Adornos, Alardes e Desplantes

Crónica

A expressão artística é uma manifestação de ordem estética e comunicativa.

No toureio a cavalo a arte é criada por um binómio homem/cavalo, dois seres, cada qual com carácter e vontade própria, constituindo por isso uma “linguagem artística” particular.

Dissecando a designação toureio a cavalo torna-se claro que resulta da combinação de um toureiro e de um cavalo. Mas essa imagem parece ser muito redutora na medida em que por um lado o toureiro, ao montar a cavalo, além de tourear realiza também arte equestre e por outro o próprio cavalo também manifesta a sua arte pelo ensino evidenciado e “alma toureira”.

Verificamos com esta interpretação que se entrelaçam varias questões: arte equestre e arte tauromáquica por parte do cavaleiro tauromáquico; arte produzida pelo cavalo de toureio na realização de exercícios de alta escola e na sua expressão a tourear. Esta perspetiva valoriza o espetáculo do toureio a cavalo ao permitir apreciar em conjunto uma ímpar combinação de exibições artísticas.

Exige-se ao toureio a cavalo que seja uma mescla de beleza artística com perigo, provocando fortes emoções a quem o aprecia, devendo obedecer a normas por forma a ser uma atividade séria e de respeito para com o público, o toiro bravo e o cavalo.

Impondo regras perfeitamente definidas e limitando a liberdade de expressão dos artistas, privamo-los da sua espontaneidade e criatividade, que são substrato da criação artística.

Na obra “Equitation Académique”, o General Decarpentry refere:

“…enquanto que o único objetivo do cavaleiro academista é a perfeição da sua arte, a preocupação constante do cavaleiro de circo, obrigado a encher a caixa do empresário, é obter, custe o que custar, os aplausos do publico, que pouco se preocupa com a arte.

Pouco importa ao cavaleiro de circo que alguns raros amadores, esclarecidos pela sua cultura equestre se aflijam com perversão dessa arte nas suas apresentações. São em numero ínfimo e não pagam mais que o seu lugar, enquanto que o profano é a legião, e faz aumentar a receita.”

Cada cavaleiro tauromáquico tem o seu “corte”, colhe influências de um estilo com o qual mais se identifica e impõe um cunho pessoal na forma como toureia.

Há cavaleiros mais clássicos e mais arrojados e, embora haja aficionados com um gosto abrangente, muitos são os que se revelam fervorosos partidários de um estilo. Este fenómeno leva a que a “competição” não se limite aos cavaleiros em praça, mas também a discussão e divisão de opiniões nas bancadas, nas tertúlias e grupos de amigos aficionados que travam longos e importantes debates que estimulam e consolidam a afición. Tive o privilégio de presenciar e até emitir as minhas modestas opiniões em muitas conversas que abordavam a eterna “contenda” entre aficionados a estilos mais clássicos ou mais modernos, tendo verificado que, uma crítica recorrente se prendia com os alardes, adornos e desplantes.

Na condição de apaixonado pelo cavalo e pela equitação, aprecio enormemente a exibição em praça de exercícios de arte equestre, que se podem considerar adornos, executados com grande sentimento e perfeição, altamente enriquecedores de uma faena. Contudo, as discretas ajudas do cavaleiro e a harmonia com o cavalo, tornam estes adornos pouco ostensivos e percetíveis para um público menos sensibilizado e familiarizado com esta arte.

Constato, no entanto, que os desplantes e alardes mais arrojados, empolgam o público, aquecendo rapidamente o ambiente da praça da galeria à barreira sendo, muitas vezes, verdadeiros catalisadores do triunfo.

A corrida de toiros, como espetáculo que é, pretende-se que seja cativante e emocionante, grandiosa e esplendorosa.

Então porque não usar, como adereços, proezas arrojadas ou acrobacias inovadoras exibidas por alguns cavaleiros com os seus cavalos de toureio?

Não sendo grande apreciador da maioria das habilidades pouco convencionais que alguns cavalos executam, creio que se podem considerar também arte, arte deles próprios e de quem os ensinou.

A corrida de toiros é um espetáculo com imprevisibilidade, que deve dar liberdade à genialidade dos artistas, nunca esquecendo que, sem o cumprimento de diretrizes instituídas, não há seriedade, risco, nem toureio com verdade.

Uma praça de toiros não é um teatro trágico-cómico nem é um circo, é um “templo” onde se celebra uma liturgia única, de arte, da vida e da morte.

Podemos exaltar os momentos de perfeição da arte equestre do cavaleiro, descrita por Decarpentry, no decurso de uma faena.

Podemos também repudiar todas as manifestações inovadoras e irreverentes, classificando-as de circenses, como muitas vezes ouvi. Podemos, mas não devemos!

A corrida de toiros é uma importantíssima herança cultural, um espetáculo com séculos de história que tem de ser sempre respeitada e com princípios a salvaguardar. Partindo desta premissa, tudo o que contribua para a engrandecer, fazer evoluir e com isso angariar mais aficionados deve ser visto como benéfico.

O espetáculo tauromáquico não carece de uma revolução, a revolução poderia constituir até uma violação das regras que são verdadeiros dogmas taurinos. Não obstante, como tudo na vida, beneficia da evolução.

Goste-se mais ou menos, adornos, alardes e desplantes, ainda que pouco ortodoxos, podem ser um contributo para a evolução do espetáculo abrilhantando-o, sem com isso se correr o risco de abastardar os cânones do toureio.

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