Através da reflexão de Alfred Adler, percebemos que a cura para o mal-estar reside em mudar a questão de “o que posso receber?” para “o que posso dar?”. O mal-estar é frequentemente encarado como uma manifestação individual; buscamos as raízes do nosso sofrimento nas nossas emoções, na nossa história ou na nossa personalidade. Este ponto de vista, tão comum e aceito, raramente é desafiado. Contudo, há pensadores que apresentaram uma visão alternativa: o que acontece dentro de nós é intrinsicamente ligado a como nos relacionamos com os outros. Adler destaca-se entre eles pela sua abordagem ímpar na psicologia.
Atuamos como autores e editores que revisitam investigações em psicologia e história das ideias. O texto seguinte é uma análise de uma teoria concebida há mais de um século, contrastada com pesquisas atuais. Não se trata de um conselho médico ou de terapia, mas sim uma reflexão. A maioria dos estudos mencionados é de natureza observacional, identificando tendências em grupos, não sendo aplicáveis individualmente a cada leitor.
Conselhos para superar o mal-estar frequentemente focam em si mesmo

É frequentemente sugerido que devemos fortalecer a confiança em nós mesmos, melhorar a autoestima, compreender melhor as emoções ou aceitar-nos mais. A ideia é simples: ao desenvolver uma força interior, tudo à nossa volta tenderá a melhorar.
A proposta de Adler é radicalmente diferente. Para este psicólogo austríaco, uma pessoa que se perde em autorreflexão, avaliando incessantemente o seu valor ou tentando solucionar seu mal-estar focando-se em si mesma, não necessariamente avança rumo ao bem-estar.
Segundo ele, essa introspecção excessiva pode, efetivamente, perpetuar a dor. Em outras palavras, essa abordagem tende a descrever o problema, mas não resolve.
A visão de Alfred Adler: romper com o egocentrismo
A citação mais famosa de Adler é clara e direta. Para ele,
“é o indivíduo que não se preocupa com os outros que encontra as maiores dificuldades na vida e causa mais danos aos outros. É entre esses indivíduos que surgem todos os insucessos humanos.”
Esta afirmação, feita nos anos 30, reflete sua concepção da natureza humana, que, embora não tenha sido um resultado experimental, resume um dos princípios centrais da sua teoria.
Adler não defendia que cuidar de si é irrelevante. No entanto, afirmava que, quando toda a nossa atenção está sobre as nossas dificuldades, fraquezas ou valor pessoal, corremos o risco de alimentar aquilo que nos prejudica. Quanto mais alguém busca resolver seu mal-estar focando-se em si, mais provavelmente se aprisiona num círculo vicioso.
O que representa realmente o interesse social segundo Alfred Adler?
Para Adler, a alternativa ao egocentrismo é o Gemeinschaftsgefühl, traduzido como “sentido de pertença a uma comunidade” ou “interesse social”. Um livro de referência em psicologia clínica define-o como um termo alemão que expressa “sentido de pertença a uma comunidade”.
Adler considerava este interesse social uma disposição humana fundamental, uma capacidade de cooperar com os outros e contribuir para o bem comum, a qual pode ser nutrida ao longo da vida.
Entretanto, não se trata apenas de uma habilidade de ser sociável ou extrovertido. A universidade Adler, que perpetua o seu legado intelectual, esclarece que, em vez de uma forma de extroversão, o interesse social reflete o comprometimento de um indivíduo em promover o bem-estar alheio.
Assim, uma pessoa introvertida, mas atenta aos outros, pode exibir um forte interesse social. Por outro lado, uma pessoa carismática, mas focada apenas nos próprios interesses, pode apresentar-se bastante carente desse traço.
Para Adler, este conceito era um dos melhores indicadores de saúde psicológica. A mesma fonte explica que essa noção foi introduzida para expressar a ideia de que o bem-estar psicológico decorre de um sentimento de pertença e responsabilidade para com os outros.
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A armadilha do sentimento de inferioridade

O sentimento de inferioridade ocupa um papel central na teoria de Alfred Adler. Ele acreditava que todos nós, em algum momento da vida, podemos sentir-nos insuficientes. O perigo manifesta-se quando essa sensação nos leva a procurar constantemente segurança, status, controle ou reconhecimento para compensar essa falta.
Adler advertia que essa estratégia vai, aos poucos, levando ao encerramento em si. Quanto mais uma pessoa gasta energia a proteger-se, a comparar-se, a afirmar o seu valor, menos se dedica às relações que confere significado à vida.
O que poderia parecer autodefesa, acaba por afastar do que realmente traz bem-estar.
Quem já passou por momentos difíceis, reavaliando constantemente as suas preocupações, reconhece provavelmente este mecanismo. À medida que mais pensamentos surgem, mais eles dominam a mente, sem, no entanto, oferecer soluções.
O que a pesquisa contemporânea revela… e o que não revela
As ideias de Alfred Adler basearam-se principalmente em suas observações clínicas e teorias elaboradas antes da popularização da psicologia experimental moderna. Portanto, seria exagerado afirmar que suas ideias estão cientificamente comprovadas.
Contudo, uma das suas intuições principais, a ideia de que contribuir para o bem-estar dos outros pode melhorar o nosso próprio bem-estar, encontra ressonância na literatura científica atual.
É importante lembrar que a maioria das pesquisas existentes é observacional. Estas mostram associações entre fenômenos diferentes, mas não estabelecem causas definidas.
Por exemplo, uma pesquisa da Universidade de Harvard envolvendo quase 13.000 pessoas idosas concluiu que aquelas que se dedicavam a atividades de voluntariado apresentavam um risco de mortalidade inferior e um nível de felicidade mais elevado. Os benefícios foram mais evidentes entre aqueles que dedicavam cerca de duas horas por semana a atividades voluntárias. No entanto, os autores enfatizam que esta pesquisa não permite afirmar que o voluntariado seja a causa dos efeitos observados.
Eric Kim, principal autor da pesquisa, resume uma hipótese possível:
“O ser humano é social por natureza. Talvez por isso nossa mente e nosso corpo sejam recompensados quando ajudamos os outros.”
Esses estudos não provam que Adler tinha razão, mas mostram que algumas de suas intuições estão alinhadas com observações da pesquisa contemporânea e merecem consideração.
A exigente proposta de Alfred Adler

A perspectiva de Alfred Adler não é particularmente confortável. A transição de “o que recebo?” para “o que dou?” exige uma abordagem altruísta.
Este exercício requer tempo, atenção e a capacidade de, por vezes, pôr de lado o impulso de priorizar os próprios interesses.
Segundo Adler, este esforço é tudo menos um sacrifício em vão. Acreditava que nos tornamos menos prisioneiros das nossas preocupações quando deixamos, ao menos temporariamente, de colocá-las no centro das nossas atenções.
Por outras palavras, sair de nós mesmos não é uma forma de nos esquecermos, mas sim um caminho para retomar um lugar mais sereno entre os outros.
Se um dos assuntos abordados neste artigo o toca diretamente e se está a passar por um período de mal-estar profundo ou grande solidão, recomenda-se a consulta a um profissional qualificado, como um psicólogo, psicoterapeuta ou médico, para beneficiar de um apoio adequado à sua situação.
Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e de reflexão. Não substitui aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As ideias mencionadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.




