Salgueiro triunfa diante do “Terror e Furor” dos Palha nos 120 anos da Palha Blanco

Corria o ano de 1901 quando um punhado de Vilafranquenses com José Pereira Palha Blanco à cabeça foram impulsionadores da construção da Praça de Toiros de Vila Franca de Xira, ontem a Sevilha Portuguesa 30 de Setembro de 2021 comemorou 120 anos de História. Por lá passaram muitas figuras da tauromaquia mundial. Cavaleiros, Forcados, Matadores e Ganaderos. Parabéns Palha Blanco, Parabéns Vila Franca, Parabéns Vilafranquenses.

Quis a empresa Tauroleve assinalar a data com uma Festa! Falar de Vila Franca é falar de Ribatejo e Ribatejo é Lezíria, Campinos, Toiros, Cavaleiros, Forcados, Fado e Senhora de Alcamé. Ontem tudo isso se reuniu na arena. Foi bonito ver a Procissão das Velas ao som de Nossa Senhora interpretada por Teresa Tapadas, arrepiante mesmo. Nossa Senhora dos Trigais e padroeira dos campinos (Senhora de Alcamé) aos ombros dos homens dos campos foi venerada por todos os presentes pedindo proteção e ao mesmo tempo agradecendo o estarmos ali presentes e porque não dando Graças por parecer que tempos de bonança aí vêm.

Do cartel de inauguração em 1901, constava um toiro Palha e ontem passados 120 seis de Palha no cartaz anunciador de tão assinalada data. Ganadaria histórica desta terra e no Mundo.

Toiros com personalidade própria, toiros com um amo que têm uma ideia de toiro pouco comum nos dias que correm. João Folque, cria o seu toiro, e o seu toiro é um toiro pouco colaborante e que põem problemas aos toureiros (e que problemas puseram alguns dos lidados ontem), toiro difícil de dominar, toiro exigente, duro…

Quem vai ver uma corrida de Palha sabe ao que vai… Vai ver um tipo de toiro específico, um toiro que vai por problemas, que vai exigir aos toureiros que os dominem na lide, sob pena de lhe pedir muitas contas… eventualmente uma colhida.

Alguns dos lidados ontem foram tudo isso e muito mais… A corrida foi de muitos ais e uis nas bancadas. Bem apresentados, luziram testas generosas, o segundo e quarto eram umas verdadeiras estampas. De comportamento, o primeiro foi o que mais se pareceu ao nosso toiro do século XXI, mais colaborante e com alguma nobreza. Os restantes quatro, foram toiros quanto ao comportamento e até tipo os que poderiam figurar em qualquer crónica de à 120 anos atrás… Duros, difíceis, com falta de entrega e sem romperem e a fazerem passar cavaleiros, forcados e bandarilheiros o Cabo das Tormentas. Possivelmente João Folque terá ficado contente com algumas características apresentadas pelos seus pupilos, uma das frases que mais o têm popularizado é aquela ” eu não crio toiros para toureiros” e os de ontem realmente não foram.

O que fez sexto foi um novilho no qual Tristão Ribeiro Telles Guedes de Queiroz prestou provas de Cavaleiro Praticante, foi manso com querença em vários sítios da arena, mas com a virtude de humilhar um disparate.

Em praça cinco cavaleiros de alternativa e o Tristão que dava mais um passo para um dia alcançar essa meta. Como disse anteriormente todos tiveram que livrar o Cabo das Tormentas com os Palha lidados. Nossa Senhora de Alcamé certamente estendeu o seu manto protector a todos e em especial a Francisco Palha que foi colhido com violência, e que chegou mesmo a ser desmontado do cavalo pelo toiro. No fim todos saíram pelo seu pé da Palha Blanco e esse sem dúvida foi o maior triunfo da noite. Mas houve outros, o de Salgueiro da Costa e de alguns forcados que de maneira brilhante bateram as palmas aos pupilos da Adema e os pegaram com valentia e acima de tudo alma.

Das lides a cavalo não há muito que contar de três… Luís Rouxinol, Filipe Gonçalves e Francisco Palha tentaram lidar toiros quase impossíveis. Cravaram os ferros da ordem com a destreza que o “acontecimento” mandava… Todos estavam cientes que o brilhantismo não iria estar presente nas suas lides e sair da arena como entraram já era um triunfo e uma vitória nem que fosse moral, para estes três bravos. A maioria do público reconheceu o mérito e o esforço e guardou respeitoso silêncio durante as lide sem música.

Rui Salvador lidou o melhor da corrida e a lide foi bonita e agradável. Cravou os ferros, com a raça que o caracteriza, bregou e lidou bem. Segundo foi um daqueles marca Salvador, metendo tudo da sua parte, atacando o toiro, cravando como mandam as regras de alto abaixo, a lide teve música e foi premiada com o lenço branco do director de corrida no fim da mesma.

Tristão lidou o sexto de uma maneira brilhante, já o escrevi e volto a escrever. O Tristão têm a inocência da juventude, têm arrojo, é desembaraçado, é natural, valente, têm inspiração toureira, artista e transmite tudo isso às bancadas. Ontem teve um triunfo em Vila Franca! Cravou muito bem os compridos, em bonitas sortes, rematadas a preceito. Nos curtos a lide foi em crescendo, senhor de boa e bonita brega a tentar desenganar o novilho, cravou grandes ferros e Palha Blanco reconheceu isso não lhe regateando aplausos. No fim a sua cara era a estampa do triunfo alcançado.

João Salgueiro da Costa “partiu a loiça”! Conseguiu desenganar o toiro, encontrou-lhe o sítio e a lide acabou em apoteose. Salgueiro puxou pelo génio, engenho, raça, valor e por vezes até pela arte que leva dentro para alcançar mais um triunfo nesta temporada de 2021. Andou regular nos compridos, nos curtos entendeu o toiro, lidou, cravou ferros brutais e levantou a Palha Blanco com a sua lide. Os ferros tiveram verdade, técnica, não deixou pensar o toiro, atacou e cravou de alto abaixo. Grande lide, de um cavaleiro que até ao momento é um dos grandes triunfadores da temporada.

Nas pegas a noite foi de exaltação ao forcado… Toiros de fazerem secar a boca a qualquer um… Toiros a pedirem grupo, forcados de cara com um valor fora do comum, se para se pegar um toiro é necessário ter “brageta” para os de ontem foi necessário isso e muito mais.

Abriu praça o cabo dos Amadores de Vila Franca, Vasco Pereira que três vezes teve que lhe bater as palmas, toiro a derrotar forte e a não permitir erros, à terceira com ajuda fundamental do primeiro ajuda e das segundas a pega foi realizada. Guilherme Dotti numa grande pega à primeira tentativa, viagem longa, com o toiro a bater e a entrar com a cara por cima mas o Guilherme a não querer largar o grupo entrou cá atrás e a pega foi feita. Grande pega. Fechou a noite João Matos, num monumento ao valor, garra e raça… O Palha pedia que lhe entrassem nos terrenos, era tardo, não rompia, João estava determinado em não desfazer a pega, entrou nos terrenos mas o Palha disse que não… Foi mudado de sítio e novamente o João pisou terrenos de muito compromisso, quase proibidos, não desistiu e o toiro lá se decidiu a investir para o “comer”, o cara como uma alma do outro mundo aguentou tudo e fez um pegão que levantou a praça. Parabéns João por este hino à pega de caras.

Pelo Aposento da Moita abriu praça Leonardo Mathias e fez a pega mais técnica da noite, bem a citar, receber, fechou-se como mandam as regras, o grupo ajudou e o toiro foi reduzido à valentia de oito homens que levantaram o estandarte da arte de bem pegar toiros na Palha Blanco. Martim Cosme, é um forcado talhado em mil batalhas, ter visto o toiro que ia enfrentar durante a lide tirava a vontade de ser forcado a um punhado de valentes, mas para o Martin não há toiros difíceis, a vontade é sempre a mesma de resolver problemas. Foi-lhe duas vezes à cara, com derrotes demolidores, o grupo ajudou e foi feita outra grande pega ontem. Fechou a corrida Tiago Valério, que à terceira pegou o novilho da corrida. Este pupilo da Adema foi ficando cada vez mais reservado durante a lide, na pega esse defeito foi acentuado. Teimou em meter a cara por baixo e não arrancar. No chão quando apanhava o forcado a jeito dava sova das antigas. Na terceira tentativa o problema foi resolvido.

Dirigiu a corrida Ricardo Dias e foi médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

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