A omnipresença de um herói ausente

Realizou-se em Alcochete nesta tarde de 30 de março, um Festival de homenagem póstuma a Fernando Quintella, malogrado forcado dos Amadores de Alcochete falecido em virtude das graves lesões sofridas a pegar um toiro da ganadaria Prudêncio na Moita do Ribatejo, na fatídica noite de 15 de Setembro de 2017. Tratou-se de uma Corrida de toiros à Portuguesa com a presença dos cavaleiros Rui Fernandes, Diego Ventura, Filipe Gonçalves, João Telles, Francisco Palha e a praticante Mara Pimenta, pegou em solitário o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete (antigos e atuais) capitaneados por Nuno Santana, perante toiros das ganadarias Prudêncio (1º e 6º), Luis Terron (2º), Passanha (3º e 5º) e David Ribeiro Telles (4ª).

 

No mundo da tauromaquia, por vezes, a glória e a tragédia distanciam-se por via de uma linha muito ténue. A mesma linha ténue que por vezes separa um passe de culto de uma colhida, um ferro de antologia de uma entrada em falso e também uma pega histórica de uma tentativa inglória. São “momentos” destes, sustentados na inspiração, na arte e na valentia que criam todo este imaginário e mistura de sensações e que geram um misto de admiração, envolvência e também de solidariedade para com os que arriscam o que possuem de mais sagrado e valioso: a vida. Nesta tarde, todos estes sentimentos e “momentos” tiveram um nome, Fernando Quintella. Nunca me esquecerei da 2ª tentativa daquele 4º toiro da noite do “Fogareiro” que prostrou o Fernando e o 1º ajuda aos pés do resto do Grupo antes deste ter tempo de responder e o colocou do lado de lá da tal linha ténue, assim, de um modo tão implacável como cruel e brutal.

 

Numa tarde destinada a homenagear um herói, Alcochete encheu totalmente a sua praça com gente de dentro e gente de fora a prestar o seu tributo à memória de um miúdo que na força dos seus 26 anos fazia o que mais gostava, com os amigos que mais gostava, mas que quis o destino, viesse a ser a figura omnipresente de um festival onde fisicamente esteve ausente. Em praça, 77 amigos fardados com aquela mesma jaqueta que ele defendeu com a vida. Um minuto de silêncio, silenciado por um trompete, numa elegia à ausência mais notada desta tarde. No final das cortesias, 77 barretes envolvendo um nome escrito na arena a pétalas brancas brindaram aos céus.

 

Rui Fernandes abriu praça e brindou a lide ao Grupo de Alcochete, antes de receber o 1º toiro da tarde, um Passanha negro, acabanado, cómodo por via da pouca transmissão que evidenciou durante a lide embora fosse detentor de uma nobreza que o fazia arrancar franco de qualquer sítio da praça. O cavaleiro esteve excelente na brega onde controlou as distâncias com inteligência, com boas fases a ladear ou a trazer o toiro em curto na garupa do cavalo e sempre correto a cravar, desde os compridos, muito bem nos médios, até à bela série de curtos, apoiada sobretudo em quiebros bem conseguidos. Rui Fernandes teve uma lide em que conseguiu aproveitar tudo o que de bom o toiro possuía.

 

Diego Ventura, após brindar ao pai de Fernando Quintella. João Quintella, recebeu o seu toiro, um Luis Terron preto algo fechado de cara, mas que veio sempre a piorar de comportamento durante a lide em que as prometedoras investidas iniciais culminaram em curtíssimas saídas dos terrenos que adotava, numa atitude de reserva que nunca foi suficiente para permitir ao cavaleiro criar aqueles seus caraterísticos momentos de magia e genialidade. Ainda assim, conseguiu boas sequências na brega, uma ferragem correta onde ainda chegou a empolgar o numeroso público num grande 4º curto e após cravar um par de bandarilhas com a sua montada desprovida de “cabeçada”, deu por finda uma lide positiva que se pode apelidar de “lide possível”, face à fraca qualidade do oponente.

 

Filipe Gonçalves, brindou ao irmão de Fernando Quintella, Joaquim Quintella, e recebeu o 3º toiro da tarde. Tratou-se de um Romão Tenório negro bragado, alto, com boa cara e que foi o que saiu com melhor apresentação durante a 1ª parte da corrida. Ainda assim, revelou-se distraído na lide e a qualidade das investidas foi piorando. O cavaleiro algarvio veio de menos a mais, em que os momentos mais positivos foram a cravagem do 2º curto em meio palmo de terreno num quiebro bem conseguido, o 3º a cravar já em terrenos apertados após aguentar uma enormidade e um grande 4º curto, também em terrenos apertados, altura em que empolgou o público e carimbou uma tarde positiva.

 

Durante o intervalo da corrida foi efetuada uma pequena cerimónia nas arcadas da praça com a leitura de um breve discurso e o descerrar de uma lápide, alusivos ao momento.

 

João Telles lidou o 4º toiro da tarde, da ganadaria David Ribeiro Telles, um negro, bisco, com presença, algumas limitações nos quartos traseiros e que se revelou pouco colaborante durante toda a lide. Inicialmente, o cavaleiro não obteve uma linha de brega que conseguisse fazer chegar a sua lide ao público, pese a cravagem correta, mas após o 2º curto, talvez o único momento em que se sentiu haver toiro na arena, o João conseguiu encontrar os terrenos certos para colocar o toiro, na brega optou por uma maior ligação e os 3 palmitos finais fizeram com que a lide acabasse em algum crescendo pese as poucas condições de lide deste oponente.

 

Francisco Palha brindou ao céu e recebeu o 5º toiro da tarde, no que se preparava para ser uma sorte de gaiola. Não foi, o toiro escusou-se de investir ao cavalo. Este 5º exemplar era um Passanha muito acabanado, baixel, sem cara, de fraca presença e sem quaisquer qualidades de lide. O toiro queria sair da arena por qualquer buraco que incessantemente procurou em tábuas, local que adotou permanentemente, distraído das provocações e onde as únicas arrancadas que fez em toda a lide foram algumas saídas descompostas de manso. O Francisco ia, com grande profissionalismo, fazendo o pouco que conseguia perante tal matéria prima até que surgiu o momento da tarde, o 4º curto. Em frente à porta dos cavalos, numa altura em que as distâncias eram bastante curtas entre cavalo e toiro, eis que este faz surpreendentemente uma arrancada veloz e descomposta, tipicamente para lhe “dar” e o Francisco com uma classe e um sangue frio invulgares, ganha o piton ao toiro em meio palmo de terreno e crava um ferro que levantou de imediato todo o publico da praça. Fantástico! Empolgado e com o público na mão, foi para cima do toiro e cravou mais 2 bons curtos que no final lhe valeram uma saída em ambiente apoteótico da arena.

 

A praticante Mara Pimenta tinha a difícil tarefa de ombrear com este excelente naipe de cavaleiros alternantes e pode-se considerar que esteve à altura, dentro das mais que naturais limitações da sua ainda curta experiência. O toiro que lhe tocou foi um Prudêncio que transmitiu emoção, encastado e a pedir contas a qualquer cavaleiro. Nos momentos iniciais da lide foi cautelosamente mantendo as distâncias que lhe permitiam fazer uma lide correta, sem arriscar demasiado e a aguentar bem as fortes acometidas com que o toiro respondia ao castigo. Após um bom 4º curto nos médios e com viagem pelo piton contrário, ganhou alguma confiança e acabou a lide com 2 palmitos e o público em sintonia com a vontade e o labor da jovem praticante.

 

Esta tarde era sobretudo dos Forcados do Grupo de Alcochete que esteve digno e colocou em praça todo o querer que era exigido numa corrida com este “peso” sentimental. Não foi uma tarde de triunfo nem de genialidade, foi uma tarde passada no intimismo do que é pertencer à “família” de um Grupo de Forcados a sério.

 

Vasco Pinto foi o forcado da cara que se fez ao Prudêncio que abriu praça. O seu cite, carregar, aguentar, recuar e receber caraterísticos, de experiência e classe feitos, não foram suficientes para evitar ser despejado após o toiro baixar a cara e lhe dar um pisão antes da chegada do 1º ajuda. Na 2ª tentativa, a mesma receita do forcado, mas desta vez o toiro não lhe deu hipótese de receber visto que lhe tirou a cara no momento da reunião. Mudou o sitio ao oponente, encurtou terrenos e ao carregar, o toiro investiu descompondo um pouco o Vasco, mas a experiência do forcado permitiu-lhe compor-se no ultimo momento e fechar-se numa reunião que saiu perfeita e lhe permitiu fechar-se bem na córnea. Apesar do toiro fugir para a direita do Grupo que foi eficaz a recuperar e a fechar uma pega algo laboriosa.

 

Para a pega do 2º toiro da tarde, o forcado da cara foi Ruben Barroca. Teve de subir um pouco para obrigar o toiro a sair de tábuas, mas não esteve eficaz a fechar-se, sendo despejado antes de chegar à zona do 1º ajuda. Na 2ª tentativa, o toiro ficou ainda mais complicado para investir e o Ruben esteve quase a desfazer a pega, mas insistiu a ponto de entrar em terrenos de compromisso. A investida do toiro foi novamente algo descomposta, o forcado da cara não se fechou completamente, ainda foi tentando compor-se na cara do oponente durante a viagem, mas acabou por sair já na zona das 2ªs ajudas. Na 3ª tentativa o toiro foi colocado em terrenos mais interiores, mas a dificuldade em investir não se alterou. O Ruben já em terrenos impossíveis esteve correto e concentrado e acabou por reunir bem e com a preciosa ajuda carregada do Diogo Toorn, e posteriormente do restante Grupo que fechou eficazmente uma boa pega a um toiro complicado.

 

O terceiro toiro da tarde teve como forcado da cara o cabo Nuno Santana. Esteve sereno na cara do toiro e apesar deste ter saído ainda sem o mando do forcado, o Nuno foi competente a fixar-lhe a investida e fechar-se, mas o toiro, na zona do 1º ajuda baixou a cara e com a ajuda de um pisão no forcado, acabou por o despejar. Na 2ª tentativa o Nuno já mandou no toiro, recebeu e fechou-se com eficácia viajando Grupo dentro que foi bastante coeso a fechar esta boa pega já na zona das tábuas. Foi bom voltar a ver o João Pedro Bolota sempre oportuno a entrar com aqueles modos e eficácia que o caraterizaram como um dos grandes 1ºs ajudas deste país.

 

A 2ª parte da atuação do Grupo de Alcochete, teve como forcado da cara o jovem João Belmonte. Não esteve feliz nesta tarde. O toiro veio ao mando do forcado, mas este praticamente não se sacou à investida, acabou por receber uma entrada dura do toiro na cara, ficando algo maltratado e recolheu à enfermaria. Para a dobra, saltou o forcado Vítor Marques. Na sua 1ª tentativa, não esteve feliz a receber, descomposto e a adiantar um joelho, acabou por ser vencido de imediato. Para a 3ª tentativa de pega, o toiro foi mudado de sítio, acabou por sair mais franco destes terrenos, mas o forcado da cara não veio composto, nunca se conseguiu fechar completamente e acabou por ser despejado pelo toiro dentro do Grupo, na altura da chegada das 3ªs ajudas. A 4ª tentativa teve pouca história, o forcado da cara recebeu totalmente descomposto e nunca esteve na cara do toiro, abortando-se esta tentativa quase de imediato. Na tentativa seguinte, o toiro também não foi bem recebido, com o forcado da cara fora da córnea do toiro apesar do Grupo o ter parado e houve necessidade de mais uma tentativa para se resolver a situação, desprovida de brilho mas eficaz e com grande esforço e dignidade de todo o Grupo.

 

O 5º toiro da tarde, o tal “mansarrão” de Passanha foi para a cernelha que teve como protagonistas o cernelheiro Diogo Vivo e o rabejador João Ferreira. Após 2 tentativas de entrada sem sucesso, na 1ª com o toiro a “sentir” antecipadamente a entrada do cernelheiro e a 2ª dificultada pelo facto do toiro estar completamente fora do jogo de cabrestos, o Diogo e o João tiveram uma excelente e decidida entrada no momento certo, o que acabou por ser “meia” pega. Após “guerrear” algum tempo com os forcados, o toiro foi parado e a cernelha considerou-se consumada com sucesso. Nesta cernelha, realço o facto do cernelheiro ter entrado à direita do toiro visto que toiro e cabrestos circulavam pela praça no sentido inverso do habitual. É perfeitamente legítimo, sendo que na gíria se apelida de “cernelha à profissional”, aparentemente por esta sorte ter sido habitualmente efetuada nestes termos, na altura em que existiam grupos de forcados profissionais.

 

O ultimo toiro da tarde, já anoitecia, foi tentado pegar pelo forcado da cara João Machacaz. O forcado da cara esteve bem com o toiro, acabou por não mandar na investida, mas esteve exímio a carregar e a fixar o oponente para uma reunião quase perfeita onde apenas houve o detalhe do toiro ter entrado com um piton entre as suas pernas. O João fechou-se com o “poder” que lhe é reconhecido e aguentou estoicamente um forte derrote até à entrada coesa e eficaz do resto do Grupo que esteve preponderante a consumar mais numa boa pega a encerrar esta tarde de toiros e sentimento.

 

A direção de corrida esteve a cargo de Fábio Costa que não esteve totalmente isento de algumas incoerências. Tratando-se de um Festival, sabe-se que há sempre alguma condescendência em certos detalhes, o que nalguns casos até ocorreu. Mas não posso deixar de realçar a não atribuição de musica ao Francisco Palha. Depois daquele 4º curto? Apesar de tudo autorizou-lhe a volta, o que é correto. Em contrapartida, deu musica ao João Telles mas não apresentou o respetivo lenço para a volta. Não sei de onde veio a distração, se da parte do Diretor ou se da parte do João, já que este deu volta.

O resultado em “troféus” das atuações desta tarde:

1ª Toiro – Volta para o cavaleiro Rui Fernandes e para o forcado Vasco Pinto.

2º Toiro – Volta para o cavaleiro Diego Ventura e para o forcado Ruben Barroca.

3º Toiro – Volta para o cavaleiro Filipe Gonçalves e para o forcado Nuno Santana. Chamado também a dar volta o forcado João Pedro Bolota.

4º Toiro – Volta para o cavaleiro João Telles (aparentemente não autorizada).

5º Toiro – Volta para o cavaleiro Francisco Palha e para os forcados Diogo Vivo e João Ferreira. Chamados a dar volta os campinos que colaboraram na cernelha.

6º Toiro – Volta para a cavaleira Mara Pimenta e para o forcado João Machacaz.

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