Évora mais Moura que nunca

Évora mais Moura que nunca

  • Arena d’Évora, 23 de julho 2022
  • Cavaleiros: João Moura, António Ribeiro Telles e Pablo Hermoso de Mendonza
  • Forcados: Évora e São Manços
  • Ganadaria: Passanha
  • Direção de Domingos Jeremias assessorado por Ana Giões Gomes
  • Praça Esgotada

 

Há uma expressão, utilizada no Alentejo, que define na perfeição alguns dos dias mais quentes de Verão, como o de ontem, 23 de Julho. Quando duas pessoas se cruzam e uma delas exclama “está calma!”, refere-se ao imenso calor, àquela hora, em que não se vê vivalma, como se existisse qualquer coisa que impedisse o movimento, um estado de letargia, a impressão de uma canícula que torna tudo inerte, ontem por volta das 5 da tarde assim estava Évora, só alguns, muito poucos corajosos, deambulavam pela a Cidade Museu. Mas perto da Arena já uns quantos circulavam pelos arredores da Praça de Toiros. E muitos mais foram chegando, uns já com bilhetes comprados, outros à procura das últimas entradas disponíveis, cerca de meia hora antes era posto um letreiro dizendo “lotação esgotada”. Uma victória de todos!  O cartaz era do melhor João Moura, António Ribeiro Telles e Pablo Hermoso de Mendoza. Toiros Passanha e forcados de Évora e São Manços e o público correspondeu mandando o calor às urtigas.

Quem teve o privilégio de assistir à corrida de ontem em Évora guardará na sua memória para todo sempre o ter estado presente num acontecimento histórico. Três monstros do toureio a cavalo a medir-se com se tivessem que conquistar o Mundo… Três senhores que já escreveram as páginas mais gloriosas do toureio a cavalo, inclusive nesta cidade. Foi simplesmente emocionante! Mas um deles tem uma ligação a esta praça diferente… Mas um deles é o ídolo destas gentes…

Falo de João Moura, o João sabe que Évora é a sua casa, aqui desde menino foi acarinhado de uma forma especial, aqui viveu dos momentos mais gloriosos da sua carreira, aqui é adorado e venerado como nenhum. E ontem o João, destapou o tarro das essências e escreveu mais uma página da história da sua carreira e da história desta Terra. Foi emocionante ver como o João toureava e como o público rejubilava com seu toureio. Foi bonito ver senhores de avançada idade, de lágrimas nos olhos aplaudirem de pé o Gênio de Monforte, vivendo este acontecimento e relembrando também epopeias passadas. Foi bonito ver meninos de tenra idade, atentos ao que se passava naquela arena e desfrutarem com o feito. Foi comovente ver o João de lágrimas nos olhos, satisfeito com a obra e satisfeito mais uma vez ter dado às suas gentes uma tarde de toiros como a de ontem. Foi de Figura ver o António montado no seu cavalo, no pátio de quadrilhas, aplaudir João quando este dava uma das voltas à arena.

Certamente ontem lá dos céus muitos dos que já partiram de pé rejubilaram com o feito, mas deixem-me nomear um… O Sr. Carvalho, um eborense, Mourista dos quatro costados, que acompanhou o João para todo o lado do Mundo, ele e a sua máquina de filmar, certamente que ontem lá de onde esteja personificou o contentamento de todos que tivemos o privilégio de ver o feito.

 

Moura é um dos maiores, mais importantes e decisivos toureiros dos últimos cinquenta anos tudo isso já sabemos. Ontem lidou com uma profundidade, uma cadência e um temple que parecia impossível. Duas portas gaiolas geniais, ferros ao pinton contrário, remates em que o cavalo parecia um qualquer capote ou muleta, ladeios levando o toiro embebido na montada, templando as acometidas e saindo-lhe da cara com desplantes toureiros. Ninguém foi ou é capaz de imitá-lo. Moura pensa na cara dos toiros –  tem o valor absoluto da coragem e ontem foi prova disso. O domínio da arte e a arte do domínio numa só peça. Simplesmente genial. Moura foi mais Moura que nunca! E Évora também foi mais Évora que nunca!

 

António Ribeiro Telles outro grande na arte de bem tourear a cavalo. Voltou a Évora, cidade onde renasceu o verão passado depois da sua grave colhida, cidade onde também se sente em casa, cidade que também venera o seu toureio e ontem António desfrutou e fez-nos desfrutar. Duas lides à António! Foi receber o primeiro do seu lote na porta dos curros e de lá o levou embebido na garupa do cavalo, para se recriar em curto num dos momentos da tarde, cravando depois um comprido brutal. Os curtos tiveram o duende dos artistas desta arte de tourear a cavalo em toda a regra. Citou, partiu recto e de frente, cravando ao estribo, rematando as sortes só como o Mestre sabe. O quarto da primeira lide foi de livros! No quinto a sua lide foi um gesto para com Moura e António Peças (médico que lhe salvou a vida o ano passado em Reguengos), o António é assim… Novamente bem a lidar, escolhendo bem o terrenos do toiro, cravando grandes ferros, destaque maior para o com que fechou a actuação, Évora de pé a pedir mais um ferro.

 

De Navarra veio Pablo Hermoso de Mendoza, ídolo em Portugal e idolatrado por estas paragens. Duas boas lides com pormenores também só ao alcance dos eleitos!  No seu primeiro esteve bem a lidar, levando o toiro em ladeios, rematados por dentro que fizeram surgir olés dos tendidos, cravou de frente, em curto, rematou por dentro. No seu segundo já com o que havia acontecido naquela arena Pablo tinha uma papeleta difícil, o toiro mostrou pouca força e foi “perdendo gás”. Mesmo assim houve momentos de bom toureio, bons ferros e recebeu o carinho do público que o idolatra nesta bendita terra.

 

Os dois grupos do concelho foram os convidados para pegar esta “Corrida Monstro”, Évora e São Manços e que grande tarde de pegas se viveu nesta Catedral do Forcado.

Abriu por os da casa Miguel Direito, numa grande pega à primeira tentativa com o toiro a vir decomposto, bem a citar, reunião dura, grupo a entrar a tempo para fechar a sorte.

Rui Bento, na pega da tarde à primeira tentativa , alma e raça a deste forcado, grande ajuda de João Varela. Novamente o grupo a ajudar bem.

Fechou a tarde pelos de Évora Ricardo Sousa noutra grande pega à primeira tentativa, novamente o grupo a ajudar de forma exímia.

 

Pelos de São Manços Manuel Trindade à segunda tentativa. Teve que entrar nos terrenos do toiro, recuando bem, bem na reunião com o grupo a ajudar. Na primeira tentativa, foi derrotado pelo Passanha antes do grupo entrar.

O Cabo João Fortunato, também à segunda tentativa, numa pega de belo efeito, bem fechado na cara do Passanha.

Pedro Pontes fechou a tarde, num toiro que vinha com a cabeça por cima tirando o forcado na primeira tentativa. Na segunda o Pedro resolveu com valor a papeleta que tinha por diante.

 

Para este acontecimento a empresa escolheu seis toiros da ganadaria Passanha. Corretos de apresentação, gordos e musculados. Quanto ao comportamento destaque maior paro o primeiro um bom Passanha. Os restantes tiveram matizes positivos vindo quase todos a menos com o decorrer das lides. O calor que se fez sentir pode ter influenciado de alguma maneira o comportamento dos toiros.

 

Dirigiu a corrida Domingos Jeremias, sendo a veterinária Ana Giões Gomes.

 

Nota: Foto ilustrativa de João Moura nos anos 80 da autoria do saudoso fotógrafo Emílio

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