Morreu um toureiro. Não era dos meus, nem dos maiores, que não é a morte que faz figuras. Era dos valentes. Dos guerreiros. Dos que toureiam como destino, como se nada houvesse além da arena e do toiro e daqueles dez minutos. Como se em cada passe justificasse a sua vinda ao mundo. Fandiño era isto tudo como toureiro. Mas o seu legado tornou-se muito mais do que aquilo que foi e fez enquanto artista. Fandiño deixou o lugar dos guerreiros e foi para o lugar dos heróis. Dos que engrandecem a Festa. Como Joselito, Manolete ou José Falcão. Dos que morrendo, não morrem nunca.
Não morrem porque é com eles, com o seu drama, o seu sangue e as nossas lágrimas, que a festa se veste de glória. É pelos mártires do toiro, que a quietude, mais que ausência de movimento, é heroísmo, e o temple, mais que lentidão, é milagre. É pelos mártires que nos acelera o coração quando um piton roça a taleguilla e é por eles que nos pomos em pele de galinha quando uma verónica é dada com o relaxo de quem bebe um whiskey depois do jantar. São deles, dos que partiram ao serviço do toiro, todos os olés gritados, todas as palmas batidas e todas as portas grandes abertas. Porque a aclamação e glória só está ao alcance dos que, criando arte, contrariam a lógica de enfrentar uma besta de 500 quilos, e essa lógica só nos é servida com tragédia.
A morte de um toureiro devolve-nos à terra. Põe tudo em pratos limpos. Torna a festa numa coisa real, de carne, osso e sangue. Afasta-a das encenações. Lembra-nos que tal como o escritor cria arte com a caneta e o pintor com o pincel, o toureiro cria arte com a própria vida. E só por isso merece ser aclamada e carregado em ombros. E no fim, só a morte de um toureiro legitima toda a festa. Só a possibilidade verdadeira de morrer legitima que um toureiro possa, também ele, matar. A tragédia, quando servida com esta crueldade, é afinal a melhor defesa da honra de todos os toureiros, de toda a Festa, de toda a afición.
É por isso que Fandiño se tornou tão maior do que alguma vez foi. Porque a sua morte, tal como a de outros no passado, é a melhor defesa que a festa pode ter. Que entre pela porta grande do Céu! Obrigado Ivan!










