Pensamento do dia de Epicteto: “Se você realmente quer progredir, pare de querer parecer inteligente aos olhos dos outros”


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O progresso não se faz ao dar a impressão de saber tudo. A verdadeira evolução começa quando aceitamos reconhecer o que nos escapa. O desconforto que surge de um simples “não sei” pode ser o preço a pagar para realmente aprendermos algo. Imagine uma reunião em que alguém lhe faz uma pergunta cuja resposta desconhece, e, de repente, todos os olhares se voltam para si.

O nosso primeiro impulso é frequentemente proteger a imagem que projetamos. Improvisamos uma resposta vaga, mantemos um tom convincente ou acenamos como se tudo estivesse claro. Reconhecer a ignorância parece menos aceitável do que qualquer outra alternativa.

Durante muito tempo, acreditei que a vergonha era o verdadeiro obstáculo, bastando aprender a suportá-la. Hoje, vejo que ao fingirmos saber, fechamos a porta ao aprendizado. Os outros assumem que já conhecemos a resposta e ninguém se esforça para nos ensinar. Saímos do local com as mesmas lacunas que trazíamos, tendo despendido energia a ocultá-las.

Quero esclarecer que não sou filósofa nem psicóloga. Este texto reflete apenas minha análise, que é alimentada pela minha experiência pessoal e por algumas pesquisas que parecem seguir a mesma linha. Os estudos discutidos são sobre populações e contextos específicos, oferecendo caminhos de reflexão, e não verdades universais aplicáveis a todos.

O instinto de parecer competente

Imagens Pexels e Freepik

O nosso reflexo é claro: proteger a imagem que transmitimos aos outros. Reconhecer um erro ou admitir a ignorância pode pôr em risco a nossa credibilidade. Por isso, procuramos parecer competentes, como se essa imagem fosse uma proteção.

Épicteto propõe inverter esta lógica. No capítulo 13 do seu Manual (Enchiridion), incentiva quem deseja progredir a aceitar passar por ignorante ou ingênuo, ao invés de buscar dar a impressão de saber tudo.

O que realmente importa está no início: “se desejas progredir”. Épicteto não ensina a se tornar mais simpático ou modesto. Ele se dirige a quem realmente quer evoluir e alerta sobre o que pode impedir isso — dedicar demasiada energia à imagem em vez de procurar aprender.

Esta ideia está alinhada a outro princípio fundamental do estoicismo: separar aquilo que está sob nosso controle daquilo que não está. Já abordámos este conceito em nosso artigo sobre Épicteto e como reagimos aos acontecimentos.

O desejo de parecer informado e o aprendizado

Épicteto discorre sobre esse tema nas conversas, particularmente no livro II, capítulo 17. Para começar a aprender, é necessário primeiro abandonar a certeza de que já sabemos. É difícil adquirir conhecimento quando acreditamos que já o possuímos.

Nesse contexto, a pretensão não é apenas um defeito, mas sim um obstáculo concreto ao aprendizado.

Parecer informado tem o mesmo efeito nas nossas interações sociais. Se você finge conhecer a resposta, as pessoas ao seu redor acabarão, naturalmente, por não a explicar. Ao tentar proteger sua imagem, você se priva da informação que realmente necessitava para progredir.

Esta reflexão ressoa com outro artigo do nosso site dedicado às pessoas que admitem honestamente o que não sabem.

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A nossa atenção não é ilimitada

O capítulo 13 do Manual contém outra ideia interessante. Épicteto destaca que é difícil trabalhar em nós mesmos enquanto estamos preocupados com fatores externos, pois focar em um deles pode fazer com que negligenciemos o outro.

A nossa atenção é limitada. Sempre que nos perguntamos como somos percebidos, dedicamos menos energia ao problema que realmente queremos compreender.

Esse fenômeno é evidente em reuniões. Quando uma pessoa se preocupa em preparar sua próxima intervenção enquanto outra está falando, já não escuta completamente o que está a ser dito.

Reflexões sobre a aceitação da ignorância

Foi necessário algum tempo para que eu compreendesse esta dinâmica. E ao recordar os meus anos de escola, percebo que quando um aluno perguntava a um dos meus professores, que tanto admirava, e ele não sabia a resposta, simplesmente a reconhecia. Isso desencadeava uma situação proveitosa: ele fazia pesquisas e, na semana seguinte, voltava com uma resposta geralmente muito melhor do que aquela que poderia ter improvisado.

Quando tentava contornar a pergunta ou ocultar a incerteza, nada realmente progredia. A questão permanecia sem resposta satisfatória e, acima de tudo, ninguém aprendia algo significativo.

Seus alunos aceitavam geralmente bem um simples “não sei“. No entanto, essa postura pode tornar-se um armadilha se se transformar numa estratégia para parecer humilde ou conquistar simpatias. O fundamental é ser simples: dizer honestamente que não se sabe, e depois dedicar-se a procurar, compreender e aprender.

Essa reflexão também se associa a uma discussão sobre pequenas frases que podem inspirar respeito, em que o “não sei” é associado à honestidade intelectual e à disposição de aprender.

Observações sobre este fenômeno no dia a dia

Com o tempo, percebi que esse mecanismo não dizia respeito apenas ao estudo ou ao trabalho. Ele também se manifesta em conversas cotidianas, especialmente quando duas pessoas discordam e se esforçam mais para defender sua posição do que para entender a do outro.

Lembro-me de ter continuado um debate mesmo percebendo que alguns dos meus argumentos eram frágeis. A partir do momento em que aceitei simplesmente dizer “podes ter razão nesse ponto”, a conversa transformou-se completamente.

Deixou de ser uma disputa para determinar quem venceria e passou a ser uma busca por entender o que realmente é justo.

Isso não significa, no entanto, que aceitar um erro seja sempre fácil, nem que a outra parte esteja sempre certa. O mais importante é manter a capacidade de reavaliar seu juízo quando novos elementos surgem que o demandam.

Uma decisão ponderada que se revela errada pode transformar-se numa fonte de aprendizado, pois é possível revisitar o raciocínio que a gerou. A negligência repetida é diferente. No primeiro caso, é necessário reconhecer o erro e analisá-lo. No segundo, o foco deve ser evitar que se repita.

O que as pesquisas dizem sobre a vulnerabilidade

Em 2018, Anna Bruk e seus colegas da Universidade de Mannheim estudaram o que chamaram de “beautiful mess effect”, traduzido como “efeito do belo desarranjo”. O British Psychological Society apresenta esses trabalhos.

As experiências sugerem que tendemos a julgar nossas manifestações de vulnerabilidade de forma mais severa do que as dos outros. O que interpretamos internamente como fraqueza pode ser visto de maneira mais positiva por quem nos observa.

Isso pode tranquilizar na hora de reconhecer um erro ou a própria ignorância. Porém, Épicteto diria, provavelmente, que se a nossa decisão ainda depender totalmente do que os outros pensam de nós, continuaremos presos ao problema original.

As investigações podem nos lembrar que o custo que imaginamos pode ser exagerado. A filosofia estoica oferece outra abordagem: aprender a não deixar que esse custo seja o principal critério das nossas decisões.

Não transformar a humildade em espetáculo

Há ainda um armadilha mais difícil de evitar: querer mostrar o quanto estamos confortáveis com nossa ignorância. Isso acaba sendo uma substituição de uma maneira de cuidar da imagem por outra.

A solução é muito mais simples.

Quando não souber, basta dizer: “não sei”. Não é necessário multiplicar justificativas ou tentar salvar as aparências.

Depois, faça o que importa: procure obter a resposta.

Faça a pergunta que não se atreve a formular porque acredita que todos sabem já a resposta. Reconheça o que não funcionou. Aceite momentaneamente não parecer competente se isso permitir que compreenda algo que desconhece.

Se o objetivo for realmente progredir, parecer sábio conta muito menos do que realmente se tornar.

Essa abordagem também se alinha a uma perspectiva estoica que enfatiza focar no progresso em vez da aparência ou da perfeição.

Por fim, esta reflexão filosófica não substitui, de forma alguma, um acompanhamento profissional. Quando o medo do julgamento ou do ridículo se torna excessivo e impacta a vida pessoal ou profissional, falar com um profissional qualificado é a abordagem mais apropriada do que uma citação filosófica ou um artigo online.

Este artigo destina-se apenas a fins informativos e reflexivos. Não constitui de forma alguma um aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções aqui discutidas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não configuram uma avaliação clínica. Para sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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