Quando a tradição é cultura

Crónica

Recorrentemente ouvem-se várias versões sobre a atribuição de um carácter cultural ao fenómeno taurino. Alguns criticam e negam essa classificação, ao passo que a grande maioria revê na tauromaquia a sua componente artística e cultural.
Mas, os que repudiam essa versão certamente desconhecem a abrangência da tauromaquia e a sua diversidade, seja ela cultural ou social. A tauromaquia não se cinge a um espetáculo tauromáquico numa praça de touros. É um fenómeno global e transversal a toda uma sociedade.

A culturalidade da tauromaquia, da tutela do Ministério da Cultura, para além do actual espectáculo tauromáquico tradicional, em que se invoca e retrata a história de Portugal, com trajes, modos e vivências dos séculos XVIII a XIX, e tradições que remontam a muito antes dos primórdios da história da nossa nação, alarga os seus horizontes a fenómenos populares onde a cultura tauromáquica é directa ou indirectamente a fundação de tradições, profissões, ideologias e modos de vida.

Para quem se preocupa em contar audiências em praças de touros com tendências de denegrir a tradição, falta-lhes a verticalidade de assumir a tauromaquia como um todo, e incluir na mesma a tauromaquia popular, a de campo e a de rua, a das cidades e a das aldeias, a de família e a espontânea, a de profissão e a de amador, a que deslumbra e a que se respeita, a que move multidões, a que cria sonhos e mitos.

Portugal é um País de tradições, de culturas artísticas e sociais associadas à tauromaquia, tais como as largadas de touros em Vila Franca de Xira, as largadas das Festas da Sardinha Assada no Ribatejo, e por um vastíssimo número de festas populares, desde as Festas das Salinas e do Barrete Verde de Alcochete, as festas da Moita, a Capeia Arraiana do Sabugal, as Touradas à Corda dos Açores, e muitos outras manifestações e datas onde a tauromaquia está profundamente enraizada, desde o Norte a Sul de Portugal, de Nave de Haver a Vinhais, da Póvoa do Varzim a Ponte de Lima e a todo um País taurino do centro e sul do País.

Se juntarmos a todas estas manifestações populares as tradicionais corridas de touros, dificilmente poderemos ter alguém a defender, de uma forma honesta, a ilegitimidade da versatilidade cultural e da importância sociológica do mundo taurino.

Mas, nem só de cultura artística se resume a tauromaquia, pois a cultura social da mesma é praticamente equipável à primeira, em que as tradições do mundo rural moldam-se ao longo dos séculos a personagens e tradições imutáveis no tempo, como os campinos e maiorais, do fandango às picarias, do cavalo lusitano à genética ancestral da casta ganadera Portuguesa.

A tauromaquia não pode ser analisada apenas na vertente artística de uma corrida de touros e da sua recriação de parte da história Portuguesa, mas sim abrangendo o seu carisma popular, transversal a classes económicas e sociais, apaixonante para meios rurais e urbanos, que engloba uma cultura, que por muito que alguns queiram proibir ou condicionar, é indissociável da arte e da história Portuguesa.

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