Outra vez Moura Jr.

Crónica

Na época da comemoração dos 125 anos da sua inauguração, o Campo Pequeno abriu portas para mais uma corrida de toiros.

O cartel inicialmente anunciado em virtude de uma alegada lesão sofrida pelo Rejoneador Pablo Hermozo de Mendonza, teve se sofrer alterações, tendo a empresa decidido pela inclusão do matador de Toiros António Ferrera, em substituição do lesionado Rejoneador.

Assim, às 22h fizeram as cortesias na arena lisboeta os cavaleiros João Moura Júnior e Miguel Moura para lidarem 4 toiros de António Charrua, o matador de Toiros António Ferrera para lidar dois toiros de Manuel Veiga e os Forcados Amadores de Lisboa e Évora para enfrentarem os toiros lidados a cavalo.

Com três quartos de casa preenchidos, findas as cortesias, realizou-se no centro da arena uma homenagem ao Real Club Tauromáquico que assinalava 125 de existência, curiosamente os mesmos da Praça do Campo Pequeno.

Os quatro toiros de António Charrua saíram à arena bem apresentados na generalidade, com excepção do primeiro que não tinha presença digna para a primeira praça do país, foram bravos, nobres e codiciosos, mas com falta de força, o que não impediu que servissem na perfeição do triunfo dos ginetes.

Os dois toiros pertencentes à divisa de Manuel Veiga que viriam a ser lidados a pé, saíram pequenotes e com apresentação justa para o Campo Pequeno.

De comportamento foram encastados, com investidas humilhadas e repetidoras, pena não haver sorte de varas em Portugal, pois tinha melhorado as qualidades que os hastados apresentaram e consequentemente suprido alguns defeitos, tal como alguma brusquidão de certas investidas mais “rebrincadas”.

Quanto ao confronto entre os irmãos, a meu ver saiu por cima João Moura Jr., fruto do grande momento que atravessa e dos argumentos (montadas) que possui em relação ao seu irmão mais novo.

João Moura Jr. Fez o que de melhor se viu na noite Lisboeta, com duas actuações redondas, plenas de ousadia, inovação e genialidade, mas também de saber e técnica.

A sua primeira lide resultou perfeita, sem um defeito a apontar, cravou dois compridos poderosos rematando bem as sortes, para depois iniciar uma série de curtos magistral, onde os pormenores de brega foram fantásticos, levando o toiro cosido à garupa do cavalo deixando-o onde quis, para iniciar cites de praça a praça, dando primazia de investida ao toiro, para cravar com ligeira batida ao piton contrário, metendo sempre o toiro bem debaixo do braço.

João Moura Jr., encontrou toiro em todo lado e deu um recital de toureio do bom, daquele que não tem épocas nem modas, daquele que é intemporal.

Na segunda Lide houve mais do mesmo, embora não tenha sido uma lide tão redonda como a primeira, fruto de um toque pronunciado aquando da colocação do segundo ferro curto. No entanto, terminou por cima com o cavalo Xeque-Mate, rematando com um ajustadíssimo ferro de palmo.

Miguel Moura não se deixou incomodar pelo triunfo do seu irmão, aparecendo com vontade de mostrar que leva dentro de si o sangue do Maestro de Monforte, mesmo estando visivelmente lesionado num dedo da mão esquerda.

Tentou nas duas lides colocar o primeiro ferro comprido de “sorte gaiola”, porém a saída pouco ortodoxa dos dois toiros não o permitiu.

Na sua primeira lide andou algo mais nervoso e precipitado, no entanto colocou ferros bastante emotivos em sortes cambiadas, rematadas com piruetas ajustadas que foram do agrado do público.

No seu segundo baseou o seu toureio outra vez nas sortes cambiadas, tendo o valor de aguentar barbaridades em terrenos de compromisso até tirar o cavalo da sorte e deixar ferros com som, tendo sido bastante aplaudido.

Quanto aos forcados, pelos amadores de Lisboa abriu praça o seu experiente Cabo, Pedro Maria Gomes, que pegou à primeira tentativa um toiro que saiu algo solto, talvez fruto de ter sido colocado nos tércios, retirando por isso algum brilho à pega. Posteriormente viemos a saber que na sequência da pega foi-lhe diagnosticada uma fractura num pé, pelo que, lhe desejamos rápidas melhoras.

Para pegar o quarto toiro na noite pelos Amadores de Lisboa, foi eleito o forcado João Varanda, que efectuou um tipo de sorte que nos Amadores de Lisboa designam por “número”.

Este tipo de sorte consiste num tipo de pega em que o forcado da cara cita sozinho o toiro na arena, aguardando os outros elementos entre tábuas até que aconteça a reunião, para depois saltarem e ajudarem a consumar a pega.

Efectivou ao segundo intento, uma vez que na primeira tentativa reuniu mal, ficando de lado na cara do toiro. Este tipo de sorte pouco usual foi do agrado do público, que aplaudiu de pé o labor do forcado, obrigando o mesmo a dar duas voltas à arena.

Pelos Amadores de Évora pegou o Cabo António Alfacinha sem dificuldades à primeira tentativa, naquela que foi a última pega deste grande forcado na arena lisboeta.

Para fechar a noite, pegou João Pedro Oliveira, futuro cabo dos Amadores de Évora, com uma pega tecnicamente perfeita, naquela que foi para mim a melhor pega da noite. Segundo apurámos, também João Pedro Oliveira saiu lesionado desta pega, tendo ficado sem duas unhas do pé devido a uma pisadela do toiro.

António Ferrera passou por Lisboa e deixou um ar da sua graça.

Ante dois toiros com bastante mobilidade, mas que foram algo bruscos e portadores de investidas “rebrincadas” ainda que humilhadas, António Ferrera nem sempre se entendeu com eles.

Teve o mérito e o profissionalismo que querer bandarilhar os dois toiros, mas nem sempre as coisas lhe correram bem, ficou na retina um par a uma mão em sorte “violino” que alegrou as bancadas.

O público também delirou com os seus adornos e desplantes.

Deu aplaudidas voltas em ambos os toiros que lidou.

Dirigiu João Cantinho com bastante desacerto, revelando falta de sensibilidade, coerência e conhecimento, no que diz respeito aos tempos de atribuição de música a João Moura Jr. e ao não conceder uma segunda volta a este, a acompanhar o forcado João Varanda.

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