Praça Cheia para comemorar 125 anos de arte

“Antes de começar a corrida, quando se procedia á rega da arena, um empregado da praça, por distracção, abriu a porta do touril esquerdo, julgando que era a porta que serve para a embolação. D´este engano resultou dar entrada no redondel um dos bichos, que, por um triz, não apanha o individuo que preparava a mangueira. O pobre homem agarrou um calor que lhe ha de ficar na lembrança.

Ás 4 e 55, isto é, com 25 minutos d´atrazo, deu entrada na arena o Netto, que cumprimentou a auctoridade, e recebeu das mãos do director de corrida as chaves do touril, que entregou ao careca. Retirou-se em seguida e entrou a azemola com as farpas, conduzida e rodeada pelos moços de forcado. Recolhida a azemola, sahiu a cuadrilha, que foi recebida com uma salva de palmas.

Os bandarilheiros e cavaleiros apresentaram-se com fatos bonitos e ricos. Os campinos bem vestidos, conduzindo á mão os seus cavallos. Os creados dos cavalleiros, tambem fardados, traziam os cavallos de combate. Os forcados, os andarilhos, todo este conjuncto produzia um efeito esplendido, mesmo imponente.

Os cavaleiros executaram bem as cortezias. Tinoco vestia uma casaca de seda côr de rosa e Fernando de Oliveira de seda preta bordada a ouro. Cumprida esta formalidade, os lidadores receberam muitas palmas e houve chamados aos Robertos e Peixinho. Os artistas tomaram os respectivos postos. Os socios fundadores da Empreza Tauromachica foram offerecer a Tinoco uma bonita farpa, da qual pertenceu ao lavrador o ferro e a haste ao cavaleiro. Era a farpa de honra. O director da corrida, sr. Bolas, mandou sahir o primeiro animal.

(…)

Resumo – os touros do acreditado lavrador, o sr. Emilio Infante, estavam bem tratados, eram na maioria de boa estampa, mas sahiram muito ordinarios. Nunca esperamos um curro de inauguração tão réles. O jogo de cabrestos era bonito.

Os artistas trabalharam com vontade, mas a má qualidade dos bichos não os deixou brilhar. Os cavalleiros executaram sortes com luzimento, principalmente Fernando de Oliveira no 10º touro.

Destinguiram-se Calabaça e Raphael Peixinho.

A direcção foi má, a corrida péssima e desanimada.”

Esta terá sido uma das crónicas da corrida de inauguração que esta noite comemora 125 anos (in “A praça de toiros de Lisboa (Campo Pequeno), de António Manuel Morais, 1992”)

125 anos depois…      

Cavaleiros; João Moura (de casaca azul), António Ribeiro Telles (de casaca azul) e Luis Rouxinol (de casaca castanha).

Pegam os forcados Amadores de Montemor (cabo António Vacas de Carvalho) e Amadores da Lisboa (cabo Pedro Maria Gomes).

Seis toiros das ganadarias: Palha; Oliveiras Irmãos; David Ribeiro Telles; Murteira Grave Mário e Herdeiros de Manuel Vinhas e Passanha.

Director de corrida Pedro Reinhardt e médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva.

Cornetim José Henriques.

Antecedeu a corrida de toiros, um espectáculo da Charanga a Cavalo da Guarda Nacional Republicana e o fado cantado por Camané e Nathalie.

No que diz respeito ao público verificou-se casa cheia, com referência a lotação esgotada.

O 1º toiro da noite da ganadaria de Mário e Herdeiros Manuel Vinhas, de pelagem preta e bragado, com o número do costado 39, nascido em Março de 2013, com 582 kg, calhou em sorte ao cavaleiro João Moura, com a respectiva quadrilha João Ganhão e Benito Moura.

O toiro sai distraído e João Moura crava o primeiro comprido que fica em bom sítio e recebe as primeiras palmas do público. No segundo ferro comprido João Moura dando algumas vantagens e abrindo o quarteio deixou o ferro algo traseiro. Trocou de montada e após uma passagem em falso, coloca o primeiro ferro curto com um ligeiro toque na montada, recebendo as primeiras palmas do público.

De seguida crava um segundo ferro que fica em bom sítio, com o toiro a transmitir pouco, e a música começou a tocar com a banda do Samouco que abrilhantou a corrida. Depois de ter falhado o terceiro ferro curto, cravou um ferro de boa nota e recebe aplausos do público. Os dois ferros seguintes não deixaram história, tendo faltado toiro no momento da sorte. Termina a lide com um ferro de palmo. Faltou toiro ao Maestro João Moura.

Para pegar o primeiro toiro da noite saltou à praça o forcado Francisco Barreto dos Amadores de Montemor, que brindou ao público que encheu o Campo Pequeno. Com um cite correcto, batendo as palmas e dando vantagens, o toiro arranca de largo e o forcado aguentou com galhardia a investida, recuou bem e conseguiu uma boa reunião, tendo saído da cara do toiro perto das tábuas. Na segunda tentativa, voltou a citar de forma correcta, provocou a investida do toiro, aguentou e recuou, fechando-se bem à córnea e com o grupo a ajudar consumou a pega, com forte ovação do público.

O cavaleiro João Moura e o forcado Francisco Barreto deram volta à praça.

O 2º toiro da corrida, de pelagem preta, com boa cara, da ganadaria David Ribeiro Teles, com o número do costado 65, nascido em Janeiro de 2013, com 582 kg, para o cavaleiro António Ribeiro Telles, com a respectiva quadrilha João Ribeiro “Curro” e António Ribeiro Telles Bastos.

António Ribeiro Telles depois de colocar com mestria o toiro, cravou o primeiro ferro comprido que ficou em bom sítio, tendo o público aplaudido a sorte. De seguida António Ribeiro Telles leva o toiro investido na garupa do cavalo, para depois cravar o segundo comprido, seguido de um toque na montada. Trocou de cavalo e deixou, em terrenos reduzidos, o primeiro ferro curto com ligeiro toque na montada. De seguida, com o toiro no meio da arena e em curto, cravou o segundo ferro de muito boa nota, com o público a aplaudir. Com um toureio clássico, e depois de uma passagem em falso, citou de frente e em curto, deixando um ferro de excelente nota, tendo recebido forte ovação do público. A música começou a tocar e o cavaleiro acompanhou a mesma com uma boa equitação ao som das palmas do público, tendo deixado, a rematar a lide, um ferro curto ao estribo de muito boa nota, recebendo forte ovação do público.

Para a cara do segundo toiro da noite, saltaram à praça os Amadores de Lisboa e para a cara foi o forcado Martim Lopes que brindou aos forcados que se fardaram pelo seu grupo. Citou com calma, tendo provocado a investida do toiro, recuou bem a aguentar a investida e, já em desequilíbrio, fechou-se à córnea com o grupo a ajudar, tendo a pega sido consumada à primeira tentativa. Seguiu-se uma forte ovação para o rabejador.

O cavaleiro António Ribeiro Telles e o forcado Martim Lopes deram volta à praça.

O 3º toiro da noite da ganadaria Oliveira e Irmãos, de pelagem preta e bragado, com o número do costado 515, nascido em Novembro de 2011, pesou 580 kg, para o cavaleiro Luís Rouxinol, com a respectiva quadrilha Manuel dos Santos “Becas” e Sérgio Silva.

O toiro saiu reservado e sem qualquer ligação ao cavalo, tendo o cavaleiro Luís Rouxinol tentado cravar o primeiro ferro e, com alguma dificuldade, deixou o primeiro ferro comprido. O toiro continuou distraído e sem ligação ao cavalo, tendo Luís Rouxinol deixado o segundo comprido em bom sítio e com palmas do público a premiar o esforço do cavaleiro.

Trocou de montada e deixou o primeiro ferro curto de boa nota, tendo o toiro derrotado no momento da sorte. De seguida e perante as complicações que o toiro estava a apresentar, deixa um segundo ferro curto, em bom sítio e com aplausos do público. Após o terceiro ferro curto o toiro aperta o cavaleiro contra as tábuas. Com garra Luís Rouxinol crava, em curto e com um toque na montada, o quarto ferro com ovação do público, reconhecendo as dificuldades do toiro e o querer e vontade do cavaleiro.

Para a cara do terceiro toiro da noite saltou à praça o forcado Francisco Borges dos Amadores de Montemor, que brindou aos directores da TVI. Francisco Borges citou de largo, com o toiro a sair cedo, provocou a investida e recuou na cara do toiro e, apesar de ter sido pisado, fechou-se à córnea, tendo o grupo ajudado de forma eficaz e a pega concretizada à primeira tentativa.

O cavaleiro Luis Rouxinol e o forcado Francisco Borges receberam forte ovação do público no centro da praça, tendo o cavaleiro recusado dar a volta à praça, decisão que o forcado acompanhou.

O 4º toiro da noite, de pelagem castanha e com boa cara, da ganadaria Murteira Grave, com o número 128, nascido em Setembro de 2012, com 546 kg, para o cavaleiro João Moura.

O cavaleiro João Moura, depois de uma primeira passagem em falso, cravou um primeiro ferro comprido para abrir a investida do toiro, que continuou desligado do cavalo. Cravou, de seguida, o segundo ferro comprido com colocação correcta. João Moura trocou de cavalo e com o toiro sem transmitir crava um ferro curto que não deixa história. No segundo ferro curto deu vantagens ao toiro mas falhou o ferro, tendo de seguida voltado a falhar no momento da sorte. De seguida, e sem lidar o toiro como nos habituou, João Moura deixou um terceiro ferro sem emoção. Deixou mais dois ferros curtos e recebeu palmas do público. Para rematar citou de largo e deixou mais um ferro, também este sem história.

Para a cara deste 4º toiro da noite saltou à praça o forcado Duarte Mira dos Amadores de Lisboa, que brindou à administração do Campo Pequeno. O forcado ao iniciar o cite o toiro arrancou pronto e com pata, tendo Duarte Mira recuado e se fechado à barbela, com o toiro a derrotar alto, tendo o forcado acabado por sair da cara do toiro junto às tábuas. Na segunda tentativa citou com calma, o toiro investiu e o forcado recuou bem e fechou-se, mas o toiro na viagem tirou a cara com um derrote lateral e o forcado não consumou esta tentativa. Com determinação e com as ajudas mais subidas Duarte Mira citou e provocou a investida do toiro, recuando e fechando-se bem e acaba por consumar a pega, com determinação, à terceira tentativa e bem ajudado pelo grupo.

O cavaleiro João Moura e o forcado Duarte Mira não deram volta.

O 5º toiro da noite da ganadaria Palha, de pelagem preta, bragado e com boa cara, com o número do costado 750, nascido em Abril de 2013, pesou 514 kg, para o cavaleiro António Ribeiro Telles.

António Ribeiro Telles inicia a lide a tentar que o toiro se interesse com a sua montada, cravando um primeiro ferro comprido, algo traseiro, recebendo palmas do público. De seguida António Ribeiro Telles deixa um segundo ferro comprido de boa nota.

Depois de trocar de montada, António Ribeiro Telles, já com o ferro curto, leva o toiro investido na garupa com sentido de lide e deixa o toiro colocado e, de frente, crava um ferro curto de elevada nota, com o público a aplaudir. A lide seguia em crescendo e cravou um extraordinário segundo ferro curto que fez entoar a música. Já ao som da música e com o público empolgado, cravou mais um bom ferro que ficou com boa colocação, com um pequeno toque na montada, com o público a aplaudir de pé.

Continuou a lide, levando o toiro investido na garupa do cavalo, para, depois de passar em falso, deixar um bom ferro de muito boa nota, que mereceu a ovação do público.

António Ribeiro Telles pediu mais um ferro, que foi concedido pelo director de corrida, e com um bom sentido de lide colocou o toiro e, de frente, cravou um ferro de nota alta, com o público de pé e entusiasmado.

Para pegar o 5º toiro saltou à praça o forcado Manuel Ramalho do Grupo de Montemor, que brindou aos bombeiros portugueses. Manuel Ramalho citou de forma correcta e de largo, dando vantagens, com o toiro metido com ele, provocou a investida do toiro, que arrancou com pata, e o forcado com quietude e conseguindo uma reunião brusca acaba por não conseguir ficar na cara do toiro. Na segunda tentativa volta a citar com calma e entra nos terrenos do toiro e, no momento da reunião, não conseguiu ficar na cara do toiro. Manuel Ramalho com determinação, apesar de diminuído fisicamente, com o grupo a ajudar bem e com o toiro a empurrar, consumou a pega à terceira tentativa.

Deram volta o cavaleiro António Ribeiro Telles e o forcado Manuel Ramalho com o público a bater palmas de pé.  António Ribeiro Telles, com um forte pedido do público, dá uma merecida segunda volta à arena com o público a ovacionar de pé o cavaleiro da Torrinha.

O 6º toiro da noite, de pelagem preta e com trapio, da ganadaria Passanha, com o número 8, nascido em Julho de 2012, pesou 552 kg, para o cavaleiro Luis Rouxinol.

Luis Rouxinol brindou a sua lide a João Moura e António Ribeiro Telles.

Luis Rouxinol inicia a lide levando o toiro investido na garupa do cavalo, deixando-o bem colocado e crava um primeiro ferro comprido. De seguida deixa um segundo ferro comprido de boa colocação, que mereceu os aplausos do público.

Já com nova montada, continua a lide levando o toiro ligado, dobrando-se na cara deste, e, de curto, deixa um primeiro ferro curto de boa nota que mereceu uma ovação do publico e fez entoar a música.

Continuando a sua lide ao som da música, deixa um segundo ferro curto. Com a entrega e mestria que o caracteriza, Luis Rouxinol crava um terceiro ferro curto e remata a sorte, apesar do ligeiro toque na montada.

Volta a trocar de cavalo e, com o público entusiasmado, continua a lide e falha o ferro de palmo, mas logo de seguida cravou o ferro de palmo com o público a aplaudir de pé o cavaleiro.

Rematou a sua actuação com o par de bandarilhas de muito boa nota, tendo recebido uma forte ovação e volta a trocar de montada para deixar um ferro de violino, com o público entusiasmado.

Para a cara do último toiro da corrida, saltou à praça o forcado João Varanda dos Amadores de Lisboa, que brindou ao Dr. João Soares e Dr. Elísio Summavielle que se encontravam nas bancadas. João Varanda cita de largo, vai entrando nos terrenos do toiro, provoca a investida e recua bem, fechando-se à barbela com prontidão, concretizando a pega à primeira tentativa.

O cavaleiro Luis Rouxinol e o forcado João Varanda deram uma volta à praça.  Foram chamados os campinos Joaquim Silva e Gabriel Silva, ambos da Casa Agrícola  Manuel José da Úrsula, que, de forma brilhante, recolheram os toiros a cavalo, tendo sido premiados também com volta à arena.

Na expectativa de que o Campo Pequeno e a tauromaquia, com a força e entrega dos aficionados e de todos os intervenientes da festa brava, festejem por muitos anos esta nobre arte tão Portuguesa.

Esta é a crónica de um aficionado.

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