Escrevo-te estas linhas, como todos, ainda sem grande noção da tua ausência física. Esta nossa condição humana é tão limitada que não nos permite entender claramente os desígnios de Deus, mas a Fé que Ele nos permite ter não deixa dúvidas que já aí estás em cima, a gozar o bocado de Céu que conquistaste na tua curta mas tão cheia passagem por cá. Uma coisa se tornou evidente nestes dias, já percebo porque é que és um homenzinho desde pequenino, nosso Senhor queria-te tão cedo que não tinhas tempo para ser criança.
Quando me perguntam a relação familiar que temos, és filho de um primo direito meu, um dos quatro primos que me são mais chegados desde que nasci, como irmãos. Quando nasceste eras como um sobrinho, andei contigo ao colo, não me esqueço que tinhas uma fixação comigo e me perseguias para onde eu fosse, eu para brincar levantava-me N vezes do sofá onde estava para passar para o outro e tu lá ias atrás até te fartares e dizeres “fica aqui Baga!”, ou quando fizeste 2 anos e a Mãe te perguntou que amigos querias convidar para a festa e respondeste “o tio Tó, o Baga e o João PC”. Acompanhei todo o teu crescimento e tornaste-te como um primo ou um irmão mais novo, afinal foste a pessoa que mais vezes dormiu no meu quarto, na cama ao lado da minha, muitas das vezes nem eu lá estava… e que saudades vou ter de te bater e chamar porco por te secares à minha toalha depois do banho, ou dormires com a minha almofada. Agora já bebíamos copos juntos tantas vezes, tínhamos conversas sérias, trocávamos tantas impressões sobre esta paixão que nos une, os cavalos, o grande foco da tua vida, várias vezes te disse que devias ainda assim acabar o 12º e tirar um curso porque não se sabe as voltas que a vida dá, mas embora na altura não te o pudesse dizer, tenho a certeza absoluta que irias ser muito bem sucedido como equitador profissional, aqui ou em qualquer parte do mundo! E esta nossa paixão, como me dizia depois da missa de segunda-feira o João André, ia trazer-nos um futuro de braço dado, eu a tentar continuar o trabalho do meu Pai a fazer cavalos bons e tu a continuar a montá-los brilhantemente e cada vez melhor. Eu prometo-te que o vou fazer e tu, aí de cima, inspira com esse teu dom quem os montar!
Não te esqueças de agradecer este teu sonho de te tornares um grande cavaleiro ao Tio Afonso que foi a tua primeira influência nos cavalos e puxou sempre por este teu entusiasmo. Ao meu pai que tudo te deu para que começasses a montar a sério, mas que também tudo te exigiu, chegaste lá com essa tua determinação e vontade de ser cavaleiro, não me posso esquecer, quando o teu Pai sugeriu ao meu que começasses a fazer provas no “Almansor”, acedeu na condição de emagreceres, pois “os cavaleiros não podem ser gordos”, é notável que um miúdo de 13 ou 14 anos tenha a força de vontade para perder 9kgs com essa idade em busca de um objectivo. Ao Pedro, o teu professor de equitação desde que começaste a montar até ao fim da tua vida! E que orgulhosos estão os três do nível que atingiste… E claro, à Mãe e ao Pai que tanto te apoiaram, investiram e acompanharam nesta tua vocação, pois era por demais evidente que ia ser o teu futuro. Tinhas realmente um dom para montar, mas não terias chegado onde chegaste sem esse foco e determinação!
Pois é Mé, e eu que tanto te dava na cabeça, sempre no gozo, também tenho tanto orgulho no teu percurso equestre, até aos 18 anos conseguir ganhar um campeonato nacional, ficar uma vez em 2º e outra em 3º, a juntar a mais 3 presenças no campeonato da Europa, é obra! Este teu último vídeo com o “Almansor” nas Silveiras é um deleite para os amantes da equitação, um espectáculo! Tenho muito orgulho também no miúdo que te tornaste, para além de te dares bem com todo o tipo de gente, nisto dos cavalos estares sempre pronto para ajudar a entrançar, ripar atar o rabo, ou o que quer que fosse, fazia-lo sempre com boa disposição e deixaste uma marca boa em todos aqueles com quem privaste. Já reparaste na quantidade de amigos teus que te consideram o melhor amigo? Nas centenas de pessoas que estavam na tua despedida desolados por não te poderem ter dado um último abraço? Orgulho-me e descansa-me tanto também o bom cristão que és, quando tinhas de ir montar domingo de manhã às Silveiras, ias sozinho à missa sábado à tarde, ganhaste a distinção do “+ Sairef” no teu último campo de férias, e ainda que só soube nestes dias que costumavas rezar o terço à noite ao telefone com a tua querida Di, que bom saber que tinhas tão novo um namoro tão sustentado em Nossa Senhora.
Ficaram coisas por cumprir… queria ter-te acompanhado e torcer por ti nos Jogos Olímpicos com um cavalo Lusitano, tu tinhas esse objectivo e eu não tenho quaisquer dúvidas que o irias atingir, queria que um dia conhecesses os meus filhos e conhecer mais tarde os teus (se eu me despachasse…), queria continuar a falar e a fazer cavalos e partilhá-los contigo até ser velhinho… e podíamos também ir os dois um dia aprender as dizer os LL!
Fazemos planos e esquecemo-nos que não sabemos quando vamos ser chamados por Deus, todos achávamos que ainda tinhas um percurso grande por cá, mas a verdade é que viveste estes 18 anos plenamente, fizeste muito e cumpriste o teu principal sonho de ser um grande cavaleiro. Partiste cedo mas a fazer o que mais gostavas, a montar cavalo, que fazias melhor do que andar a pé! De que melhor maneira poderia ter sido?! Não podia!
Partiste a galope, e nós ficamos cá cheios de saudades mas com a certeza e o conforto de que estás no Céu, na felicidade plena! Por isso peço-te, dá força e intercede junto de Deus pela Mãe, o Pai, o Rodas, a Carmo, os Tios, os Primos, as Avós, os Bragas, a todos os amigos dos pais que partilham esta dor com eles, à Di e todos estes teus amigos que são um espectáculo de miúdos e têm muitas saudades tuas!
Gosto tanto de ti Mé…
Um grande beijinho do teu prime lindo, como te disse, não podíamos ser todos feios na família!











