“Predigoto” de alma grande

Crónica

Na sexta-feira, dia 29 de Junho, pelas 20h00, a bonita Praça de Toiros da Ilha Terceira acolheu uma Corrida Concurso de Ganadarias, a terceira corrida englobada na Feira de São João, contenda que se assume como uma das mais importantes do país, tanto pela história como pelas figuras que pisam a arena.

Aqui respeita-se o toiro, somos reconhecidos por isso, naquela que é sem dúvida a ilha do Toiro, e um dos lugares no mundo onde mais se venera tal animal.

Para a corrida concurso, entraram em praça os cavaleiros Vítor Ribeiro, João Moura Jr. e o açoriano João Pamplona. Forcados da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e Amadores de Merced, este último grupo que viajou da Califórnia (Estados Unidos da América), fazendo assim o seu debute nesta região insular. Relativamente ao campo ganadeiro, toiros de Rego Botelho, José Albino Fernandes, Ascensão Vaz, Falé Filipe, João Gaspar e Francisco Sousa. São Pedro teve em conta os aficionados que nas bancadas compuseram uma forte moldura humana, caindo a espaços uma chuva miudinha que não fez arredar pé. Na plateia, marcaram presença um grupo de aficionados oriundos de França, Peña Taurine de Dax. Ao início da corrida, sentido minuto de silêncio em memória de José Valadão, figura da tauromaquia açoriana.

Abriu praça Vítor Ribeiro, cavaleiro que reapareceu esta temporada, e em boa hora. Quem sabe não esquece, e na sua primeira lide deu prova disso mesmo, frente a um bem apresentado toiro de Rego Botelho, o n.º88 mostrou bravura e arrancava de pronto. Ribeiro toureou de forma irrepreensível, colocou bem o oponente, cravando no sítio e com emoção, reuniões ajustadas, ferros de verdade com o toiro por alto. Classe do cavaleiro aliada à qualidade do hastado, que tinha trapio quanto baste, surtiu numa lide que ficou na retina dos aficionados. Quanto às pegas, abriram as hostes os Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense. João Silva realizou uma dura pega à segunda tentativa.

O segundo da ordem, com a divisa vermelha e verde da ganadaria José Albino Fernandes, coube em sorte a João Moura Jr. Dos curros saiu um camião, toiro mais pesado da corrida, com 626 kg, mas que ainda antes da cravagem do primeiro comprido ficou inutilizado. Foi recolhido após ordem do director de corrida Mário Martins, e saiu à arena o sobrero da mesma casa de bravo, um flavo com o n.º14 no costado. O cavaleiro esteve por cima do oponente, realizou bregas a curta distância, e tentou agarrar o público com uma lide esforçada. Destaque para o segundo ferro curto, perante um Albino que transmitia pouco e era difícil de colocar. O toiro foi pegado pelo forcado da cara João Azevedo, cabo do Amadores de Merced, fechando-se ao segundo intento.

João Pamplona tinha ganas de fechar com chave de ouro a primeira parte da corrida, mas para tal não teve a colaboração desejada do seu oponente, um toiro de Ascensão Vaz, com 504 kg. Toiro também de apresentação condigna mas complicado em comportamento. Destaque para o 3º e 4º curtos, com o cavaleiro do Posto Santo a ter que ir acima do toiro, trabalhou com afinco e saiu da praça com o público a pedir mais, mostrando assim reconhecimento pela lide consomada. Tomás Ortins, envergando a jaqueta da T.T.T, realizou uma vistosa e grande pega à primeira tentativa.

Frente ao hastado da ganadaria continental de Falé Filipe, número 28, lide segura para Vítor Ribeiro, mas sem chegar ao nível da que teve frente ao seu primeiro do lote. Depois da cravagem comprida um pouco traseira, arrimou-se nos curtos, e mesmo depois de um segundo ferro em falso, redimiu-se com ferros de verdade. O toiro cumpriu a função, e o cavaleiro terminou a sua lide com um curto em sorte violino e por entre tábuas. Tony Oliveira do grupo de Merced, brindou ao público e concretizou à primeira rija pega, aguentando-se com braços de ferro na cabeça do toiro.

O “Veludo”, um preto meano e muito bem feito de córnea, em representação da ganadaria de João Gaspar, calhou em sorte ao cavaleiro de Monforte. Moura Jr. teve melhor sorte e engenho tendo em conta a primeira corrida desta feira. Esteve a gosto, entendendo na perfeição o que o toiro tinha para dar. Tirou partido da arrancada larga do seu oponente e com mão certeira rubricou uma lide alegre e a empolgar a afición terceirense, aprimorando-se com adornos e piruetas na cara do toiro, em remate à cravagem dos ferros. Para a cara do imponente João Gaspar, Hugo Jesus pegou ao primeiro intento e sem complicações, despediu-se em seguida, retirando a jaqueta da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, que ao longo de anos honrou. Volta aclamada para cavaleiro e forcado.

Para terminar a noite, entrou em praça o cavaleiro da Quinta do Malhinha. Mais um desafio de montra para um cavaleiro com poucas actuações, que só por culpa da insularidade, não permite entrar em mais cartéis, e o mesmo se diz do irmão Tiago e dos dois grupos de forcados locais. João Pamplona lidou o “Predigoto” da ganadaria Francisco Sousa. Toiro pequeno mas de alma grande! O cavaleiro dobrou-se bem com o oponente, levou-o na garoupa da montada, com bregas a curta distância e emotivas. Certeiro na ferragem, com destaque para o quarto curto, numa lide em crescendo, com ligação e emoção, frente a um toiro alegre e codicioso, um bravo. Com cite de meia praça, Tony Melo consomou à primeira pelos Amadores de Merced.

No final, todos os intervenientes foram chamados à arena, para se proceder à entrega dos prémios em disputa. O júri (anunciado previamente) decidiu assim que a melhor lide foi a de João Moura Jr. frente ao quinto da tarde. Quanto ao melhor grupo de forcados, o júri decidiu entregar o prémio ao grupo da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, pela pega consomada por Tomás Ortins. A ganadaria de João Gaspar arrecadou o troféu de melhor apresentação, toiro lidado em quinto lugar, sendo que o premio de melhor toiro foi atribuído ao nº 14 de Francisco Sousa, o último da ordem lidado por João Pamplona.

Ultimos Artigos

Artigos relacionados