É muitas as vezes que nos encontramos a preparar a nossa resposta antes mesmo de o outro terminar de falar. Ouvimos as palavras, mas a nossa atenção já está virada para o que vamos dizer em seguida. Contudo, aprender a ouvir mais e a falar menos pode transformar significativamente a qualidade das nossas interacções. Numa conversa, é fácil cair neste erro. Uma pessoa relata uma experiência importante, partilha uma dificuldade ou confia algo pessoal, enquanto o interlocutor já procura na sua memória uma história semelhante para contar. Ao querer responder, reagir ou mostrar que se compreende, por vezes deixamos de realmente ouvir.
Com o tempo, percebemos que **ouvir requer uma atenção especial**. A vida familiar, as relações interpessoais e o trabalho lembra-nos reiteradamente que existe uma diferença entre ouvir alguém e dar-lhe toda a nossa atenção. Ouvir genuinamente implica deixar de lado momentaneamente o que pensamos, o que gostaríamos de responder e até mesmo o que acreditamos já ter entendido.
Esta ideia já constava na filosofia antiga. Zénon de Cítio, fundador do estoicismo, teria dito a um jovem particularmente falador: “Temos duas orelhas e uma boca, para ouvirmos mais e falarmos menos.”
Por detrás desta formulação simples, temos uma lição valiosa. Muitas vezes, devemos dedicar mais atenção às palavras dos outros do que às nossas. Não se trata de permanecer silencioso por educação, mas de fazer da **escuta o verdadeiro objetivo da conversa**.
Como aplicar o princípio de Zénon na prática? Ouvir mais e falar menos
Compreender que devemos ouvir mais e falar menos é relativamente simples. No entanto, colocá-lo em prática numa conversa é um desafio maior. Algumas hábitos podem, no entanto, ajudar a equilibrar naturalmente os nossos diálogos.
1. Deixar um segundo de silêncio antes de responder
A rapidez com que respondemos pode revelar que estávamos apenas à espera da nossa vez de falar. **Tomar um segundo antes de intervir** permite-nos questionar se a nossa resposta realmente acrescenta algo ou se serve apenas para preencher um silêncio.
Esta breve pausa pode parecer insignificante, mas muda a nossa forma de ouvir. O silêncio não é necessariamente um vazio incómodo. Pode fazer parte integrante de uma conversa, como discutido em artigos sobre a fluência relacional e a nossa relação com o silêncio.
2. Fazer uma pergunta adicional
Numa conversa, muitas vezes fazemos uma pergunta antes de rapidamente voltarmos à nossa história. Uma maneira muito simples de ouvir mais é colocar uma segunda pergunta diretamente relacionada com o que o outro acabou de mencionar.
Este pequeno hábito obriga a uma atenção adicional e transforma uma escuta destinada a preparar uma resposta numa **escuta destinada a compreender**.
Esta distinção é precisamente abordada no nosso artigo sobre porque é tão raro sentir-se realmente compreendido hoje em dia. Ouve-se para responder, não para compreender.
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3. Não trazer sempre a conversa para a própria experiência
Quando alguém relata uma dificuldade, é natural procurar na nossa vida algo comparável. Esta reação pode manifestar uma verdadeira vontade de mostrar empatia.
Contudo, existe uma diferença entre partilhar uma experiência que pode ajudar e fazê-lo apenas porque é mais fácil falar de nós.
Ouvir mais e falar menos implica, às vezes, aceitar permanecer alguns momentos na narrativa do outro, sem sentir a necessidade de logo contar a nossa.
4. Manter o telefone fora de vista
Um telefone pousado sobre a mesa pode desviar parte da nossa atenção, mesmo que não esteja a tocar. Guardar o telefone num bolso ou numa mala cria melhores condições para uma boa conversa.
Contudo, com a constante exposição a notificações e interrupções, a nossa atenção pode habituar-se a saltar rapidamente de uma estimulação para outra. Uma conversa calma pode assim parecer anormalmente lenta.
Guardar o telefone é um dos comportamentos que favorecem uma presença mais atenta nas interacções, conforme discutido em artigos sobre os comportamentos que as pessoas mais apreciadas tendem a adotar nas suas relações.
Estudos realizados por Guy Itzchakov, investigador na Universidade de Haifa especializado em escuta, também sugerem que a qualidade da escuta pode ter efeitos que vão além de uma única conversa. Numa entrevista publicada em 2022, ele explicou que um **bom ouvinte pode gerar um efeito de contágio** na família, no trabalho ou na comunidade.
A investigadora Netta Weinstein, da Universidade de Reading e colaboradora nestas pesquisas, considera também a escuta como um **elemento fundamental das relações humanas** e não apenas uma habilidade adicional.
Ouvir mais e falar menos não deve ser uma regra matemática
O princípio das “duas orelhas e uma boca” não deve, naturalmente, tornar-se uma fórmula rígida. Nem todas as conversas exigem a mesma repartição entre fala e escuta.
Uma criança que narra o seu dia, por exemplo, pode necessitar que um adulto lhe conceda tempo suficiente para articular os seus pensamentos. Nesse caso, ouvir implica, sobretudo, estar presente.
O mesmo se aplica a adultos. Algumas pessoas refletem em silêncio, enquanto outras precisam de verbalizar as suas ideias para chegar a uma conclusão. Interrompê-las com conselhos ou soluções pode ser menos útil do que deixá-las concluir o seu raciocínio.
Ouvir mais e falar menos: uma regra simples para comunicar melhor
O princípio atribuído a Zénon serve, em última análise, como um meio muito simples de observar o nosso comportamento. Será que estamos realmente a ouvir ou apenas à espera que o outro termine para falarmos?
Pode parecer algo insignificante, mas esta prática transforma profundamente a qualidade de uma troca. Como discutido no nosso artigo sobre aqueles que falam mais do que ouvem, deixar mais espaço para o outro permite, nomeadamente, entender melhor o seu ponto de vista.
Ouvir mais e falar menos não consiste simplesmente em permanecer em silêncio. Implica acima de tudo dar tempo suficiente ao outro para compreender o que realmente busca transmitir.
Este artigo é apresentado para fins informativos e de reflexão. Não constitui, em caso algum, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




