As abordagens de “parentalidade respeitosa” e “parentalidade reativa” geram frequentemente debates acalorados. Para alguns, estas metodologias parecem excessivamente permissivas, levantando preocupações de que possam criar crianças mais difíceis de educar. Contudo, especialistas refutam essa visão.
De acordo com eles, oferecer um ambiente pautado pela escuta e o respeito não implica em permitir que a criança faça tudo o que desejar. Pelo contrário, isso ajuda a criança a compreender melhor as regras e a desenvolver a sua autonomia. Um experto em educação da infância destaca que a ideia de que a suavidade resulta em crianças ingovernáveis é um mito.
Travis Manley, diretor de desenvolvimento da infância, aponta que crianças criadas sob disciplina rígida enfrentam mais dificuldades na escola do que aquelas que beneficiam de uma educação respeitosa ou permissiva.
Disciplina rígida: Problemas na escola

Manley reforçou que as crianças que estão sujeitas a uma disciplina estrita são as mais difíceis de lidar nas escolas.
Abordagens educativas modernas, como a parentalidade respeitosa e a parentalidade reativa, são métodos desenvolvidos por psicólogos que evitam a disciplina estrita, os gritos e as punições. Em vez disso, promovem uma correção tranquila e um estabelecimento de limites que considera o nível de desenvolvimento mental e emocional das crianças.
Uma controvérsia no TikTok
No entanto, essas abordagens geram controvérsias entre muitos pais. Um exemplo marcante é a polêmica recente envolvendo a terapeuta e autora KC Davis, que explicou por que não gritou com sua filha de três anos quando ela desenhou na parede de casa.
A vídeo de Davis gerou indignação nos comentários, onde muitos internautas afirmaram que ela deveria tomar uma atitude mais severa, com alguns até sugerindo castigos físicos, acusando-a de criar uma criança desobediente e desrespeitosa, que se tornaria um pesadelo na escola.
É claro que, como em tudo, essas novas abordagens parentais podem ser levadas ao extremo, levando a uma reação negativa em relação aos pais que as utilizam para evitar conflitos e qualquer forma de disciplina.
Travis Manley, em contrapartida, defende que, quando se trata de crianças com problemas de disciplina na escola, não são essas que foram educadas de forma permissiva que apresentam dificuldades comportamentais.
Reconhecer crianças sob disciplina rígida

Manley afirma poder identificar crianças sob disciplina rígida, uma vez que elas frequentemente apresentam comportamentos inadequados quando longe dos pais.
“Consigo perceber rapidamente a disciplina que uma criança recebe em casa. Em uma semana, vejo se os pais gritam ou levam tudo muito a sério, se a criança é repreendida ou castigada por desenhar nas paredes”, compartilha Manley.
Ele explica que o comportamento calma dessas crianças não é por serem extremamente educadas, mas porque são as mais difíceis de gerir.
Manley argumenta que pais rigorosos acreditam que seus filhos se mostrarão extremamente respeitosos e corteses haja visto à vida adulta, mas acontece o oposto. Assim que estão longe de casa, com adultos em quem confiam e que não os reprimem, todos os instintos que precisam reprimir explodem nesse novo ambiente.
Essa dinâmica é semelhante a se recusar a dar biscoitos em casa; ao chegar a um lugar onde eles estão presentes, é um ataque imediato.
Disciplina rígida: um contraste contraproducente
Manley explica que o uso de disciplina estrita com crianças pequenas é contraproducente, pois excede a capacidade de compreensão do cérebro delas. O menino que desenha na parede não consegue compreender que isso é errado.
Referindo-se ao exemplo de Davis e sua filha, que desenhou na parede, ele enfatiza: “A lógica dela está completamente distorcida. Para ela, escrever na parede é simplesmente uma expressão de alegria e admiração”.
Isso não quer dizer que as crianças possam rabiscá-las à vontade, mas gritar com elas como se tivessem cometido uma atrocidade intencional não faz sentido. Isso é aterrador para uma criança que acredita ter feito algo feliz e encantador. Punir crianças por essa confusão ensina-as a ignorar suas emoções, prejudicando o seu desenvolvimento emocional e, frequentemente, resultando em consequências negativas para sua saúde mental a longo prazo.
Pesquisas científicas mostram que punições físicas, mesmo consideradas “leves”, estão ligadas a um aumento de comportamentos problemáticos e resultados acadêmicos inferiores. O que indica que tais punições não ajudam a criança a gerir melhor as suas emoções ou a se adaptar socialmente.
Uma abordagem suave e adaptada

Manley explica que, com seus colegas, orientam as crianças de que não podem escrever nas paredes, direcionando-as para papel, um quadro-negro ou qualquer outra atividade que lhes permita expressar-se.
Ele adiciona: “As crianças que não são punidas com medo em casa adaptam-se quase imediatamente a esse método pacífico e simples. Em contraste, para crianças que são gritas em casa sobre esse mesmo comportamento… levará talvez um ano de trabalho com elas.”
Em suma, as crianças simplesmente não conseguem compreender as situações como um adulto. Por isso, na escola, passam anos a colorir, brincar e cantar, ao invés de atender a aulas expositivas.
Seu cérebro está em fase de desenvolvimento, e suas travessuras não são resultado de insolência ou desrespeito, mas do fato de que não têm compreendido suficientemente suas emoções e impulsos.
Última reflexão: entender a realidade do desenvolvimento

Como Manley disse diretamente aos pais que criticavam Davis:
“Parem de transformar realidades do desenvolvimento em dilemas morais.” Gritar com seus filhos não ajuda; o que permanecem é a confusão e o medo.
As crianças não beneficiam de uma disciplina rígida baseada no medo, pois isso inibe seu desenvolvimento emocional e social. As metodologias de parentalidade respeitosa e reativa, que respeitam o ritmo e as emoções infantis, ao mesmo tempo que estabelecem limites claros, promovem **autonomia**, **confiança** e melhor **adesão** à escola.
Compreender como funciona o cérebro infantil transforma os desafios do dia a dia em oportunidades de aprendizado, ao invés de fontes de medo ou frustração. Ao invés de punir, guiar com paciência e empatia revela-se a abordagem mais eficaz para preparar as crianças a se tornarem indivíduos equilibrados e capazes de gerenciar suas emoções de forma saudável.




