A crónica da Corrida de Toiros do Emigrante de ontem no Campo Pequeno, por Tiago Caldeira Fernandes.
Corrida do Emigrante – Campo Pequeno, 9 de Agosto de 2018
Cavaleiros: Rui Salvador, António Brito Paes, Manuel Telles Bastos, Duarte Pinto, Andrés Romero (confirma alternativa) e David Gomes (confirma alternativa)
Grupos de Forcados: G.F.A. Montijo, R.G.F.A. Moura e G.F.A. Turlock
Ganadaria: Vale Sorraia
A corrida de homenagem aos Emigrantes que regressam para disfrutar de Portugal no mês de Agosto é já uma data com tradição. Este ano teve como atrativo maior a estreia de um curro da ganadaria Vale do Sorraia nesta praça, que até hoje nunca se tinha apresentado em Lisboa com um curro completo.
Abriu praça o rejoneador Andrés Romero, para confirmação da alternativa tirada em 2014 na Real Maestranza de Caballería, Sevilha. Veio com vontade de triunfar, recebendo à porta dos curros de jaqueta na mão o primeiro Vale Sorraia, de 526kg, que saiu à praça com alegria e resultou num bonito início de faena. Colocou os compridos da ordem e teve nos curtos altos e baixos com alguns momentos menos bons e outros de toureio mais alegre e vibrante, tendo direito a muitos aplausos por parte do público.
Abriu praça João Paulo Damásio dos Amadores do Montijo. Na 1ª tentativa teve um cite apressado e reuniu mal, saindo da cara do toiro. Na 2ª tentativa esteve bem melhor à frente do toiro e fechou-se com garra, sendo bem ajudado pelo grupo.
O segundo cavaleiro da noite foi David Gomes, que após enfrentar os Vale Sorraia em Vila Franca de Xira para a alternativa, voltou na confirmação a ter esta ganadaria por diante. Iniciou faena com uma porta gaiola vibrante, com o toiro a sair com pata para o cavaleiro, mas a ferragem saiu desastrosa com o ferro a sair demasiado traseiro. Momento muito feio, que foi sendo esquecido ao longo de uma lide que cresceu, com bons ferros, rematados com ladeios justos muito aplaudidos, frente ao toiro mais nobre da noite.
Pelo Grupo de Moura foi para a cara do segundo toiro o forcado Gonçalo Borges que se fechou bem e foi bem ajudado, frente ao toiro que menos dificuldades aparentava.
Rui Salvador saiu para lidar o terceiro da noite, após apadrinhar as duas confirmações da noite. Teve uma lide muito ao seu estilo. Primeiro sofreu algumas dificuldades nos compridos, num toiro que não deu facilidade, mas conseguiu depois ferros curtos com muita classe frente a um toiro que se empregava muito nas reuniões, aportando maior dificuldade ao momento da ferragem e transmitindo também maior emoção.
Toiro sério para o cabo de Turlock, George Martins Jr., que deu vantagens, citando de largo. O toiro arrancou pronto, o forcado fixou bem a investida e encheu a cara ao toiro com o grupo a ajudar de forma coesa.
Para o início da segunda parte saiu António Brito Paes, que teve pela frente o toiro em que o ganadeiro mais apostava para esta noite, mas o cavaleiro não teve uma noite inspirada e acabou por ser a lide menos emotiva. O cavaleiro nunca se entendeu com o toiro, acabou por abrir muito as sortes na cravagem, não tendo a lide conseguido atingir o patamar desejado.
José Pedro Suissas dos amadores do Montijo fechou-se bem à 1ª tentativa, depois de o toiro tardar a arrancar para o forcado.
Esta noite a fava ficou guardada para a 5ª lide. O segundo maior toiro da noite, com 550kg, foi o que mais sentido apresentou e penso que foi o que mais dificuldades tinha para a lide. Mas Manuel Telles Bastos teve uma noite muito meritória, vencendo as dificuldades criadas pelo Vale Sorraia. Iniciou a lide com mérito, mandando retirar os bandarilheiros da arena e preparando uma sorte gaiola para iniciar a função, que não foi possível pois o toiro mostrou-se complicado deste início, fazendo um estranho na saída à arena, que impossibilitou a ferragem da sorte gaiola. Apesar dessas dificuldades conseguiu uma boa lide com ferros à tira cheios de valor.
Este toiro impunha respeito para a pega, sendo escolhido pelo cabo de Moura o forcado Rui Branquinho, que já este ano fez uma enorme tentativa em Moura. O toiro derrotava mais que os irmãos de camada e nas 2 primeiras tentativas notou-se alguma falta de ajuda para aguentar os derrotes e fechar a pega. Na 3ª tentativa, já com outro forcado a dar a 1ª ajuda a Rui Branquinho fecharam com valor, notando-se a experiência do ajuda que subiu nesta tentativa.
Frente ao último toiro, um poderoso Vale de Sorraia, com 580kg, Duarte Pinto teve uma grande noite. Teve um toiro à medida, com fijeza, que esperava pelo sinal do cavaleiro para arrancar de praça a praça, arrancava com poder e empregava-se na reunião, estando o cavaleiro em grande nível desde o primeiro comprido ao último curto, com sortes bem desenhadas e a cravar o ferro sempre na perfeição. Por vezes rematou pouco as sortes, mas também porque entendeu que era no desenho da sorte e na reunião que o toiro mais transmitia, vendo-se que desfrutou e muito com a matéria prima que lhe apareceu por diante.
Tal como o toiro anterior, este também impunha respeito para os forcados. Pelos amadores de Turlock foi à cara o forcado Steve Camboia. O toiro arrancou com muita pata e o forcado aguentou a viagem, com muito mérito para os derrotes que aguentou junto às tábuas com o grupo demonstrar mais dificuldade em fechar a pega a este toiro.
No final volta dada justamente ao ganadeiro pelo comportamento do curro no geral, mas principalmente pelo comportamento deste último toiro. Deram ainda 2ª volta o cavaleiro e forcado.
Nas bancadas, ½ casa, que desfrutou de uma agradável corrida, que terminou da melhor forma, com o Xícaro, um toiro de bandeira e Duarte Pinto, um cavaleiro que mostrou que o toureio clássico e as sortes de poder a poder, com reuniões vibrantes, continuam a proporcionar os melhores momentos de toureio que podem ser vividos numa praça de toiros. Mais uma corrida onde o prato forte foi a aposta “torista”, que começa a dar frutos na qualidade dos espetáculos do Campo Pequeno e que certamente poderá trazer mais público às noites lisboetas.
Tiago Caldeira Fernandes
Foto Maria João Mil-Homens










