Tarde dura para Toureiros e Forcados em Alcochete

Por Miguel Ortega

Tarde dura para Toureiros e Forcados em Alcochete 
  • 3 de abril de 2022, Alcochete
  • Desafio Ganadero, Corrida das Bandarilhas
  • Cavaleiros: Luís Rouxinol, Filipe Gonçalves e Marcos Bastinhas
  • Forcados: Évora e Alcochete
  • Ganadarias: António Silva e Fernandes de Castro
  • Praça a 1/2 de lotação
  • Direção acertada de Ricardo Dias e veterinário Carlos Santos

Alcochete abriu ontem, 3 de abril em tarde de sol mas com demasiado vento a sua temporada 2022, cartel designado das bandarilhas, desafio ganadero, e dois grupos consagrados, cerca de meia casa preencheram as bancadas da Terra do Verde Barrete.

 

Alguns dos toiros lidados hoje em Alcochete esconderam a verdade do perigo que levam dentro, que é a pior coisa que pode acontecer a um toureiro que se coloca diante… O que na gíria taurina chamam de perigo surdo, um exemplo de mau uso da semântica mas que hoje se aplica a alguns dos lidados. O perigo não é ouvido. É visto ou não é visto. É palpável ou não. Até cheira; mas nunca ouve… Mas quem teve diante deles certamente que o ouviu e de que maneira…

 

Quantas vezes já repetimos que esta nossa Festa é baseada na emoção? Bem, a emoção tem que ser colocada, em primeiro lugar, pelo toiro. Casta, poder e pés, disse Ortega y Gasset, para definir a trilogia que identifica o toiro bravo. Disso hoje houve pouco em terras de Alcochete. No desafio ganadero Castro Versus Silva os exemplares apresentados estavam grandes, pesados, com mais cara os de Coruche mas tirando o primeiro que foi um bom toiro, os restantes tiveram esse tal perigo surdo que engana muitos e desconfia, e de que maneira, quem se lhe põe diante.

 

Abriu a tarde o mais bonito de tipo, toiro reunido e até toureiro. Foi um Silva disponível, nobre, com som nas acometidas ao cavalo, fixo, e a meter bem a cara nos capotes. Bom toiro. O segundo foi outro Silva, grande, despegado do chão. Teve querenças em tábuas, mas citado em curto saia com vibrantes acometidas. O terceiro tinha o ferro de Castro, era alto, comprido, toiro com mobilidade, sem entrega durante a lide, queria distâncias largas, em curto caçava moscas… O quarto também de Castro, era um comboio… Despegado do chão, comprido, toiro reservado e medir muito, nos capotes foi complicado. O quinto fechou a função dos da Herdade da Ervideira, foi o mais harmónico dos deste ferro. Foi um toiro andarilho, distraído mas que teve mobilidade, faltou-lhe a entrega dos bravos. Fechava a tarde um bonito Silva mas que se lesionou nos lances de capote, sendo recolhido ao fim do segundo comprido. Foi substituído pelo sobrero, que a empresa quis oferecer aos presentes. Foi o mais pequeno do lote, toiro bonito. Acusou o ter sido embolado minutos antes, o que acentuou a sua condição de manso.

 

Luís Rouxinol abriu hoje em Alcochete a sua temporada de comemoração dos 35 anos de alternativa e andou à Rouxinol. Sempre com a entrega com que nos tem habituado estas quase quatro décadas de toureio. Aproveitou as qualidades do seu primeiro e deu a volta ao quarto. No primeiro cravou dois compridos, abrindo caminhos ao toiro e percebendo que o Silva seria para desfrutar e assim foi. Nos curtos a série foi de nota, destaque para segundo e quarto, o remate do primeiro teve graça toureira. Finalizou a lide com um palmito de boa nota. O quarto pediu muito saber para se lhe puder dar a volta. Na primeira parte da lide sovou o Castro, tentou corrigir defeitos e cravou com solvência curtos e compridos. Mudou de montada e o violino com que surpreendeu o toiro fez com que este viesse a mais, Rouxinol calejado em mil batalhas, cravou-lhe um ferro por dentro de boa nota, rematou a lide com um palmo e bom par de bandarilhas. Lide de muito saber.

 

Filipe Gonçalves, veio com fome de triunfo esta tarde. Dos dois compridos com que iniciou a lide teve melhor nota o segundo. Nos curtos houve duas passagens em falso no primeiro da série. O segundo levantou o público dos assentos, em curto e com batida cravou num palmo de terreno um ferro empolgante. No terceiro repetiu a dose mas o ferro não foi tão vibrante, o quarto foi novamente empolgante e os presentes reagiram com uma forte ovação. Rematou a lide com um bonito um par de bandarilhas. O quinto não foi fácil… Filipe andou desembaraçado a cravar os compridos, os curtos foram cravados de forma solvente, tentando dar a volta ao Castro. O terceiro curto e respectivo remate têm direito a destaque maior, rematando a lide com um bom par a duas mãos. Lide esforçada e de muito querer do cavaleiro de terras do Algarve.

 

Marcos Bastinhas era o terceiro cavaleiro do cartel de hoje, a primeira lide foi curta mas teve emoção, no sobrero que fechou praça mostrou muito querer para dar a volta à “tortilha” que teve por diante. Esperou o terceiro à porta dos curros e levou o oponente embebido na rabada do cavalo. O segundo comprido foi de nota, citou de largo e cravou de forma vibrante. Nos curtos percebeu que o toiro vinha de largo, por vezes solto, mas o cavaleiro de Elvas não lhe importou tal condição, cravou um par de ferros que chegaram com força às bancadas, não lhe regateando aplausos os presentes. A lide foi rematada com um bom par de bandarilhas, não fosse esta a corrida das bandarilhas. Marcos, viu o seu último ser recolhido aos currais e teve que lidar o sobrero. Toiro este que mostrou muitas querenças em tábuas e quando sentia o ferro tinha alguns arreões de manso. O cavaleiro andou com muito querer, tentou sempre tirar água deste poço seco e só com muita vontade deixou a ferragem da ordem. O primeiro curto foi à meia volta, por dentro, arriscando muito, tentando-o desenganar, suportando posteriormente a acometida do Silva. O segundo curto teve também muito mérito, fechou com um curto de boa nota voltado a meter tudo de sua parte.

 

Nas pegas os Amadores de Évora e Alcochete foram os grupos convidados para pegar esta corrida pela empresa Toiros e Tauromaquia. Tarde dura mas de grande vontade para os rapazes das jaquetas das ramagens. Houve algumas pegas de destaque maior!

 

Abriu a tarde pelos Alentejanos João Madeira, forcado experiente, bem a citar, a mandar, recuar, a receber o toiro mais franco da tarde, o grupo ajudou bem e foi consumada uma boa pega à primeira tentativa. Miguel Direito foi o forcado escolhido para pegar o terceiro da tarde, toiro pegado rijamente à segunda tentativa, com o grupo a ajudar lá atrás de forma eficiente. Na primeira tentativa o derrote do Castro foi violento e a tirar o cara. Fechou a tarde pelos de Évora José Maria Caeiro, pega dura e rija, com o forcado a suportar vários derrotes mas com braços para resolver os problemas, o grupo esteve muito bem a fechar e uma das pegas da tarde foi consumada à primeira tentativa.

 

Pelo grupo da terra, abriu a função Victor Marques numa boa pega à primeira tentativa, bem citar a receber, para se fechar como uma lapa, bem os de Alcochete a ajudar. Manuel Pinto foi para a cara do quarto, toiro que foi complicado durante a lide e não o foi menos para a pega… Na primeira tentativa derrotou forte e feio tentando despejar tudo o que lhe apareceu por diante. Na segunda o Manel não lhe deu hipóteses e com um grande par de braços resolveu este problema, destaque também grande para o primeiro ajuda Joaquim Matos, fundamental para esta pega se ter concretizado, o restante grupo ajudou de forma eficiente. Fechou a tarde José Freire à quarta tentativa. Toiro que não rompia pelo grupo e que batia forte. Só em curto e com ajudas carregadas o Silva se deu por vencido.

 

Foi guardado um minuto de silêncio em memória do Eng. Samuel Lupi.

 

Dirigiu a corrida Ricardo Dias e foi veterinário Carlos Santos.

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