Uma imensidão de valores numa tarde só

A tarde vivida hoje na Arena D’ Évora ficará na memória de todos aqueles que preenchiam cerca de três quartos da lotação total. Tarde importantíssima numa época em que a tauromaquia tem sido tão atacada.

 

Desde sempre os jovens e a tauromaquia andaram de mãos dadas, isto porque o futuro da tauromaquia pertence aos jovens, e os ditos senhores que “mandam” perceberam que a maneira de atacar a tauromaquia é pela sua continuidade. Mas a afluência de gente jovem à corrida de Évora responde a quaisquer atos de tentativa de proibição dos menores de 16 anos nos toiros. Foi bonito ver uma praça repleta de juventude animada, divertida, em suma, jovens felizes!

 

E para isso muito contribuiu a louvável atitude da empresa gestora da Arena D’ Évora, ao disponibilizar 200 convites para menores de 16 anos de Escolas Secundárias da cidade museu. Facto que aplaudo de pé!

 

Sentimentos à flor da pele durante toda a corrida devido, também, à bonita homenagem que foi todo este espetáculo à memória de um grande forcado e um grande líder de homens: João Pedro Oliveira. Nome maior dos Amadores de Évora que recentemente nos deixou e que esteve, sem sombra de dúvida, presente na mente de todos os que se reuniram na Arena D’ Évora.

 

Passando agora ao espetáculo em si, o mesmo teve início com um minuto de silêncio em homenagem a Carlos Empis, antigo cabo dos Forcados Amadores de Santarém, do ganadero José Infante da Câmara e de João Pedro Oliveira.

 

À Ganadaria Couto de Fornilhos pertenceram as seis estampas saídas esta tarde ao ruedo. Irrepreensível foi a apresentação, dignos de pisarem qualquer praça. Quanto ao comportamento, cumpriram na generalidade. O primeiro teve mobilidade e permitiu lide, embora tendesse para tábuas. Ao segundo faltou fixar-se mais. Ainda assim, teve mobilidade e acabou por cumprir, à semelhança do que aconteceu com o que encerrou a primeira parte do festejo. O quarto, cumpriu, faltando alguma transmissão após o momento do ferro. O último andava melhor pela frente que por trás. E hoje não falhou o ditado e “no hay quinto malo”. O quinto foi o toiro da corrida. Marcado com o número 61 e com o peso de 545kg, colocou desde início bem a cara nos capotes. Perseguiu o cavalo com transmissão e arrancava-se de qualquer terreno. No final da sua lide, o ganadero foi premiado com volta ao ruedo.

 

Abriu praça Luís Rouxinol que, tal como os seus companheiros de cartel, encerrava esta tarde a sua temporada. Na sua primeira prestação, ligou-se desde cedo ao oponente. Esteve bem nos curtos, montando o cavalo Girassol. Boa série de ferros, com grande destaque para os remates das sortes, empolgantes. Rematou a atuação com um ferro de palmo à passagem pelo corredor, após duas tentativas de frente em que o toiro tardou em arrancar-se. No segundo do seu lote, iniciou a função com dois bons ferros compridos, levando o toiro embebido na garupa do cavalo. Para os curtos foi buscar o Douro, e aí o binómio Douro-Rouxinol voltou a estar em grande. Excelente série de ferros curtos, com brega de nota elevada marcaram uma lide bastante positiva. Terminou com um bom par de bandarilhas, muito bem colocado.

 

Miguel Moura regressou a Évora após o triunfo aqui alcançado na tarde de 3 de outubro, com os Palhas. Recebeu o seu primeiro toiro com um empolgante ferro em sorte de gaiola. Na fase de curtos, andou bem, desenvolvendo uma prestação bastante correta, com destaque positivo para um excelente segundo ferro curto. No seu segundo, o toiro da corrida, mais uma declaração de intenções de Miguel Moura. Recebeu novamente o oponente com um ferro em sorte gaiola, excelentemente rematado. O segundo comprido foi também ele de nota elevadíssima. Na fase de curtos, desenvolveu uma prestação de triunfo. Brega de elevadíssimos quilates, a duas pistas. Cravou um excelente segundo curto, com um exuberante remate, a levar o toiro na barriga do cavalo. No ferro de palmo com que encerrou a sua prestação, o cavalo caiu, acabando cavaleiro e cavalo por ficar à mercê do toiro, felizmente, sem aparentes consequências de maior. Miguel Moura recompôs-se, trocou de montada e voltou à arena para cravar um excelente ferro de palmo. Tarde importante de Miguel Moura a fechar uma temporada de afirmação.

 

Completava a terna de cavaleiros, João Salgueiro da Costa. No seu primeiro, o cavaleiro de Valada nunca se enquadrou verdadeiramente com o toiro. Nos compridos, andou desacertado, exceção feita para o terceiro, que resultou bastante positivo. Nos curtos, as coisas não correram de feição, acabando Salgueiro por abreviar a faena. Mas porque o toureio é feito de momentos de genialidade, a segunda lide de João Salgueiro da Costa foi um hino à arte de bem tourear. Andou regular na ferragem comprida. Nos curtos, abriu o livro e desenhou uma faena daquelas que certamente inundam os sonhos dos que se vestem de casaca e tricórnio. Foram 6 ferros curtos 6, todos eles cheios de emoção e verdade. Encontrou toiro em todos os terrenos e saiu limpo de todas as sortes, sempre a entrar nos terrenos do toiro, abrindo o quarteio no limite. Instantes em que o tempo parou e o exigente público de Évora ficou rendido ao toureio do mais jovem da dinastia Salgueiro. Lide para recordar!

 

No capítulo das jaquetas de ramagens, estiveram em praça os Grupos de Forcados Amadores de Santarém e Évora, respetivamente capitaneados por João Grave e João Pedro Oliveira. Toda a tarde foi uma exaltação aos mais nobres valores do forcado amador.

 

A formação escalabitana pegou os três toiros do seu lote à primeira tentativa. Para a cara do primeiro da corrida foi o cabo João Grave, a dar o exemplo, com o toiro a arrancar pronto e a proporcionar uma reunião bastante rija. Grande pega! Joaquim Grave foi o responsável por pegar o segundo dos Amadores de Santarém. Viagem longa e o forcado a aguentar bem na cara do toiro, consumando ao primeiro intento. Fechou a tarde do grupo mais antigo de Portugal, Francisco Graciosa, que pegou também ele à primeira com o grupo a ajudar coeso. Tarde redonda do Grupo de Santarém.

 

Pelos Amadores de Évora, a jogar em casa, abriu praça o cabo João Pedro Oliveira, que realizou aquela que foi provavelmente a pega da tarde. Com o toiro a complicar no momento da reunião, o forcado aguentou-se firme e concretizou uma excelente pega. Publico de pé. No final, deu duas voltas à arena. Ricardo Sousa foi para a cara do segundo da formação alentejana. Na primeira tentativa, o toiro colocou um pitón pela frente, tornando impossível que o forcado se fechasse. Na segunda tentativa, o toiro levou a cara alta e o forcado não aguentou a viagem. Concretizou à terceira, com reunião rija. Fechou a tarde António Torres. Nas primeiras quatro tentativas, não se conseguiu fechar, acabado por concretizar à quinta, com as ajudas carregadas.

 

No final, mais um momento de extrema importância e que revela bem de que é feito o caráter dos forcados. O júri composto pelos cabos de ambos os grupos atuantes e pelo representante da empresa Aromas do Sul, patrocinadora da corrida, decidiu entregar o prémio para o melhor grupo em praça aos Amadores de Santarém. Depois, e porque, como disse o cabo João Grave, “ser forcado não é só pegar toiros à primeira”, os Amadores de Santarém, evocando os valores da forcadagem, decidiu entregar o prémio ao grupo da casa, aos Amadores de Évora.

 

Após a entrega do prémio, a empresa convidou o público, em particular as crianças e jovens, a descerem à arena para tirar uma fotografia com os artistas intervenientes. Bonita forma de terminar a temporada na praça de Évora, com a arena cheia de jovens num momento de celebração!

 

Abrilhantou a corrida a Banda da Casa do Povo de Nossa Senhora de Machede.

 

Dirigiu o espetáculo o delegado técnico Agostinho Borges, assessorado pela médica veterinária Dra. Ana Gomes.

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