A procura de crescimento pessoal deve ser distinta da comparação com os outros. Muitas pessoas consomem uma parte significativa das suas vidas a observar as conquistas e derrotas dos que as rodeiam. Esta tendência para a comparação frequentemente distorce a forma como valorizam a si mesmas. No entanto, avaliar o próprio progresso apenas à luz das realizações alheias pode resultar numa compreensão errada do que é, de facto, crescer. A verdadeira evolução não se mede apenas pela posição que ocupamos em relação aos outros, mas pela transformação que se opera em nós ao longo do tempo. Esta mensagem, frequentemente atribuída a Hemingway, destaca precisamente esta ideia.
Hemingway não pretendia incentivar as pessoas a comparar-se com o seu passado como um mero exercício motivacional. O seu objetivo era, antes, evidenciar que a comparação que muitos realizam diariamente com o seu entorno assenta frequentemente em critérios inadequados.
Esta frase, ou uma formulação semelhante, é bastante popular e amplamente divulgada na cultura contemporânea.
Muitas vezes vista como uma citação inspiradora, encontra-se frequentemente em ambientes como ginásios, locais de trabalho ou discursos sobre desenvolvimento pessoal. É geralmente entendida como um apelo à concentração no percurso individual, ao avanço pessoal e à evitação da comparação com os êxitos dos outros.
Embora esta interpretação não seja totalmente errada, não capta a totalidade da mensagem. O discurso não se limita a substituir a comparação externa por uma interna, mas sim a discernir entre duas formas diferentes de avaliar o próprio progresso.
Por um lado, muitos avaliam a sua existência com base na posição que ocupam face aos outros, considerando o sucesso, o estatuto, as posses ou o reconhecimento social. Por outro lado, alguns optam por observar a sua própria transformação, os seus esforços, os seus valores e a pessoa que se vão tornando.
A primeira abordagem tende a ser a forma instintiva pela qual muitos adultos medem a sua relação com o mundo. Embora possa proporcionar uma satisfação temporária, frequentemente não responde às aspirações mais profundas ligadas a noções como a dignidade, o sucesso pessoal ou a busca incessante de uma versão melhor de si mesmos.
A segunda, por sua vez, reflete mais o que muitos buscam ao falar de evolução pessoal e crescimento interior. Não se trata meramente de ser melhor do que alguém, mas sim de progredir segundo os próprios critérios e de cultivar uma relação mais autêntica consigo mesmo.
Assim, esta frase não propõe apenas uma mudança na direção da comparação; convida-nos, sobretudo, a compreender que nem todas as formas de avaliação pessoal produzem os mesmos resultados, apesar de a linguagem comum frequentemente as confundir.
As duas formas de avaliação pessoal

A primeira maneira de avaliação, provavelmente a mais comum entre adultos, consiste em se posicionar em relação aos outros. Frequentemente de forma automática, cada um observa o seu entorno e compara vários aspetos da sua vida com os das pessoas ao seu redor.
Um indivíduo possui um rendimento superior. Outro parece ter uma relação amorosa mais gratificante. Alguém é percebido como mais saudável, competente ou reconhecido na sua área. Estas comparações geram, ao longo do tempo, um tipo de classificação interna onde cada um tenta determinar a sua própria posição face aos outros.
Esta hierarquia social é real. Faz parte dos mecanismos que os seres humanos utilizam para compreender a sua posição num grupo. Contribui para as nossas relações e para a nossa percepção de nós mesmos. Contudo, quando se trata de avaliar se alguém avança realmente em direção à vida que deseja, este critério torna-se muito limitado.
A problemática reside no fato de que esta comparação baseia-se, na maioria das vezes, apenas em elementos visíveis exteriormente. Mede resultados, sinais de sucesso ou características facilmente observáveis, mas não revela, necessariamente, a verdadeira qualidade da vida de uma pessoa.
É possível que alguém tenha um alto rendimento e, todavia, se sinta extremamente insatisfeito. Pode haver quem aparente ter uma relação ideal, mas que na intimidade vive uma história superficial ou complicada. Até mesmo um profissional admirado pode sentir uma falta de sentido naquilo que faz.
Os critérios usados na comparação não permitem, portanto, avaliar sempre aquilo que realmente importa na vida. Medem mais a aparência de sucesso do que uma evolução genuína. Este sentido, a comparação recai sobre a variável errada.
A comparação com a pessoa que éramos no passado
A segunda maneira de avaliar-se, aquela que a ideia atribuída a Hemingway promove, consiste em comparar-se consigo mesmo ao longo do tempo.
O objetivo é deixar de lado as comparações de superioridade ou inferioridade face aos outros e, antes, determinar se houve progresso em relação à pessoa que se era anteriormente. O adulto pode observar a sua evolução em diferentes períodos, como seis meses atrás, um ano ou até mesmo vários anos.
Esta comparação apresenta a vantagem de estar alicerçada numa informação que o indivíduo pode compreender realmente, pois diz respeito ao seu percurso. Permite avaliar as suas transformações, esforços, hábitos e escolhas, bem como a direção que está a tomar.
A questão deixa de ser: “Onde me coloco em relação aos outros?” e passa a ser: “Estou a tornar-me, progressivamente, a pessoa que desejo ser?”
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Por que esta comparação é mais desafiante

Embora esta forma de comparação pareça mais pertinente, exige um esforço maior. Várias razões explicam por que ela é menos espontânea do que a comparação social.
A primeira dificuldade diz respeito à memória. Para saber se realmente evoluímos, é preciso recordar com precisão quem éramos antes. No entanto, a percepção que temos de nós mesmos está constantemente ajustada ao presente. A identidade é um processo em contínua evolução, tornando o passado de difícil acesso e, por vezes, sujeita a uma análise objetiva complexa.
Esta adaptação é útil no cotidiano, pois permite continuar a avançar sem se prender a quem se era anteriormente. Mas, ao mesmo tempo, torna mais desafiador o exercício de comparar honestamente o presente com o passado.
A segunda dificuldade reside no fato de que esta comparação não oferece recompensas imediatas. Comparar-se com os outros pode gerar, rapidamente, uma sensação de satisfação ao se sentir superior em um determinado aspecto. Esta validação social, mesmo que temporária, atua como uma forma de recompensa psicológica.
Por outro lado, reconhecer um progresso pessoal costuma proporcionar uma satisfação mais discreta. Não é a sensação de vitória sobre os outros, mas sim a impressão de ter avançado. Esta realização é menos visível e, portanto, menos valorizada por terceiros.
A terceira dificuldade pode ser a mais desconfortável: uma comparação honesta consigo mesmo pode revelar uma falta de progresso.
Muitas vezes, é mais fácil buscar a própria valorização através da comparação com os outros do que aceitar que não se mudou tanto quanto se esperava. Contudo, essa consciência muitas vezes representa o primeiro passo necessário para qualquer transformação real.
A pessoa capaz de reconhecer a sua estagnação adquire informações valiosas, pois sabe que uma mudança deve ser iniciada. Por outro lado, quem recusa observar essa realidade pode permanecer preso nas mesmas rotinas.
O que esta ideia não quer dizer
Esta frase não implica que devemos entrar numa competição perpétua connosco mesmos.
Uma interpretação moderna do desenvolvimento pessoal, por vezes, transforma este conceito numa obrigação de sermos sempre melhores, mais rápidos, mais produtivos e mais eficientes. Esta visão pode gerar uma pressão constante e transformar o progresso numa nova fonte de insatisfação.
Trocar a comparação com os outros por uma constante comparação consigo mesmo não resolve necessariamente o problema se o mecanismo permanecer idêntico. Em ambos os casos, o indivíduo pode acabar por viver numa autoavaliação constante e desgastante.
O verdadeiro ensinamento, portanto, não é lutar contra si mesmo diàriamente, mas aprender a observar a própria evolução com honestidade.
O verdadeiro significado desta comparação

Comparar-se a si mesmo não significa buscar a perfeição, mas sim desenvolver uma capacidade de observação mais precisa acerca do próprio percurso.
A questão não é saber se estamos melhores que outra pessoa, nem sequer se somos superiores à versão anterior de nós mesmos. Trata-se, antes, de perceber se as nossas escolhas atuais estão mais alinhadas com a pessoa que aspiramos a ser.
A comparação com os outros busca uma posição numa hierarquia. A comparação consigo mesmo procura uma direção interior.
A primeira pergunta é: “Que lugar ocupo entre os outros?”
A segunda é: “Estou a progredir em direção à pessoa que quero ser?”
É esta distinção que dá verdadeiro sentido a esta ideia. Não se trata apenas de mudar o objeto da comparação, mas de **transformar a maneira como se avalia a própria evolução**.
Este artigo é apresentado para fins informativos e reflexivos. Não constitui, de forma alguma, um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções aqui abordadas são baseadas em pesquisas publicadas e em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para qualquer situação específica, consulte um profissional qualificado.




