Qual Agosto, quais férias, qual data complicada, qual calor… Abiul é diferente e vai aos toiros!
Cumpriu-se a tradição, mesmo sem encher, Abiul foi ontem “praça cheia” de toiros sérios e de grande transmissão da ganadaria Murteira Grave que contribuiram para a emotiva tarde de que foram protagonistas os cavaleiros Filipe Gonçalves, Marcos Bastinhas e o matador Octávio Chacon, bem como os Forcados Amadores de Évora. Houve arte, suspiros e corações apertados nas bancadas e muita emoção na arena e os grandes causadores disso foram os toiros de Galeana!
Os seis belíssimos toiros da prestigiada ganadaria Murteira Grave deram ontem um autêntico festival de bravura, de codícia e de casta. Foram toiros que impuseram emoção, foi uma verdadeira e emotiva corrida de toiros. Um curro díspar de apresentação mas com mobilidade, com entrega, sempre a pedirem e a darem mais e mais, sempre e virem acima, a mostrar que isto, afinal, é uma arte séria, de risco e de rasgada emoção – e que não é coisa “para meninos”, é coisa para quem sabe…
Joaquim Grave no quarto e sexto toiros – foi justamente premiado com voltas à arena. O quarto “Alamar” foi um toiro de bandeira, do melhor que este ano se viu nas arenas para a lide a cavalo e o sexto para a lide a pé foi de “lio gordo”, Octávio Chacon apanhou uma “bebedeira de toureio” e se o regulamento não o impusesse ainda andava pela arena de de Abiul a bordar o toureio e o “Alabardero” a investir! A destacar também a qualidade do primeiro, a nobreza do terceiro e a bravura e casta do quinto, somente o segundo foi mais complicado pela falta de classe que evidenciou durante a lide.
Filipe Gonçalves é um profissionalão, um toureiro que se inspira, esta bem montado e super motivado para triunfar sempre e nunca desiludir. Ontem foi autor de duas lides enormes, em crescendo, a galvanizar o público de ferro em ferro, de pormenor em pormenor, de momento em momento. Filipe, ontem voltou a reafirmar as ganas, a inquietude, a irreverência com que continua a lutar pelo pelo triunfo. Iniciou a sua segunda actuação evidenciando atitude e decisão, mandando os bandarilheiros para dentro esperado o toiro com valentia à porta gaiola. Teve inícios empolgantes, bregando e lidando com emoção. Marcou a diferença, sobretudo no último toiro, com ferros de parar corações, ferros daqueles que “dão dinheiro” e colocam um toureiro no mais alto dos patamares de qualquer escalafón, abriu o compêndio e Abiul explodiu. Todos os pormenores de brega, a forma como lidou os toiros e a emoção que colocou em todos os ferros, em terrenos de alto compromisso, a entrar verdadeiramente pelo toiro dentro e a sair como se nada de arriscado tivesse feito, foram apenas pormenores de uma lide que marcou a grandeza do toureio do Algarve.
Marcos Bastinhas, no seu primeiro toiro cravou os compridos e um curto de frente, os restantes em sorte de violino, dando assim uma lide pouco ortodoxa quanto a mim ao oponente. O quinto toiro era bravo e Marcos pôs a carne toda no assador. Brilhou, sobretudo, a lidar e a bregar, não deixou os seus créditos por mãos alheias e saíu também de Abiul em plano de triunfo, desenvolveu uma lide em crescendo, em constante “contágio” com o público, rematada com pares de bandarilhas que fizeram “explodir” o respeitável.
Octávio Chacon andava há um par de anos a bater à porta, até que esta se abriu e é uma das grandes surpresas da temporada europeia 2018. Ontem Chacon reafirmou que vive indiscutivelmente o seu momento de ouro. Está um toureiro com convicção, com confiança em si próprio e com atitude, senhor das situações, ciente de que pode com todos os toiros e que nenhum o vai travar. Tem classe. E muita arte. Está num momento importante, depois de uma triunfal campanha em Espanha e França.
No seu primeiro esteve elegante, com “pinta” de toureiro e uma “muñeca” incrível, desenhou uma bonita faena templada, bem demonstrativa do toureio que lhe vai dentro. E, sobretudo, do momento de serenidade e de grandeza que vive.
Com o sexto desenhou bonitas verónicas de mãos baixas e inspiradas e ai descobriu que que lhe tinha tocado um toiro de “cortijo”. Criou alvoroço na praça com as bandarilhas, vistoso tércio tão do agrado da aficion portuguesa. Como tinha ali matéria para triunfar então a magia veio acima. A primeira série de “redondos” foi de joelhos em terra, com um sabor e uma profundidade que é só apanágio dos eleitos, foi o mote para uma faena de sonho, em que esteve o toureiro centrado, confiante nas suas potencialidades, revelador do que lhe vai na alma. Fechou-se em si mesmo e esqueceu tudo.Foi um bonito recital de arte com a muleta, destacando-se em “derechazos”, “naturais” e profundos pases de peito de “piton a rabo” desenhados com arrepiante lentidão, a muleta “desmaiada” e baixa embarcando as investidas do Murteira na mão mandona do artista, o público em delírio e de pé! Bonito foi o gesto do matador aplaudir a bravura do toiro terminada a faena, emocionante!
Os valorosos Forcados Amadores de Évora ontem não tiveram tarde fácil frente a toiros que exigiram e não perdoaram deslizes.
António Torres Alves ao primeiro intento com as ajudas a entrar em pleno e com coesão. Miguel Direito, à terceira tentativa num toiro que derrotava alto. Ricardo Sousa à quarta tentativa com um toiro bruto e bravo a entrar pelo grupo dento. Fechou a tarde Miguel Passanha bem à primeira tentativa.
Dirigiu a corrida Lourenço Luzio, assessorado o médico veterinário José Luís Cruz.










