Num Concurso de Bravos, Moura triunfa e toureou como no pátio de sua casa

Crónica

Num Concurso de Bravos, Moura triunfa e toureou como no pátio de sua casa

  • 15 de maio de 2022, Évora
  • 62º Concurso de Ganadarias
  • Cavaleiros: Luís Rouxinol, João Moura Jr e João Salgueiro da Costa
  • Forcados: Montemor e Évora
  • Ganadarias: Branco Núncio, Murteira Grave, Passanha, Santa Maria, Romão Tenório e Calejo Pires
  • Direção de Maria Florido assessorada por Ana Gomes.
  • Praça a 3/4 de lotação

No alvorecer da década de 1960, e em particular no ano zero, houve grandes acontecimentos que marcaram o mundo… Portugal vivia no esplendor do Estado Novo, o Professor Salazar era o Presidente do Conselho, nascia Diego Maradona, Maurício Vieira de Brito contratava para o Benfica Eusébio da Silva Ferreira, Amália canta Pedro Homem de Melo e já pensa no Busto de Alain. E em Évora Joaquim Grave, José Tello Barradas e Florindo Silva, sonham e criam aquele que até hoje nos aquece as almas e é o maior estandarte do toiro em Portugal. Aquele que é conhecido, cantado e aceite entre todos como o “Mais Antigo e de Maior Prestígio do Mundo Taurino Português”, o Concurso de Évora. Aquele que todos os ganaderos sonham com ter um dos seus toiros a concurso. Se me dão licença nestas palavras que vos escrevo presto a minha homenagem a duas senhoras muito ligadas a esta corrida mítica… Maria Tereza Vasconcelos e Sá Grave e Maria Antónia Tello Barradas, senhoras que nos deixaram recentemente e que sem dúvida também foram responsáveis no mínimo por “aturarem” dois dos obreiros deste acontecimento… O Hino à bravura do toiro a ser premiado entre as ganadarias mais importantes do mundo!

Ontem possivelmente todos os que já partiram e foram tantos… gritaram olés dos tendidos dos céus, como nós cá na terra menos exuberantes festejamos a Festa da Bravura. O Concurso de Évora foi memorável!… Se em Madrid se festejava o dia do Santo Patrón (San Isidro), em Évora também se podia festejar a efeméride de José Mestre Batista ter cedido a Joaquim Bastinhas o toiro Magala de Núncio (ano 83); Ou o “Jabato” de Atalaya ser o primeiro dos “moicanos” a ter um lápide na Velhinha Praça de Évora; João Patinhas pegara rijamente um Lampreia em 66; Um toiro de nome Trinta e Cinco do solar de Galena é lembrado em escritos antigos como um dos melhores que se lidaram nesta ou naquela arena; Ou quando José Núncio de amador dá uma volta abraçado ao Eng. Grave e a Zita Cortes. Coisas antigas, saudades loucas.

 

Foi ontem o 62º Concurso de ganadarias, só em 1984, 2006 e 2020, não se realizou esta corrida. Houve em 1971 dois concursos, um a cavalo e outro picado. E este que vos escreve estas palavras desde 1985 que se lembra de todos e não perde nem um… Escrevo e assino, este foi histórico!

Não queria estar na pele do Júri (Tertúlia Tauromáquica Eborense) , ao qual dou os meus sinceros parabéns por ter decidido de maneira justa. Não é fácil dizer qual é o mais bravo quando existem muitos que têm credenciais para o poder ganhar! Na apresentação todos dignos de concurso.

 

Abriu praça um toiro de Santa Maria, gordo, rematado por todos os lados, negro de capa e cara toureira. Foi o menos disponível da corrida, foi nobre mas faltou-lhe a alma para poder romper.

O de Calejo Pires foi o segundo, toiro altivo, bem posto de cara, agressivo de tipo mas bem proporcionado. Bravo, disponível, a arrancar de todos os sítios sempre que solicitado. Meteu bem a cara nos capotes, foi bruto e duro nos forcados, não humilhou tanto quanto o pretendido.

De Branco Núncio foi um negro listão que fez terceiro! Algo bisco mas “guapo”. Toiro de saída exuberante a perseguir o cavalo de rabo no ar, sempre disponível a acometer aos cites, a investir nos capotes e a vir franco para o forcado. Bravo!

Se o peixe estava caro, o da Pina ainda o pôs mais… O Passanha estava rematado, tinha um quarto dianteiro imponente, astracanado. Um Tio! Toiro encastado, bravo a acometer com raça a tudo que lhe era solicitado.

Do distrito de Portalegre veio o maior dos seis… Imponente o de Romão Tenório, alto, comprido e com cara. Outro bravo… Mobilidade, acometida, raça e nobreza.

De Galeana foi o sexto e para mim foi a pintura do toiro sonhado, baixo, reunido e acapachado de cara . Nobre, metendo a cara por baixo nos enganos, disponível Bom toiro também o de Murteira Grave.  

Decidiram os jurados atribuir o prémio de apresentação ao de Murteira Grave e o de Bravura ex aequo ao Calejo Pires e Passanha.

 

Luís Rouxinol foi o encarregado de abrir praça e ter que lidar o que menos chegou ao público. Nos compridos o segundo é de boa nota, bem a colocar o toiro e a tentar alegrar a investida do apagado oponente. Nos curtos o primeiro tem som e o terceiro foi dos bons, bonito o remate! O de Pegões andou em bom plano a abrir esta tarde, tentando dar tudo para meter os presentes na corrida.

No quarto, ui, no quarto! Luís picado por Moura e Salgueiro  disse que os 35 anos de alternativa eram um posto. Grande lide, todos de acordo. Quase que houve fumo saído das mãos dos que aplaudiam alguns ferros, tal foi a emoção e verdade vividas na arena de Évora diante do bravo Passanha. Bem nos compridos, abrindo caminhos ao toiro. Os curtos foram exuberantes, poderosos, que ferro o segundo e terceiro! Rematou com graça as sortes. O palmo com que finalizou a lide foi a cereja em cima do topo do bolo de um grande triunfo.

 

João Moura Jr, quando vem a Évora parece que toureia no pátio de sua casa e de alguma maneira Évora é mesmo isso. Ontem, na arena, simplesmente bordou toureio, lembrando-nos as suas tardes gloriosas de 2019, por exemplo. As ovações retumbantes, sinceras, de autêntico clamor que se ouviram ontem ao redor da Avenida Humberto Delgado, onde se encontra esta praça de toiros, ressoavam a glória de paixão, compartilhada e consensual. Que tarde de Moura Jr.! A arte do toureio, qualquer que seja a disciplina, o intérprete, o momento e o lugar, quando se solta e culmina na inspiração, comove como poucas outras artes. No seu primeiro fez o que se tem que fazer num concurso de ganadarias, mostrou, deu vantagens, lidou e triunfou diante do bravo Calejo. Bem nos compridos, superior nos curtos. Foram de nota de registo primeiro, o segundo. Que remate aquele?! O quarto levantou o público das bancadas e o palmo com que fechou a lide só me merece um, olé!

No quinto, voltou picado pelo triunfo de Rouxinol e rematou a obra. Novamente mostrou o toiro, bregou como poucos, ladeou, rematando por dentro com a marca da casa, fazendo brotar os aplausos dos presentes de forma espontânea. Cravou um comprido em sorte de porta gaiola, nos curtos armou taco com as Mourinas e com os remates das mesmas parecendo que o cavalo era um capote. Rematou a obra com um palmo de praça a praça, levando o toiro depois do ferro embebido no cavalo, proporcionando um daqueles momentos únicos de toureio. Olé!

 

João Salgueiro da Costa, abriu a sua actuação com um ferro em sorte de gaiola que não partiu, mas com o toiro a carregar e o de Valada a levar o Núncio embebido no cavalo. Bonito e empolgante momento de toureio a cavalo.

Nos curtos houve bons momentos de toureio, destaque para terceiro e quarto curtos, cravando ao estribo ferros com verdade, remantando os mesmo de bonita e toureira forma.

No que fechou praça Salgueiro cravou os compridos de forma solvente. Partiu para os curtos com vontade de triunfo, cravou bons ferros, rematou e aproveitou as acometidas do toiro depois de cravar. Mais em curto e entrando nos terrenos do toiro deixou um par de ferros de boa nota, encadeados com remates toureiros.

 

Para as Pegas Montemor e Évora. Aqui há que referir alguns momentos… Bonita e amiga a homenagem do cabo António Pena Monteiro, de Montemor, ao cabo de Évora João Pedro Oliveira, um retrato de seu pai, a lembrar a figura emblemática de João Pedro (Pai), no mundo dos forcados. Sentido o brinde de Francisco Borges a João Pedro Oliveira… Brotaram lágrimas dos olhos de ambos forcados… Grande tarde de Montemor e Évora de menos a mais acabando em plano de triunfo.

 

Abriu Francisco Borges com um cite bonito, calmo e sem espalhafatos o Francisco soube entrar nos terrenos do toiro, deixou vir para reunir bem e com decisão, uma grande pega pelos de Montemor.

Francisco Bissaya Barreto, teve bonito cite, reunião perfeita, grupo a ajudar de forma coesa. Quanto a mim na pega da tarde.

Vasco Ponce fez uma pega séria num toiro sério, tudo bem feito que até parece fácil, e mais uma vez o Grupo espectacular a ajudar. Grande ajuda do cabo, merecedor de volta à arena.

 

Pelos Amadores de Évora, João Madeira duas vezes derrotado e conduzido à enfermaria. Toiro duro, a bater por cima, com o João a não se conseguir fechar, também o primeiro ajuda saiu maltratado e foi conduzido à enfermaria. Para a dobra o cabo João Pedro Oliveira, pega complicada com o grupo a resolver já com ajudas mais carregadas.

Dinis Caeiro saltou para a cara do quarto, o toiro era sério mas bom, bem a citar, receber, com o grupo a ajudar.

Fechou a tarde José Maria Caeiro, numa pega bonita, trouxe o toiro toureado, reuniu bem, o grupo ajudou e a pega foi executada à primeira tentativa.

 

Dirigiu a corrida Maria Florido, sendo a médica veterinária Ana Gomes.

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