Noite triunfal na Arena D’ Almeirim

Crónica

São poucas quaisquer palavras que se possa utilizar para descrever todas as emoções vividas ontem na Arena D’ Almeirim. Corrida com triunfos repartidos por todos os artistas, toiros na sua maioria a não complicarem, um público que esgotou a lotação permitida, carinhoso com os toureiros, pegas bastante bem conseguidas, com especial destaque para a última da corrida, certamente uma das pegas da temporada.

Estavam, à partida, reunidos os ingredientes para que a noite fosse triunfal. Cartel bastante bem rematado, realçando o trabalho da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim e a excelente gestão de Rui Bento, que com muito labor formaram um cartel diferente, numa competição saudável entre figuras consagradas e jovens que lutam diariamente por atingir o tão sonhado patamar de figuras do toureio.

Na parte equestre vimos, pela primeira vez a tourear juntos nesta temporada, Luís Rouxinol, figura consagrada do nosso toureio equestre e Luís Rouxinol Jr., jovem que luta todos os dias e que está no caminho certo para chegar a figura, que não se pouparam a esforços para triunfar. Na parte apeada o matador espanhol António Ferrera, já consagrado como figura máxima da tauromaquia e sem nada a provar a ninguém, que sacou um faenon onde parecia não o haver no segundo toiro do seu lote. E por fim Diogo Peseiro, que foi talvez o toureiro que mais sobressaiu nesta agradável noite de toiros. Tudo o que fez foi bem feito e a procurar triunfo. E só assim se chega a figura do toureio.

É certo que, nisto do toureio, não basta ter vontade e saber tourear, mas é um grande passo para se alcançar os objetivos e, se não lhe faltarem as oportunidades, Diogo Peseiro será certamente um caso do toureio a pé em Portugal. Completaram o cartel os Forcados Amadores da Chamusca e lidaram-se toiros de São Marcos e David Ribeiro Telles.

Abriram praça os cavaleiros Luís Rouxinol e Luís Rouxinol Jr., que lidaram a duo um exemplar, tal como os restantes destinados às lides equestres, de São Marcos, que acabou por ser voluntarioso, embora lhe escasseassem as forças. Luís Rouxinol Jr. recebeu o toiro com uma sorte gaiola e o Luís Rouxinol pai cravou logo no ressalto. Nos curtos, a lide foi em crescendo, sendo notória a ligação e o entendimento entre ambos os cavaleiros, acabando a lide por ser bastante agradável.

A solo, Luís Rouxinol realizou uma lide boa do princípio ao fim. Lidou um toiro que colaborou para a função, tendo mobilidade. Recebeu muito bem o oponente cravando dois ferros compridos de nota elevada. Nos curtos, montando Douro, deu uma lição de brega, levando o toiro junto à barriga do cavalo, templando-lhe a investida. Muito bem o toureiro de Pegões. Cravou uma bonita série de curtos. Terminou a lide com um bom ferro de palmo e um extraordinário par de bandarilhas.

Luís Rouxinol Jr. não quis deixar os créditos por mãos alheias. Mais uma vez, a sorte não esteve do seu lado na hora do sorteio e tocou-lhe o mais complicado dos toiros destinados às lides equestres, mas Luís Rouxinol Jr. deu-lhe a volta e a atuação foi triunfal. Recebeu bem o oponente sem o auxílio dos bandarilheiros, deixando-o perfeitamente colocado para a ferragem comprida. Nos curtos a atuação foi a mais, destacando-se o segundo e os últimos dois ferros curtos, de soberba execução. Tudo bem feito, com a lide a ir a mais e a terminar com o triunfo no bolso.

As pegas desta noite estiveram a cargo dos Forcados Amadores da Chamusca, capitaneados por Nuno Marecos. Abriu praça Pedro Moreira, que consumou a pega ao primeiro intento, fechando-se bem à barbela com o toiro a não complicar. Francisco Borges pegou o sexto toiro da noite. Na primeira tentativa o toiro colocou mal a cara e não permitiu que o forcado se fechasse. Na segunda novamente o forcado a não se conseguir fechar. Consumou à terceira tentativa com o grupo a ajudar bem. Francisco Rocha foi o encarregado de fechar a atuação dos Amadores da Chamusca. Na primeira tentativa, bastante rija, o grupo não conseguiu levar de vencido o exemplar de São Marcos. Na segunda tentativa, um pegão daqueles que marcam temporadas. O touro deu derrotes daqueles que só um grande par de braços consegue aguentar, grande pegão! No final foi duas vezes aos médios e foi obrigado a dar volta à praça com o público de pé.

António Ferrera abriu a parte apeada da corrida, lidando um toiro de David Ribeiro Telles que foi nobre, falando aquela chama de transmissão. Era escasso de forças. No seu primeiro andou discreto com o capote. Diogo Peseiro saiu ao quite por gaoneras. Muito bons pares de bandarilhas de João Ferreira e Filipe Gravito. Com a muleta, faena larga de António Ferrera, na qual o temple e a suavidade foram as palavras de ordem. A faena foi a mais, tendo o seu ponto mais alto nas últimas séries por derechazos e nos naturais com despaciosidad. O saludo capotero do seu segundo toiro, também da Ganadaria David Ribeiro Telles, foi também discreto, destacando-se positivamente a meia verónica com que rematou. Seguiu-se um quite “al alimon”, repartido entre António Ferrera e Diogo Peseiro, no qual o maestro Ferrera foi colhido com aparato, tendo sido assistido pelo Dr. António Peças. O tércio de bandarilhas foi irregular, visto que o toiro esperava no momento da cravagem. Ferrera recompôs-se da colhida e regressou à arena para a faena de muleta com uma entrega e uma garra desmedidas. Esteve sublime na forma como ensinou o toiro a investir para depois lhe sacar tudo o que tinha e o que não tinha. Faena por ambos os pitóns com temple e arte. Público rendido ao seu toureio. Finalizada a parte apeada da corrida, António Ferrera deixou a praça, a fim de realizar exames complementares no Hospital de Santarém, para descartas possíveis lesões inerentes à colhida no segundo do seu lote, com o público de pé com uma sonora ovação.

Completava o cartel o jovem novilheiro Diogo Peseiro, toureiro da terra. Lidou em primeiro lugar um toiro de David Ribeiro Telles, toiro que transmitiu e contribuiu para a faena. Recebeu-o bem com uma série de largas afaroladas de rodilla em tierra com muito valor e risco. Bonito quite por chicuelinas com a mão baixa e ao ralenti. Depois, no tércio de bandarilhas, a praça foi abaixo tal a intensidade das ovações. Três pares de bandarilhas brilhantes, o último deles al quiebro e em sorte violino. No segundo par, rematou com o toiro a perseguir o toureiro que, com uma imensa toreria e um valor fora de série, aguentou as investidas do toiro. Olé! Com a muleta, Diogo Peseiro realizou uma grande faena, derechazos profundos fizeram parar os relógios na Arena D’ Almeirim. Ligação, cadência e ritmo até não haver mais. Sacou tudo o que o toiro tinha para sacar e emocionou o público. Terminou com bonitas luquesinas. Público de pé em sonora ovação ao novilheiro português! Trinfo importante na praça da sua terra. À porta gaiola e de rodilla en tierra recebeu Peseiro o segundo do seu lote com uma larga afarolada. Em bandarilhas andou bastante bem terminando com um bom par a quiebro. Na muleta, esteve muito por cima do toiro de São Marcos, numa faena em que soube mandar no toiro e tirar-lhe tudo o que tinha. Uns furos abaixo da sua prestação anterior, dado que se enfrentou com o mais complicado do lote para a parte apeada, mas ainda assim com cheirinho a triunfo. Público novamente rendido ao toureio deste jovem novilheiro. Fortíssima ovação nos médios no final com forte aclamação de volta ao ruedo, não permitida pelo diretor de corrida, após nos seus primeiros toiros ambos os toureiros apeados terem dado a volta. Triunfo estrondoso!

A corrida foi dirigira por Marco Cardoso, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luís Cruz.

Nota de destaque para o facto de os lucros da corrida serem utilizados em projetos de solidariedade social da Santa Casa da Misericórdia de Almeirim.

 

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