Quem tem unhas, toca viola!

 

Ao terceiro e último festejo maior de uma Feira de Outubro composta por duas Novilhadas e três Corridas de Toiros, a “Palha Blanco” reencontrou-se finalmente com a sua essência, a da emoção, da exigência e das coisas bem feitas ou, pelo menos, assim tentadas. Responsáveis por este reencontro foram um curro de Palha desigual de apresentação (destaque negativo para o segundo da ordem, muito por baixo do que se exige para aquela Praça e para a data em questão) e que teve muitas “teclas que tocar”, pela via da aspereza e da mansidão encastada e um conjunto de intervenientes (os três cavaleiros e o Grupo de Forcados da Terra) que souberam, a todo o momento, plantar cara aos seus oponentes e ultrapassar as suas dificuldades, essencialmente através de uma enorme entrega, valor e respeito ao público e aos pergaminhos do castiço redondel ribeirinho. Para todos eles vai, antes de mais, o nosso agradecimento!

Abriu Praça o veterano Luís Rouxinol, a quem calhou desde logo aquele que foi o pior toiro da Corrida, um manso de livro, que nem sequer a casta e génio dos restantes exemplares da Adema demonstrou, completamente desinteressado do cavalo, quase não se arrancando para os ferros e adiantando-se uma barbaridade em alguns deles. Frente a tal matéria-prima andou em plano de seriedade e muito esforço o Ginete de Pegões, procurando a todo o momento a ligação com o manso, mas sem grande sucesso. Lide de entrega e de ultrapassagem de dificuldades, que mereceu o respeito do público presente.

Naquela que é a sua noite, o Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, abriu praça por intermédio de David Moreira “Canário”, que esteve perfeito no cite e, sobretudo, a mandar na investida, parecendo haver um ligeiro defeito no momento da reunião (ou do toiro, ou do Forcado), que não foi o suficiente para desfeitear a sua vontade em ficar, contando com uma enorme primeira ajuda de Francisco Calçada Soares (merecedora de ir ao meio da arena) e com a grande coesão do restante Grupo, derrotando a violência e a velocidade que o “Palha” empregou frente aos homens da jaqueta às ramagens. Uma primeira pega “à Grupo de Vila Franca”, que serviu de aperitivo à grande noite que estava por vir.

O segundo da ordem, o tal que, por apresentação, nunca deveria ter saído à arena da “Palha Blanco”, teve comportamento semelhante ao primeiro, embora tendo oferecido umas quantas arrancadas de manso a mais, sobretudo na perseguição à garupa dos cavalos, já que, pela frente, reservava-se com perigo. Felizmente que, se há Cavaleiro em Portugal que se agiganta com adversários destas características, esse é Francisco Palha, encontrando Toiro em todos os terrenos e com valor “para dar e vender” que o permite pisá-los. Não foi uma lide para a história, destacando-se o comprido à porta-gaiola e um grande segundo curto, mas, tal como aconteceu com Luís Rouxinol, é de saudar a forma séria e entregada com que procurou sacar partido, sem truques, de um poço que estava bastante seco. Para os dois primeiros Cavaleiros da noite, o melhor estaria por vir…
Citou de caras o Forcado Pedro Silva, que quiçá se tenha alongado demasiado no cite (não aconselhável para o manso que tinha em frente, pois aumentou o tempo em que este o pôde “medir”), mas que esteve depois imponente a recuar e sempre a alegrar com a voz a bruta investida do “Palha”, recebendo na perfeição e cheio de garra, para depois ver como o “primeiras”, João Maria Santos, deu tudo de si, entregando o “corpo ao manifesto” e ficando pelo caminho, mas compondo o suficiente o forcado de cara para permitir uma decidida entrada do segundo-ajuda, Bernardo Alexandre, secundado por todo o Grupo, obrigado a “suar” para parar a bruta carreira do Toiro que, além de tudo, procurou fugir junto às tábuas. Mais um grande momento dos homens de Vila Franca!

Para fechar a primeira parte da Corrida apresentou-se o jovem António Prates e foi sua, sem dúvida, a melhor actuação dessa primeira metade do festejo. O exemplar da Adema saiu em registo semelhante aos anteriores, mas com mais “chispa” e carregando com afinco a espaços (novamente mais na perseguição do que nos momentos de se arrancar para os ferros), características muito bem aproveitadas pelo Cavaleiro para lhe aplicar uma brega vistosa, emocionante e cheia de intenção, que nos ficou na retina. Os ferros, ante a renitência do oponente em investir por direito, foram colocados com valor e com a perfeição possível, pisando terrenos de muito compromisso e de lá saindo sempre de forma airosa, o que, considerando o comportamento do “Palha”, é dizer muito do mérito que teve esta lide.

Para a pega estava reservado um dos grandes momentos da noite, com Guilherme Dotti a demonstrar um crer, um querer (não são a mesma coisa, atenção) e um par de braços sobre-humanos, para aguentar a verdadeira guerra de derrotes e de correria desenfreada que foi a investida deste Toiro, com forcados uma e outra vez a caírem e a levantarem-se daquele que foi um autêntico campo de batalha, tendo, no final, como vencedores incontestáveis, o Guilherme e os restantes companheiros de Grupo. Um momento (ou será Monumento?) para recordar durante muitos anos vindouros!

A Corrida, pelo interesse do vivido e pela ausência de voltas e voltinhas (embora, no caso em apreço, bem que teriam, até então, sido justificadas), seguia a um ritmo extraordinário e pronto nos encontrámos no quarto da função, onde Luís Rouxinol sacou toda a sua “casta” toureira, bem como esse verdadeiro Maestro que é o “Douro”, para nos deixar dois ferros de antologia, com o Toiro completamente fechado em tábuas, um deles junto à mesmíssima porta dos curros, conseguindo não só cravar nesses terrenos, como rematar as sortes por dentro, numa nesga impossível, onde só os verdadeiros eleitos e os de maior coragem e abnegação conseguiriam passar. Chamava-se a Rouxinol, no início desta crónica, de “veterano”: sê-lo-á, pela idade, maturidade e tempo de alternativa, mas assim siga a Alma e temos Artista para muitos mais anos!

O “Palha”, mais um manso poderoso e com génio, não augurava novamente facilidades para os Forcados, acabando mesmo por lesionar João Luz num brutal primeiro derrote (o Forcado recolheu à enfermaria e posteriormente ao Hospital), sendo dobrado, com decisão e poder por João Matos “Menica”, destacando-se uma outra boa intervenção de João Maria Santos, nas “primeiras” e do restante Grupo, também ele reencontrado na sua “Palha Blanco”, ao nível da decisão e coesão nas ajudas.

Tal como Luís Rouxinol, também Francisco Palha se encastou ainda mais no segundo do seu lote, aplicando-lhe uma lide “marca da casa” que, se é fácil de resumir, dificílima é de realizar, não sendo por acaso que atingiu o actual patamar de reconhecimento e excelência, uma verdadeira Figura das nossas Arenas. O seu conceito é essencialmente um: os toiros bregam-se e trabalham-se com arte, sobriedade e boa monta para os deixar em terrenos idóneos para a cravagem, por direito, de frente e ao estribo e para uma saída airosa, mas se se recusam a permanecer nesses terrenos, não se retira o mínimo de pureza à sorte e entra-se “por ali dentro”, como se a meio da Praça estivéssemos, fazendo-se valer de um coração que daria para meio “escalafón” e de uma quadra de cavalos que o acompanham em valor e destreza, permitindo-lhe sair daqueles embroques quase impossíveis de uma forma simplesmente abismal. Mais uma actuação plena de galhardia, seriedade e valor, com os ligeiros toques sofridos a não serem mais do que a consequência de quem “põe a carne toda no assador”!

Abramos agora um parêntesis, já que falamos de Figuras da nossa Festa, pois neste 6 de Outubro, Terça-Feira Nocturna de exaltação ao Forcado Vilafranquense, despediu-se alguém que foi, sem dúvida, FIGURA na sua Arte e que corporizou na totalidade o ideal desse Forcado. Valor, muito valor (daquele que nos faz tourear e consentir as investidas como poucos o fizeram ou farão), entrega ao Grupo, dentro e fora da Praça, sobriedade, conhecimento e uma infinita classe e elegância fizeram de RUI GODINHO, um Forcado para a História, que hoje, felizmente, se documenta em incontáveis filmagens e fotografias, videoteca preciosa para todos os actuais e futuros Forcados. E, nem de propósito, para mais uma vez provar quem e o que foi neste Mundo, estava-lhe reservado outro “pássaro” vindo da Adema, que o obrigou a três tentativas de execução técnica perfeita e alma incomensurável, com a primeira de uma violência extrema, a desbaratar forcado e restante grupo até aos terrenos de tábuas, a segunda, ainda mais “feia”, com o Rui e o primeiro-ajuda a serem autenticamente “despachados”, de muito má maneira e, finalmente, a terceira, em que o Godinho e todos os seus irmãos, honraram mais uma vez nesta noite os pergaminhos do seu Grupo, numa pega plena de poder, entrega e coesão por parte de todos os oito elementos presentes na arena.

Ouvi mal as palavras que o “Margaça” te dedicou na lide do seu primeiro, mas algo me chegou: “Não fiques triste, que Vila Franca continua cá…” E não fiques Rui, porque deste tudo de ti, porque foste ENORME e porque infinitamente maior será a tristeza da tua “Palha Blanco” e de outros incontáveis redondéis por esse país fora, quando te procurarem e já não te virem com a rubra jaqueta envergada. De ti fica, não a recordação, mas algo muito mais forte, a verdadeira SAUDADE, aquele sentimento tão português, que mistura com tanta delicadeza, o imenso orgulho do que te vimos fazer com a nostalgia de nunca mais o irmos assistir… Sentimento esse só reservado aos verdadeiramente GRANDES! Muito, muito obrigado Rui Godinho!

Chegávamos ao último toiro, mas a Corrida já estava mais que “paga”, plena de emoção e de grandes momentos. Ainda houve, contudo, espaço para ver como António Prates deu mais uma vez a volta a um oponente que, embora tenha sido o que menos descaiu para tábuas e mais durou, foi também o mais bruto nos seus “arreões”, mantendo o comportamento comum a todo o curro, de muito pouco “querer ver” os cavalos pela frente. Prates andou novamente em plano de esforço e seriedade, mas a lide resultou, a meu ver, um pouco mais intermitente. E normal será, na injusta comparação com os seus alternantes, já com maior tarimba para enfrentar os problemas e dificuldades surgidos neste tipo de Toiros.
Vasco Pereira encerrou com chave de ouro, uma fabulosa actuação do Grupo por si capitaneado, entrando por três vezes em terrenos de muito compromisso, frente ao parado, reservado e bruto “Palha”, para de lá se sacar com enorme técnica e conhecimento, faltando quiçá um pouco mais de decisão dos segundos ajudas, numa primeira tentativa verdadeiramente impressionante, ocorrendo depois um “estranho”, no momento da reunião da segunda e consumando à terceira, em nova demonstração de valor e poder pelos terrenos pisados e pela forma como de lá trouxe o oponente, contando novamente com a coesão, técnica e decisão de um conjunto que brilhou nesta noite ao seu melhor nível!

Acabada a Corrida, encontro marcado com um conjunto de amigos para beber um último copo desta Feira de Outubro tão atípica e analisarmos as ocorrências do que nos tinha sido dado a ver… As conclusões foram quase todas no mesmo sentido, depois de um serial que teimava em não nos deixar bom sabor de boca: de terras da Adema veio um curro difícil e bruto, daquelas violas, ásperas e com cordas duras, que magoam as mãos, a exigir muito conhecimento e valor para delas extrair “melodia”. As “notas” saíram, por vezes, mais roucas do que doces, mas o “Fado”, esse que nos arrepia, por entrega e sentimento, mais do que pela perfeição na execução, esteve sempre lá. Em definitivo, nesta emocionante noite, todos, sem excepção, “tiveram unhas para tocar viola” e, nem que fosse só por isso (atenção que se viram “coisas” de altíssima qualidade), saímos da Praça com um grande sentimento de gratidão pela enorme seriedade demonstrada por todos os intervenientes, o mínimo que a “Palha Blanco” merece e exige…

E permitam-me um último apontamento “bairrista”: que grande esteve o “Grupo da Vila”! Muito obrigado a todos!

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