Na jornada da vida, muitas vezes, somos guiados por regras invisíveis que acreditamos serem ditadas pela razão ou pelo sentido de dever. Cuidamos dos outros, seguimos expectativas alheias e convencemos a nós mesmos de que isso é suficiente. Não percebemos que cada escolha adiada, cada desejo silenciado, constrói gradualmente um vazio interior. E seguimos a pensar que sempre haverá tempo para nós, mais tarde, quando as obrigações estiverem resolvidas. Achamos que o sacrifício é nobre, que isso é ser responsável. Porém, um dia, olhamos para trás e percebemos que esse “mais tarde” nunca chegou.
Não se trata de viagens perdidas ou horas extras trabalhadas, mas de uma tomada de consciência de que a vida com a qual sonhávamos sempre esteve à espera de uma permissão que nunca existiu. O mais doloroso é perceber, tardiamente, que sempre tivemos o direito de aspirar a mais, mas nunca o reivindicámos. Frequentemente encontro a Rosa, de sessenta e nove anos, no parque ao lado da minha casa, e temos longas conversas.
Os filhos dela organizaram uma festa para o seu aniversário. Havia balões, um bolo e um brinde onde o filho fez um elogio dizendo que ela era uma mulher que sempre colocava a família em primeiro lugar. Ela sorriu e agradeceu, mas mais tarde, na tranquilidade da cozinha, refletiu: este é exatamente o problema.
Ela sempre colocou a família em primeiro lugar.
Colocou o trabalho acima de tudo. Colocou o pagamento da hipoteca, as economias, as taxas escolares e as expectativas das pessoas que respeitava antes de si mesma. E, ao priorizar os outros, perdeu de vista uma pergunta que, acredita agora, é a mais importante que uma pessoa pode fazer: o que realmente desejava? Durante quarenta anos, ela não fez essa pergunta. E, se não a fez, não foi por falta de tempo. Foi porque esperava que alguém lhe dissesse que tinha o direito de a fazer.
Não o que deveria querer. Não o que era razoável desejar. E não o que uma boa mulher, uma mãe responsável ou uma esposa fiável deveria querer. O que desejava, precisamente, na intimidade de seus pensamentos, para a sua vida?
De onde vem essa espera

Na teoria da autodeterminação, existe um conceito chamado regulação introjetada. Este conceito descreve um tipo de motivação em que agimos não porque valorizamos genuinamente as coisas, mas porque interiorizamos expectativas externas a tal ponto que se tornam nossos próprios desejos. Agimos por vergonha, culpa ou necessidade de aprovação, e, como essa pressão interna é tão imperceptível, não a percebemos como tal. Pensamos que isso simplesmente faz parte da nossa natureza. Achamos que desejar algo diferente seria egoísta, irrealista ou ingrato.
Durante quase quarenta anos, Rosa viveu numa rotina rígida e interiorizada. Aceitou um emprego estável, por dever, porque era isso que as mulheres responsáveis faziam. A ele se manteve porque havia pessoas que dependiam dela. Colocou de lado todo interesse que não servisse diretamente sua família ou sua carreira. Convencia-se de que agia com maturidade, de que teria tempo mais tarde, que se dar ao prazer era um luxo que poderia se permitir uma vez que suas verdadeiras obrigações estivessem cumpridas. Mas as obrigações nunca desapareceram.
Elas apenas mudaram de forma. As taxas escolares tornaram-se as taxas universitárias, depois as despesas de casamento, e por fim a questão de saber se tinha economias suficientes para a aposentadoria. Sempre havia uma razão para adiar. Sempre uma utilização mais responsável do seu tempo e energia.
Durante todo esse tempo, a parte dela que realmente desejava essas coisas ia murchando, até que um dia ela não conseguiu mais ouvi-la.
O que ninguém lhe diz sobre o longo prazo
O psicólogo Thomas Gilovich passou décadas estudando os arrependimentos humanos. Suas pesquisas, realizadas com diversas populações através de entrevistas telefónicas, questionários escritos e conversas presenciais, revelaram uma consistência: a curto prazo, as pessoas lamentam suas ações; a longo prazo, lamentam suas inações. Ao relembrar a vida, são as omissões que geram os arrependimentos mais profundos e duradouros.
Em um estudo, 74% dos arrependimentos expressos por participantes mais velhos, professores eméritos e residentes de lares de idosos na casa dos setenta e oitenta, referiam-se a coisas que deixaram de fazer. Não se tratava dos erros cometidos ou dos riscos corridos, mas dos caminhos não percorridos, dos interesses não explorados, ou ainda das versões de si mesmos que nunca permitiram existir.
Li isso e foi profundamente tocante, porque ressoou com o que Rosa me confia frequentemente durante nossas longas conversas no parque.
Porque seu arrependimento não se concentra em uma oportunidade perdida concreta.
Não se trata do fato de que ela deveria ter criado uma empresa, vivido no estrangeiro ou aprendido a pintar. Seu arrependimento é mais estrutural. Trata-se de ter passado quarenta anos sem saber o que queria e, quando finalmente se deu conta, havia perdido o hábito de saber isso.
A permissão que ninguém lhe dá

O que Rosa entendeu aos sessenta e nove anos, e que teria gostado de saber aos trinta, é que ninguém lhe dará permissão para desejar coisas para si mesma. Nem seus pais, nem seu parceiro, nem seu empregador, nem a sociedade.
O mundo se satisfaz perfeitamente com sua submissão. Ele aproveitará cada hora que você lhe oferecer sem nunca dizer:
“Basta, agora faça algo que realmente importe para você.”
A autorização deve vir de si, e para pessoas como ela, criadas na convicção de que o altruísmo é a mais alta virtude e que o desejo pessoal é algo a ser controlado em vez de valorizado, conceder essa autorização é como romper um contrato assinado antes mesmo de se estar em idade de ler as minúcias.
As pesquisas sobre autodeterminação e bem-estar demonstram sistematicamente que a autonomia, a sensação de estar no comando das suas próprias escolhas, não é um luxo, mas uma necessidade psicológica fundamental. Quando essa necessidade é cronicamente insatisfeita, os indivíduos não apenas se sentem insatisfeitos; sofrem uma queda no bem-estar, uma desconexão e um risco maior de esgotamento profissional, independentemente da estabilidade ou sucesso aparente de sua situação externa. Pode-se ter um bom emprego, uma família amorosa, uma casa confortável e, no entanto, sentir-se vazio se a vida for completamente ditada pelas expectativas dos outros.
Esse vazio acompanhou Rosa ao longo de décadas.
Ela não o teria chamado assim naquela época. Em vez disso, teria falado de responsabilidade. De ser um pilar para a sua família. De ser estável. E essas coisas eram reais e significativas. Contudo, não a definiam completamente, e os aspectos que isso deixava de lado não desapareceram. Simplesmente se enterraram.
O que ela teria gostado de se dizer quando era mais jovem

Ela não diria para trabalhar menos. Não diria para viajar mais. Esses são os arrependimentos que se espera ter aos setenta anos, e é compreensível, mas são arrependimentos superficiais. O que ela diria é que querer coisas para si não é egoísta.
É necessário. E acreditar que é preciso permissão de alguém antes de levar os próprios desejos a sério é a mentira mais cara que se pode aceitar, pois seus efeitos se acumulam ao longo das décadas. A cada ano em que se adianta, a capacidade de saber o que se quer atrofia um pouco mais, até que chega o dia em que se tem finalmente o tempo e a liberdade e se percebe que se esqueceu como utilizá-los.
Ela diria que colocar os outros em primeiro lugar pode parecer nobre, mas que ao fazê-lo durante quarenta anos sem interrupção, se constrói precisamente o tipo de vida que se lamentará a longo prazo: uma vida de inação frente às coisas que realmente importavam, disfarçada de sacrifício.
Ela diria que, aos sessenta e nove anos, ninguém se lembra se você estava sempre disponível.
Lembram-se se você estava viva. Se tinha algo no olhar ao falar sobre seus dias. Se parecia alguém que fazia o que escolheu, ou se parecia alguém que suportava algo que aceitou.
Ela diria para parar de esperar. A autorização não virá. Nunca veio. A única pessoa que pode decidir sua vida, é você, e cada ano de espera é um ano perdido.
Agora ela sabe disso. Gostaria de ter sabido mais cedo. Mas a maior vantagem de ter sessenta e nove anos não é a sabedoria, mas a lucidez. E o que ficou claro para ela hoje, com uma lucidez que a teria aterrorizado aos trinta, é que a lição que aprendeu tarde demais não se trata de onde deveria ter ido, nem do que deveria ter feito.
É que passou quarenta anos em frente a uma porta que nunca esteve trancada, esperando que alguém a abrisse.




