos, onde a tauromaquia está presente em muitos lugares do centro histórico… como por exemplo a Praça do Geraldo, onde se realizavam as corridas régias, o Convento das Mercês onde por ali houve em tempos um praça de toiros, a Rua os Toiros, rua por onde entravam os animais a serem lidados numa Évora de outras eras, entre outros sítios e lugares.
Numa sociedade em que se venera o moderno, esta minha cidade é, na realidade, feita de várias Évoras, em vários tempos: a romana, ou medieval, a renascentista, a liberal; a invisível, a mitológica, a real; a progressista, ou conservadora, a rural e todas elas confluem para um gosto em comum, a Tauromaquia.
Da Herdade do Zambujal do Conde eram os toiros a lidar nesta tarde, seis quatrenhos marcados com o ferro de Santa Maria, variados de tipo e comportamento todos eles dignamente apresentados para o acontecimento. .
O primeiro era um “Tio”, alto, comprido, grande, com cara… anunciado com 638 kg! Foi um toiro muito complicado e difícil desde a sua entrada na arena até à sua recolha pelos campinos. Em segundo lugar saiu um toiro reunido, bonito de tipo e cara. Mostrou raça desde que saiu pela porta dos sustos, veio a mais com o decorrer da lide, acabando em plano de bravo. O terceiro, foi o de menos cara do curro enviado por Francisco Lobo de Vasconcellos, toiro que teve querenças nos terrenos de dentro, foi encastado mas faltou-lhe romper em bom. Castanho de capa foi o que fez quarto, bom toiro este de Santa Maria, nobre a vir pelo seu caminho mostrando boas condições de lide. Grande e algo basto de tipo foi o quinto, foi um toiro agradecido, acabando por se entregar durante a lide. Acapachado de cara foi o que encerrou a corrida, toiro com raça, casta, vindo a mais.
João Moura, foi, é e será extrema pureza e quintessência do temple do toureio a cavalo, que ilustrou com a sua arte páginas e glória por essas praças do mundo. Moura e Évora… poderia ser o título de romance eterno, entre a cidade e o Mestre! No seu primeiro pouco havia a fazer diante de tamanho “regalito”… cravou os ferros com solvência, tentando interessar o toiro na lide mas a tarefa não foi fácil.
No quarto da corrida o frasco das essências foi aberto e a obra surgiu! Demonstrou mais uma vez com a arte que sempre o caracterizou, que a sua tauromaquia é eterna e enquanto tiver forças e lhe saia um toiro a modo deleitará os presentes com o seu toureio. A sua lide exalou arte do primeiro ao último galope dos seus cavalos. Relembrando memórias de antigas vitórias. Foi uma lide redonda, templada, clássica e académica de Moura. Cravou ao estribo, como mandam os cânones, lidou e ladeou, rematou as sortes de bonita e toureiras maneiras. Finalizou a sua actuação com dois palmos que puseram Évora de pé.
Pablo Hermoso de Mendoza em ano de adeus às arenas, é reconhecido por onde passa, relembrando as suas tardes históricas e épicas por esse mundo fora. O rejoneador de Estella é uma figura que revolucionou o toureio a cavalo, quebrando moldes que criou uma legião de seguidores e uma escola própria. Homem próximo, de sorriso eterno, familiar, amigo dos amigos, culto, trabalhador incansável, empreendedor. É profeta para muitos e aqui é mesmo ídolo para uns quantos! Pablo viu-se a gosto na arena eborense, cravando bons compridos em ambos os toiros, lidando e metendo na lide os de Santa Maria. Nos curtos houve momentos de bom toureio, ferros extraordinários, preparações sublimes e remates fantásticos. Évora mais uma vez se entregou a um dos seus ídolos e disse-lhe adeus de pé, reconhecendo o que este homem fez pelo toureio a cavalo e pelas tardes e noites magníficas que fez nesta terra aficionada.
João Salgueiro da Costa, cavaleiro também ele de dinastia toureira teve uma tarde de coisas muitos boas, toureando a gosto e triunfando também ele no seu segundo toiro.
Com o terceiro da tarde João cravou com decisão, lidou com ofício, tentando sempre contrariar as querenças do oponente. Com o bravo sexto a lide teve grandes momentos de toureio marca Salgueiro. Nos compridos aproveitou as investidas enraçadas e cravou com decisão. Nos curtos houve um compêndio, entre o cavaleiro, cavalo e toiro e surgiram bonitos momentos de toureio. Cravando e lidando como mandam as regras do toureio clássico, rematando as sortes com graça. O público reconheceu o feito, aplaudindo com força o cavaleiro de Valada.
Convidou a empresa a pegar os dois grupos do concelho, Évora e São Manços. A tarde foi exigente e dura, os toiros não perdoaram deslizes e arreando forte.
Henrique Burguete foi o escolhido para bater as palmas ao primeiro da tarde, toiro este muito complicado e difícil… O Henrique suportou nas duas primeiras tentativas violentos e demolidores derrotes acabando sempre por sair da cara, ficando magoado na segunda tentativa. Foi dobrado por Ricardo Sousa, que mostrou a alma que o caracteriza, resolvendo um problema à terceira tentativa que se via muito difícil. Também o Ricardo recolheu à enfermaria lesionado no pulso. O primeiro ajuda Francisco Abreu, na segunda tentativa também recolheu à enfermaria depois de ter ficado inanimado na arena, Graças a Deus todos os forcados recuperam favoravelmente.
Rui Bento tentou a sorte diante do terceiro, duas tentativas duras, em que o toiro entrava com muita força e rapidez pelo grupo dentro desfeiteando o forcado da cara. Recolheu à enfermaria e foi dobrado por Francisco Valverde que com ajudas carregadas à quarta pegou o de Santa Maria.
João Cristovão saltou para pegar o quinto da tarde e à terceira conseguiu realizar uma pega dura em que o forcado da cara mostrou sempre alma, raça e muita decisão. O primeiro ajuda Bruno Ramos também saiu magoado na segunda tentativa.
Pelo Grupo de São Manços abriu a tarde João Fortunato, na primeira tentativa não esteve perfeito a receber e acabou por sair da cara. Na segunda tentativa, citou bonito, recebeu bem e a foi concretizada uma boa pega de caras.
Diogo Coutinho à quarta tentativa, nas duas primeiras não se fechou corretamente nem de pernas, nem de braços e foi desfeitiado pelo toiro, na terceira tentativa não ficou na cara do de Santa Maria e bem grupo repetiu a sorte.
Manuel Trindade fechou a tarde com um pegão à primeira tentativa, bem a citar, recuar, receber para se fechar com raça, bem o grupo a ajudar.
Dirigiu a corrida António Santos e foi o médico veterinário Carlos Santana.

