Durante este fim-de-semana de 5 e 6 de Maio, a zona envolvente à magnifica “Palha Blanco” foi palco da I Feira das Tertúlias, uma feliz iniciativa da “Associação de Tertúlias Tauromáquicas do Concelho de Vila Franca de Xira”, que teve a inestimável colaboração da empresa “Tauroleve” e da Câmara Municipal e Junta de Freguesia locais e que resultou num enorme sucesso, gerando uma participação massiva nas diversas actividades organizadas, demonstrando mais uma vez o apego que as gentes da terra têm à Tauromaquia em todas as suas vertentes, com as Tertúlias Vilafranqueneses a assumirem um papel preponderante na sua dinamização, promoção e defesa.
De entre os vários eventos programados, a tradicional Corrida de Maio era, sem dúvida, um dos pontos altos, apresentando um cartel bastante apelativo, onde pontificavam a comemoração do 70º Aniversário da ganaderia de “Vale do Sorraia”, cujos pupilos são sempre aguardados com muito interesse, bem como a alternativa do cavaleiro David Gomes, acompanhado de António Ribeiro Telles e Luís Rouxinol, dois indiscutíveis Mestres e “consentidos” da afición ribeirinha, que nutre um carinho muito especial pelo primeiro.
Foi assim que, no Domingo, num contexto de bastante expectativa, muito ajudado pelo sucesso das iniciativas e dos maravilhosos momentos de convívio do dia anterior, conheci a Alexandra que vinha a Vila Franca (onde mais?!?) realizar o seu “baptismo” taurino, pela mão do Jorge, um grande amigo em comum. O rito cumpriu-se com a pompa e circunstância exigidas pelo momento, tendo o almoço decorrido numa Tertúlia a preceito e a ida para a Praça sido realizada com a devida antecedência, a fim de a imbuirmos ao máximo desse ambiente tão próprio e distinto de que se reveste a romagem de Vilafranquenses e forasteiros à inigualável “Palha Blanco”.
Chegados ao castiço redondel, a primeira boa noticia da tarde foi a excelente moldura humana que preencheu uns muito fortes ¾ de casa e que, no geral (com alguns excessos de entusiasmo pelo meio), soube calibrar o que de bom e menos bom se foi passando na arena, fazendo uso da habitual justiça, exigência e seriedade que são apanágio desta Praça. Em termos de apresentação dos “Sorraias”, estiveram acordes com essa exigência o primeiro, quarto e sexto exemplares da ordem, sendo pobre de cara o segundo e bonito, mas sem deslumbrar, o quinto. No que diz respeito ao comportamento geral do curro podemos afirmar, curiosamente, que foi responsável, quer pelos momentos de maior emoção, na forma como, tanto frente a cavaleiros como a forcados, os toiros foram difíceis e brutos nos momentos das reuniões, quer pelos de maior “modorra”, devido à pouca transmissão dos galopes “pastueños” atrás dos cavalos, com alguns a acusarem crenças fortes em tábuas e a revelarem muitas dificuldades em de lá sairem.
Considerando os comportamentos gerais acima indicados, tiveram díspares actuações e sortes os representantes da “Arte de Marialva”. David Gomes que, como é de tradição, abriu e fechou Praça no dia da sua Alternativa, andou algo aliviado, em sortes cambiadas e de pouco ajuste frente a um primeiro oponente que, apesar de reservado, arrancava com alguma emoção, logrando os melhores momentos desta estreia em duas sortes de violino, realizadas em terrenos de algum compromisso. Subiu de tom no último da função, em especial pela lide vistosa e com sentido, destacando-se um bom 3º curto e o ferro de palmo a rematar. Não tendo logrado o triunfo que certamente sonharia, tão pouco defraudou, apresentando as lógicas carências de quem apenas iniciou o caminho, esperando-se que se incline mais pelo conceito demonstrado na sua segunda actuação do que na primeira.
Da prestação de António Telles confesso ter-me ficado a sensação de um “algo” em falta, especialmente na lide do seu segundo exemplar. Este foi, provavelmente, o mais difícil toiro da corrida, por mansidão e pela forma descarada como se adiantava aos cavalos no momento de reunir. O que me desconcertou é que, com semelhante material, o Maestro da Torrinha conseguiu, simultaneamente, raiar ao seu mais alto nível, num espectacular e emocionante terceiro curto (o ferro da corrida!), mas, por outro lado, parece-me que se empenhou demasiado em lidar e obrigar o toiro a sair da sua crença em tábuas, quando a podia ter aproveitado para cravar a sesgo ferros de igual risco e emoção e até, quiçá, logrando a pouco e pouco corrigir essa tendência, ao castigar o oponente nos terrenos que elegeu para se defender. No seu primeiro, segundo da função, o tal pobre de cara e que se limitou a “colaborar”, em tom insonso e carente de transmissão, manifestou a constância já por demais reconhecida, da sua “solera” lidadora, cravando igualmente um bom terceiro curto, mas pouco mais podendo deixar na retina. Pormenor sempre de ressaltar, de quem jamais procura o triunfo fácil, recusou e muito bem a cravagem de um ferro adicional, pedido pelo habitual público mais entusiasta, que se costuma situar por cima da porta de cavalos.
No terceiro da função Luís Rouxinol teve, quanto a mim, a melhor lide da tarde, sobrepondo-se magnificamente a um “Sorraia” que, mais uma vez, pouco teve a “dizer” quando perseguia a garupa dos cavalos, mas foi de um imenso perigo pela forma como se atravessava e derrotava nas reuniões. Após um magnifico e intencional ladeio de brega, ajustadíssimo e “enchendo a cara” do adversário, partiu para um primeiro curto de excelente cravagem, crescendo ainda mais no segundo, ao dar primazia à investida do toiro e conseguindo sair do encontro de forma incrivelmente limpa, postura que repetiu num último ferro de palmo, como se cravar curtos da forma pura e verdadeira como o fez não fosse mostra suficiente e repetida de que há muitos anos alcançou e se mantém por méritos próprios em plano de verdadeiro Maestro. À semelhança de António Telles recusou com bom critério o pedido de estender a actuação. No seu segundo, quinto da ordem, voltou a andar muito bem na brega, mas o acople com as investidas resultou pior, em reuniões bastante atravessadas, tendo-se empenhado na cravagem de dois palmos finais, que em nada vieram acrescentar. Pormenor de destaque, o brinde desta segunda intervenção a esse enorme Toureiro de Prata que foi David Antunes, o qual recebeu uma enorme, merecida e sentida ovação do “seu” público de Vila Franca.
Capítulo à parte merecem os dois Grupos de Forcados intervenientes desta tarde, com duas exibições de encher o olho, demonstrando a sua grande qualidade e coesão, frente a toiros que exigiram pergaminhos, quer ao nível da técnica e do conhecimento, quer ao nível da garra e do querer puros!
Abriu Praça, pelo Grupo da casa, o jovem Vasco Pereira, que não pára de nos assombrar pela enorme maturidade e tranquilidade demonstrada frente a adversários das mais diferentes condições. Frente aos Forcados quase todos os “Sorraias” pediram mando e que lhes “enchessem” a cara o máximo possível, de forma a evitar as tarrascadas e deficientes reuniões que sempre deixaram adivinhar frente aos cavalos e nos capotes de brega e, nesse sentido, esteve perfeito o futuro Cabo do Grupo de Vila Franca, não consentido veleidades no momento de receber e proporcionando uma viagem sem demasiadas complicações, até ao tradicional fecho em bloco dos ajudas Vilafranquenses. O brinde, dirigido ao céu, deve ter sido recebido com o máximo orgulho pelo seu Pai, com a felicidade acrescida de ver o Zé Francisco a dar mais uma oportuna primeira ajuda ao irmão.
Seguiu-se, pelo Grupo de Coruche, o forcado Miguel Raposo, que aguentou bem a arrancada solta e a entrada forte do toiro, numa viagem muito bem fechada pelos restantes companheiros. Nota algo negativa aqui para o primeiro ajuda que, iniciando o cite do companheiro dando as devidas distâncias, optou por, ainda mal consumada a reunião, efectuar um “sprint” para a frente, que retirou algum brilho à pega.
Para o terceiro “Vale do Sorraia” saltou à Praça Francisco Faria, outro jovem Forcado dos Amadores de Vila Franca, que surpreende igualmente desde os seus inícios pela experiência que já detém, face à idade e aos anos de Forcado. À primeira tentativa o toiro arrancou pronto e com pata, mal viu a figura, o que aliado ao facto de ter tirado a cara no momento da reunião, impossibilitou que a pega fosse consumada. No segundo intento, manda muito bem e com convicção na investida, aguenta a reunião violenta e conta, em especial, com os colegas das terceiras ajudas, que fecham com garra e decisão.
A quarta pega, por intermédio de João Prates, envergando a jaqueta Coruchense, viria a ganhar o troféu em disputa, após uma primeira tentativa absolutamente estóica por parte do Forcado da cara que aguentou até ao impossível os violentos derrotes do toiro, quase durante meia Praça, após este fugir ao restante Grupo, com toda a assistência de pé, vibrando com a sua demonstração de força e raça. Voltou-se aqui a verificar uma intervenção do primeiro ajuda nos mesmos moldes do toiro anterior, correndo em direcção ao impacto, na ânsia de encurtar terrenos, o que o fez receber o embate completamente de sopetão, sem conseguir ajudar com eficácia. Ao segundo intento o “Sorraia” voltou a entrar com tudo, mas desta vez não alterando a trajectória, o que permitiu que brilhassem também a grande altura os ajudas, que deram tudo de si para aguentar os violentos derrotes e assim manter o companheiro na cara.
Uma grande pega, antecedida de uma espectactular tentativa! Mas se de vontade, raça e pundonor falamos, saltou de seguida à arena Márcio Francisco, nome incontornável da forcadagem nacional, que viu como o oponente, pura e simplesmente não lhe colocou a cara na tentativa inicial para, à segunda, aguentar o indizível tal como o companheiro anterior, vendo-se os restantes elementos incapazes de ajudar face à violência e velocidade do toiro, para finalmente conseguir consumar à terceira, suportando um derrote que o dobrou literalmente ao meio, contando com uma ajuda de indescrítivel coragem e generosidade do “primeiras”, Diogo Duarte o qual, vendo o amigo quase completamente fora da cara, ainda assim acreditou e entregou completamente “o corpo ao manifesto”, permitindo assim a concretização de outra extraordinária pega que igualmente teria sido merecedora de ganhar o troféu.
Fechou a tarde em beleza, pelo Grupo de Coruche, o forcado António Tomás, que foi capaz de ir buscar o adversário a terrenos de compromisso aguentando os fortes derrotes da viagem, que terminou muito bem tapada pelo conjunto dos terceiros ajudas, que novamente demonstraram grande eficácia e coesão.
Terminada a Corrida, a qual, como em tantas outras vezes, teve os seus apontamentos máximos de emoção nas actuações dos dois Grupos em contenda, vinham-me à memória as palavras lidas na Revista “Novo Burladero” no dia anterior, onde o cronista David Leandro se lamentava pelo protagonismo crescente adquirido pelos homens da Jaqueta às Ramagens, temendo que a “Tauromaquia está a «evoluir» para se fundamentar na actuação de forcados e onde os cavaleiros actuarão como trâmite, imprescindível, para se deixar o touro em boas condições para ser pegado.” E, não só não partilhando desse “temor”, como jamais me ocorrendo lamentar o protagonismo e importância do Forcado Amador, até como Figura verdadeiramente única e distintiva da Tauromaquia à Portuguesa (embora já com algumas “exportações”), ocorre-me, isso sim agradecer, os momentos de arrepiar, de pura emoção, humanidade e verdade toureiras que tantas vezes me têm sido oferecidos por esses verdadeiros heróis da Arte de Tourear. Sim, porque, indubitavelmente, Pegar também é Tourear! Outra coisa distinta é que a exaltação ao Forcado tenha de significar a diminuição de todos os restantes intervenientes da Festa, atitude na qual também não me reconheço…
Já de volta à “Vila”, após alguns sobressaltos e instantes de aflição (lá está, na maior das vezes dados pela actuação dos Forcados), ainda com os acordes da banda a soar-lhe nos ouvidos, nos quais encontrou uma imensa vontade de dançar e com as cores e brilho do espectáculo a desvanecerem-se na retina, perguntámos à Alexandra o que tinha achado e se seria experiência para repetir. E, enquanto a ambas as perguntas ia respondendo afirmativamente, eu, a quem a Corrida no geral, apesar de “agradável”, não me encheu as medidas (as expectativas, confesso, eram talvez demasiado altas e injustas, sobretudo no que dizia respeito ao jogo dos Vale do Sorraia) dei por mim a pensar que, feitas as contas, tinha sido um sucesso, ainda mais ampliado por todo o ambiente vivido durante o fim-de-semana tertuliano… Assim mais hajam, onde cada interveniente transmita, pelo menos, a entrega e vontade de bem fazer, com dois ou três verdadeiros momentos de emoção, sejam eles dados por Forcados ou Cavaleiros e continuaremos sempre a manter a ilusão de mostrar este mundo que tanto nos apaixona, aos olhares desconhecedores e sem preconceito, que, por vezes, são atraídos por essa nossa paixão e sobre ela querem indagar. Por isso, obrigado Alexandra, obrigado Vila Franca, ainda e sempre o “meu” palco de todos os sonhos…










