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Algumas pessoas dedicam-se imensamente ao bem-estar dos outros, sem nunca contabilizar o que recebem em troca. Assim, tornam-se os suportes da comunidade, aquelas para quem todos se voltam nos momentos difíceis. Contudo, por trás desta presença constante, pode residir uma grande solidão. Estudos indicam que indivíduos extremamente bondosos, com poucos amigos íntimos, não se encontram nesta situação por acaso. Ao ouvirem, ajudarem e apoiarem quem os rodeia, podem tornar-se essenciais na vida dos outros, levando a que a sua própria vulnerabilidade passe despercebida.
Num grupo de amigos, a pessoa mais isolada nem sempre é a que gera conflitos. Muitas vezes, é quem está sempre disponível, quem transporta os outros para o aeroporto ou quem se lembrará de um compromisso médico importante na família.
Através dos olhos dos outros, esta atenção pode criar a imagem de uma pessoa cercada e querida, o que é frequentemente verdadeiro. No entanto, surge uma dinâmica em que ser útil acaba por ocupar mais espaço do que se sentir verdadeiramente conhecido e apoiado, resultando numa imprescindibilidade que pode isolar sem que haja alguém em quem se possa apoiar.
Quando as pessoas muito bondosas se esquecem de si mesmas

Em psicologia, este comportamento é associado ao que os investigadores chamam de comunhão absoluta, a tendência de priorizar tanto as necessidades dos outros que as próprias ficam sempre em segundo plano.
Vicki Helgeson e Heidi Fritz exploraram a diferença entre esta atitude e uma benevolência equilibrada, onde ser caloroso e atento é tido como positivo, desde que não se torne excessivo. Pesquisas associaram esta tendência a uma maior angústia psicológica e a a negligência das suas próprias necessidades.
Estudos adicionais estabeleceram uma ligação com um investimento relacional excessivo e uma inclinação para a submissão, dois mecanismos que podem criar relações desequilibradas.
Nestes casos, a pessoa pode parecer muito atenta, mas a diferença reside no facto de uma reconhecer as suas próprias necessidades, enquanto a outra as apaga.
Por que as pessoas muito bondosas recebem por vezes menos apoio
Tendemos a moldar a nossa perceção dos outros a partir do que eles nos revelam frequentemente. Quando alguém está sempre presente, nunca pede nada e parece enfrentar sozinho as dificuldades, os outros podem concluir que essa pessoa não precisa de ajuda.
Frequente é que ninguém decide abandoná-la. O apoio simplesmente não surge, porque quase nunca se dá a oportunidade de mostrar que precisa de algo.
Este paradoxo é comum entre aqueles que têm um coração generoso, mas que não mantêm amizades próximas. São apreciados e disponíveis, mas a sua própria vulnerabilidade permanece invisível.
Além disso, essa inclinação para ser acessível pode ultrapassar o campo da amizade. Um estudo com quase 10 mil trabalhadores ao longo de vinte anos constatou que os homens com personalidades agradáveis ganhavam menos do que aqueles que eram menos conciliantes, enquanto essa diferença era muito menor nas mulheres.
Embora isto represente apenas uma associação e não uma prova de que a bondade diminui os salários, sinaliza um fenômeno interessante. Quando alguém raramente pede mais, os outros podem habituar-se rapidamente a aceitar as coisas como são.
O que a pesquisa revela sobre a reciprocidade

A questão do equilíbrio entre dar e receber não se limita ao emocional. Um estudo feito com uma amostra representativa da população americana analisou, durante 23 anos, as ajudas concretas trocadas, como transporte ou cuidados infantis.
As pessoas com intercâmbios mais equilibrados apresentaram um risco de mortalidade mais baixo do que aquelas nos extremos — ou seja, as que davam muito mais do que recebiam, ou vice-versa.
Contudo, estes resultados devem ser encarados com cautela. O estudo é de correlação, não estabelecendo uma relação direta de causa e efeito. Além disso, uma pesquisa posterior com idosos a receber cuidados em casa não reproduziu estes achados.
Assim, é prudente concluir que dedicar anos a dar muito mais do que se recebe pode criar um desequilíbrio relacional que merece ser observado.
Uma pesquisa datada de 1998 sobre amizades revelou que a solidão estava mais presente em pessoas que se sentiam particularmente desfavorecidas, independentemente do equilíbrio real da relação, demonstrando que a perceção conta muito.
Uma pergunta simples para avaliar as suas relações
Em vez de tentar atribuir-se uma etiqueta psicológica, pode ser mais útil recordar os dois momentos mais difíceis que viveu nos últimos dois anos.
Quem se lembrou espontaneamente de si?
A seguir, pergunte-se: a quantas pessoas realmente explicou o que estava a passar?
Para muitos que são muito bondosos, a resposta a esta segunda pergunta será «ninguém». Neste caso, torna-se difícil criticar os outros por não terem oferecido apoio, uma vez que ignoravam que ele era necessário.
É também por isso que certas pessoas podem ser generosas e calorosas com todos, enquanto mantêm proximidade com poucas.
Como as pessoas muito bondosas podem encontrar um melhor equilíbrio

Não se pretende, evidentemente, tornar-se frio ou menos generoso. Pode ser útil começar a partilhar uma pequena parte do que se vive antes de atingir os limites. Uma frase simples como «esta semana foi difícil» pode ser suficiente para que alguém ofereça ajuda.
É igualmente importante aprender a receber sem sentir a obrigação imediata de retribuir. Aceitar um favor sem querer compensar logo de seguida permite que a reciprocidade se instale naturalmente.
Outro possível ajuste é parar de antecipar sistematicamente as necessidades de todos. Quando se oferece ajuda antes mesmo de alguém pedir, nunca se descobre quem estaria disposto a fazer o mesmo.
As reações podem ser reveladoras. Algumas pessoas prontamente respondem, felizes por finalmente poderem retribuir, enquanto outras permanecem em silêncio ou parecem chateadas com esta mudança.
Essa consciência, embora nem sempre fácil, possibilita uma melhor compreensão da verdadeira natureza de algumas relações.
No início, estabelecer mais limites ou pedir algo pode parecer egoísta. Porém, este sentimento não implica necessariamente uma ação errada. Como demonstram as reflexões acerca das pessoas mais bondosas e os seus limites, a bondade e o respeito por si mesmo não são incompatíveis.
Por fim, é necessário dar algum tempo para que as relações se desenvolvam. Quando uma amizade possui uma verdadeira capacidade de reciprocidade, pode facilmente restaurar o equilíbrio assim que cada um tem a oportunidade de dar tanto quanto recebe.
Este artigo é meramente informativo e reflexivo. Não constitui, em nenhum caso, um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções discutidas baseiam-se em investigações publicadas e em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.




