Em Alcochete honrou-se o Toureio!

Crónica

Em Alcochete honrou-se o Toureio!

  • 4 de junho de 2022, Alcochete
  • Grandiosa Corrida Mista
  • Cavaleiros: João Ribeiro Telles e Francisco Palha
  • Matadores: Julian Lopez ‘El Juli’
  • Ganadarias: Passanha e Domingo Hernandez
  • Direção de Manuel Gama
  • Praça a metade da lotação

Nem o facto de se registar uma notória instabilidade climatérica e de haver a previsão de alguns aguaceiros e algum frio justificam que a praça de toiros de Alcochete não tivesse esgotado a sua lotação, pois o cartel estava rematadíssimo e reunia todos os condimentos para uma grande jornada taurina. Como, de resto, acabaria por ser, pois todos os que pisaram a arena nesta noite deram o melhor de si para engrandecimento do toureio.

João Ribeiro Telles encantou o conclave com a forma como assumiu este grande desafio, pondo a carne no assador, pois entre dois ginetes desta craveira não se concedem facilidades. Depois de colocar dois bons ferros compridos em sorte à tira frontal, o cavaleiro da Torrinha desenhou uma apreciada lide coroada por alguns ferros curtos em sortes de uma grande exigência técnica e de uma emoção arrepiante, atrevendo-se a pisar terrenos proibidos, onde manda o toiro. Daí ter sofrido um violentíssimo toque, por o hastado não haver cedido ao quarteio do cavalo e pela tão curta distância não permitir emendas. Como se nada fosse, cavaleiro e montada continuaram num nível altíssimo, rematando a sua primeira lide com um palmito de boa nota. O segundo toiro do seu lote caiu e demorou alguns instantes a recompor-se, porém, tendo recuperado, João Ribeiro Telles confiou e colocou dois vistosos ferros compridos. Enquanto mudava de montada, o toiro recaiu, o que levou o director da corrida a devolver o toiro aos “chiqueiros”. Após a segunda lide de Francisco Palha reentrou em praça João Ribeiro Telles para lidar o toiro sobrero, por deferência da empresa organizadora da corrida, pois, em termos regulamentares a tão não estava obrigada. E ainda bem que o fez, posto que João Ribeiro Telles realizou uma lide memorável, aproveitando as boas condições de lide do seu oponente. Iniciou a sua função colocando dois ferros compridos em sortes frontais e após mudar de montada desenvolveu uma brega extraordinária, conciliando o conhecimento técnico dos terrenos e das distâncias do toiro com uma tremenda inspiração, cravando três curtos de fazer parar os corações, tamanho foi o risco associado aos terrenos que pisou. Os dois últimos ferros foram do mais belo e emotivo que temos visto nos últimos tempos, algo do outro mundo. Citou de largo, entrou quase a galope nos terrenos do toiro e na sua cara quarteou-se numa distância impressionante, para cravar em “todo lo alto”! Foi o delírio nas bancadas e a apoteose na arena!

Francisco Palha não precisa muito que o estimulem para se empenhar sempre no triunfo, tal é a ambição que constitui o seu ADN, mas o labor de seu primo ainda mais o terá inspirado. Consentiu um toque na montada após a colocação do primeiro ferro, mas logo em seguida cravou outro muito meritório. Mudou de montada e cravou uma série de cinco ferros curtos em sortes frontais pujantes de arte e de poderio, recreando-se na acertada brega que desenvolveu, para satisfação deste respeitável público, que sabe premiar o bom labor dos toureiros com calorosas ovações, mas não deixa de ser sempre muito exigente. Francisco Palha recebeu o segundo toiro do seu lote em vistosas circulares no centro da arena, para, em seguida, colocar dois ferros compridos em sortes frontais muito poderosas, o que constituiu a sua credencial para esta lide. Mudou de montada, mas manteve o mesmo empenho e, rubricando uma lide de elevada nota artística, colocou a ferragem em sortes perfeitas, pisando a sombra ao toiro e cravando cada ferro com uma perfeição técnica assinalável e uma emoção arrepiante. De parar os corações! Foi uma actuação quase imaculada, e de uma exigência técnica e artística muito elevada.

O Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, capitaneado por Nuno Santana, rubricou também uma actuação memorável, para engrandecimento da sua prestigiada jaqueta de ramagens. Os toiros de Passanha pediram contas, como é habitual, porém o Grupo esteve coeso e eficaz nas ajudas, complementando de forma superior os forcados da cara, que estiveram muito bem. Para memória futura aqui ficam os nomes dos “solistas” desta magistral noite: João Dinis, que aguentou tormentosa viagem com o toiro a bater; João Maria Pinto, que sozinho aguentou duros derrotes até que o Grupo se fechasse; e Vítor Marques, que esteve perfeito em todos os momentos da sorte. O último toiro lidado por João Ribeiro Telles foi pegado em sorte de cernelha por Joaquim Matos e João Ferreira, que, à terceira entrada, lograram vencer o nobre toiro, que antes os desfeiteou com tremendo aparato, mas, felizmente, sem consequências para os valorosos forcados. Noite de grande sucesso, para juntar a tantas outras páginas do álbum de memórias deste excelente Grupo.

A presença de Julián López “El Juli” na praça alcochetana, sem desdouro para os dois ilustres marialvas, que ali podemos apreciar com mais frequência, deveria suscitar uma maior afluência de público, o que, contudo, não aconteceu. E foi pena, porque uma vez mais este extraordinário toureiro deu uma lição de saber, de poder e de querer. Não se me afigura necessário elencar os bastos atributos técnicos e artísticos desta grande figura mundial do toureio, valendo, talvez, a pena exaltar uma vez mais que este famoso matador alia a todos os seus notáveis predicados uma indesmentida “honradez profissional”, pois arrimou-se em Alcochete como sempre o faz em Madrid, em Sevilha ou em qualquer outra das mais prestigiadas praças do universo taurino.

“El Juli” recebeu o seu primeiro oponente com vistosos e elegantes lances de capote, por perfumadas verónicas e “salerosas” chicuelinas. Após o tércio de bandarilhas, a cargo da quadrilha, “El Juli” brindou a sua faena ao público, num assumido compromisso de honra. Alinhou-se para umas séries, por ambos os lados, aproveitando o recorrido do toiro, que investia com nobreza. A rubra flanela desmaiava em poderosos passes, templando os naturais e os derechazos numa expressão a um só tempo sublime e poderosa. Abriu o cardápio e rubricou alguns passes de belo efeito estético, com o que logrou cativar o público, inicialmente reservado, mas logo empolgado e rendido perante tão elevada técnica e tão inspirada faena. O último toiro que lidou, mais arrobado e bonito, investiu estranhamente no capote de “El Juli”, que aliviou este tércio. Depois de a quadrilha se desincumbir das bandarilhas, em sortes pouco brilhantes, mas dignas, “El Juli” deu início à faena, que não brindou, certamente por não esperar boa colaboração do seu oponente. No entanto, com muito empenho, traduzido em técnica e em ofício, e, talvez, inspirado pelo canto flamenco entoado em sua honra por um espontâneo da bancada, deu os primeiros passes, levando o toiro a passar por onde não queria. A arte do matador madrileno impôs-se à dificuldade do toiro, e a música soou. Em seguida “El Juli” desenhou uma poderosa faena, diversificando o seu requintado reportório, para gáudio de uma plateia aficionada e conhecedora, que soube valorizar a dimensão artística deste notável toureiro. Para remate de tão valiosa lide, “El Juli” inventou toiro onde parecia ser impossível, e rubricou duas tandas de um sentimento e de uma expressão inebriante. Uma vez mais “El Juli” honrou as melhores tradições taurinas, respeitando-se a si e aos aficionados portugueses. Olé Toureiro!

Manuel Gama dirigiu a corrida com o acerto e a ponderação que lhe são peculiares, e as quadrilhas estiveram em bom plano, bem assim como a campinagem. Vivemos momentos de grande sentimento aficionado, para o que tão eloquentemente contribuíram todos os que nesta noite pisaram o “albero” alcochetano. Valeu a pena!

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