Murteira Grave, Juanito, Luque e um Palha arrebatador enlouquecem Vila Franca

Murteira Grave, Juanito, Luque e um Palha arrebatador enlouquecem Vila Franca

  • 03 de julho de 2022, Vila Franca de Xira
  • Colete Encarnado
  • Cavaleiros: João Ribeiro Telles e Francisco Palha
  • Matadores: Daniel Luque e João Silva “Juanito”
  • Ganadarias: Murteira Grave e Canas Vigouroux
  • Forcados: Vila Franca de Xira
  • Direção de João Cantinho assessorado por Jorge Moreira da Silva
  • Praça CHEIA!

 

Ontem a Festa saiu às ruas de Vila Franca no seu Colete Encarnado, 90 Anos desta Festa Histórica em redor do Toiro, Cavalo, Campino e Toureio. Desde as duas da madrugada de dia 3 de Julho do ano 22 que esta aficionada terra toureira viveu apaixonadamente as suas Festa Maiores. Garraiada de Praça Cheia, entrada de toiros pela Marchal Carmona e a cereja em cima do topo do bolo a corrida da tarde com uma praça cheia como eu não me lembro de ver nesta data. Ou seja, um triunfo da Festa de Porta Grande.

O cartel montado pela empresa Tauroleve estava rematado por todos os lados e os aficionados responderam, praça cheia! Ambiente de acontecimento grande foi o que se viveu antes corrida, a expectativa era enorme. E quem foi aos toiros ontem viveu uma tarde em cheio, daquelas que nos fazem voltar às praças, daquelas que fazem aficionados, daquelas corridas históricas e que ficam na “história das vidas das gentes”.

Foram lidados oito toiros, para cavalo quatro estampas de Canas Vigouroux, rematados, bonitos de cara ou seja toiros de Vila Franca. O primeiro foi colaborante para cavaleiro, forcados e bandarilheiros. O segundo talvez o menos bom do quarteto, veio a menos e acabou algo reservado. O terceiro um bonito castanho foi um toiro com mobilidade mas ao qual lhe faltou alguma entrega. Bom foi o também bonito castanho que fez sexto, toiro com mobilidade, transmissão, vindo a mais com o decorrer da lide. Para a lide a pé quarto de Murteira Grave, bem apresentados e variados de capa. O cinquenho castanho que fez terceiro, foi reservado, vindo a menos. Bravo foi o quarto, toiro a humilhar, com mobilidade, entrega, recorrido e nobreza. Foi premiado com volta à arena. O sétimo, foi um negro, nobre, veio a mais com o decorrer da lide, virtude a durabilidade e entrega do toiro, defeito dos quarto de Galeana foi o menos humilhou. O ensabanado que fechou a corrida, foi um toiro com teclas que tocar… Não foi fácil, exigiu sempre muito de todos que se lhe meteram por diante, acabou por não romper.

Abriu a corrida João Ribeiro Telles, que voltava a Vila Franca depois da passagem por esta Praça em Maio. Boa tarde foi a que nos deu o João! Brindou a sua primeira lide aos campinos, andou bem nos compridos, cravando bons ferros, bregando com poder, mostrando os caminhos ao oponente. Nos curtos a lide foi também de boa nota, cravou bons ferros, rematou os mesmo de maneira toureira. Lide templada de um cavaleiro que deu distâncias, depois encurtando terrenos, cravando-os de forma limpa, o público gostou e aplaudiu o visto.

No seu segundo a lide foi mais redonda, novamente andou bem nos compridos, bem a bregar e a dar vantagens ao oponente. Nos curtos, cravou bons ferros, rematou os mesmo de forma bonita. O João mudou de montada e o segundo ferro com o seu cavalo Ilusionista foi um dos momentos da tarde, de praça a praça fez o cite, atacou o toiro e num palmo de terreno cravou um ferro que levantou o público das bancadas.

Francisco Palha, volta a Vila Franca depois da colhida de 2021 e voltou e de que maneira… A sua segunda lide foi à Palha e não deixou ninguém indiferente!

Diante do seu primeiro a actuação foi morna, o toiro foi o mais reservado e possivelmente não transmitiu ao público algumas das dificuldades inerentes ao seu comportamento. Bem a receber o Canas num palmo de terreno, cravou dois bons compridos. Nos curtos foi senhor de uma boa brega, cravou bons curtos, tapando defeitos e tentado mostrar as virtudes do oponente. Como escrevi lide morna mas de muitos pormenores.

No seu segundo chegou a grande actuação do toureio a cavalo da tarde. A porta gaiola com que recebeu o castanho foi excelente, cravou no alto do morrilho e rematou a sorte em curto fazendo os presentes explodirem numa enorme ovação. Nos curtos a lide foi em crescendo, cravou grandes curtos, desenhando as sortes como mandam as regras, imprimindo à lide garra, graça toureira e momentos superiores de bem tourear a cavalo. Se a lide era boa o último ferro fez a diferença… Foi o ferro, simplesmente perfeito, olé! Público de pé a retribuir o visto na arena.

Noventa anos de Colete Encarnado e Noventa anos do Grupo de Vila Franca. Boa tarde de pegas por parte do grupo da Terra.

Abriu praça à segunda tentativa o cabo Vasco Pereira, na primeira tentativa o cara teve um momento de desequilíbrio e não se conseguiu fechar. Na segunda, citou e recebeu bem com o grupo a ajudar de forma coesa. Boa pega.

Guilherme Dotti à primeira tentativa, não teve uma reunião perfeita mas teve vontade de ficar, pega dura mas não muito brilhante. Novamente o grupo a ajudar bem.

Pedro Silva numa boa pega à primeira tentativa, citou, recuou e reuniu bem, o grupo entrou e foi concretizada a sorte.

David Moreira que fazia a sua despedida de forcado esta tarde na sua Terra, fechou com chave de ouro a actuação do seu grupo. Grande pega à primeira tentativa. Tudo bem feito por parte do forcado da cara e pelo grupo.

Se as lides a cavalo chegaram com força ao público, duas das lides a pé fizeram que fosse desbordada a paixão pelo toureio em terras de Vila Franca, o público entregou-se de alma e coração vibrando e forma impressionante com que foi vivido na arena. Luque (que fazia a  substituição de Ferrera, por motivos de doença) e Juanito foram os protagonistas do feito.

A lide do segundo toiro do seu lote por Daniel Luque foi do mais compacto, bonito, o mais acabado, o mais profundo da tarde. Abriu o “compás”, adiantou o capote e começou a dar um verdadeiro curso de como se toureia à verónica, desenhando o lance lento, rematando com uma meia de cartel de toiros. A faena de muleta foi de altos quilates… O Murteira Grave foi a mais depois do tercio de bandarilhas, superiormente executado por João Ferreira que foi obrigado pelo público a agradecer montera em mão. Deu início à faena com os pés juntos e aí começaram a surgir os primeiros olés. Tandas em redondo e ao natural, redondas, arrebatadas, de notável ligação, rematadas com largos e ajustados passes de peito de píton a rabo. Rematou a obra com toureio a duas mãos sem a ajuda da espada que levantaram os público dos assentos. O de Gerena triunfou forte em Terras de Vila Franca.

No seu primeiro, teve que puxar de ofício para resolver os problemas expostos pelo de Galeana, faena de muita entrega e saber. Acabando por dominar a situação, inclusive dando uma excelente série pela direita que calou com força no público.

João Silva “Juanito” no seu primeiro andou bem e variado com o capote. Quando acabou o tercio de bandarilhas, e o de Monforte brindou a faena, todos estávamos convencidos que o toiro era de bandeira e o toureiro vinha a por todas, algo grande se iria passar e assim foi! Vila Franca ficou rendida a um toiro e a um toureiro naquele momento. Foi escrita mais uma página grande na história da velhinha Palha Blanco.

Tenho para mim que os artistas, todos, alcançam o seu nirvana, o seu êxtase criativo em função do seu estado de ânimo e ontem Juanito viu-se abandonado, no bom sentido da palavra na arena de Vila Franca. Início de “rodillas en tierra” e a reação do público foi espontânea, uma verdadeira explosão de aplausos. As séries de muletazos em redondo que instrumentou ao toiro tiveram longitude, conjunção, temple e fundamentalmente traço completo até ao final. Uma delas em que embarcou o Murteira, deixando-lhe a muleta na cara, fizeram da praça um autêntico vulcão que entra somente em erupção em tardes memoráveis como a de ontem. Os naturais levaram o toiro longe, os câmbios de mão, os passes de peito, fizeram parte desta obra. Para tudo isto contribuiu e de que maneira o “Piloto” assim se chamava o Murteira. Toiro de uma investida por direito, bravo, nobre, condicioso, com o morro pelo chão. Outra explosão espontânea foi quando da recolha do bravo toiro, público de pé a ovacionar, música a tocar, volta para o toiro, matador e ganadero.

O ensabanado que fechou praça era uma estampa. Quanto ao comportamento teve teclas que tocar… Virtudes a humilhação, quanto a mim faltou-lhe a entrega dos bravos para romper a bom. Pedia mando, muita firmeza e tudo muito bem feito. Juanito queria certamente redondear a sua tarde e recebeu o oponente a porta gaiola “rodillha en tierra”, com uma limpa larga afarolada. O toiro não rompeu e a faena também não, quanto a mim houve alguma falta de conjugação entre ambos. O toiro investia com tudo, por vezes a coisa esteve a ponto de romper… mas tal não aconteceu, vontade do matador muita, pisando terrenos de compromisso havendo uma voltereta felizmente sem consequências, só o susto. Mas o triunfo redondo no seu primeiro foi um dos momentos altos desta temporada de 2022.

Uma palavra para os campinos, que também eles estiveram perfeitos na recolha dos toiros, imprimindo ritmo à tarde.

Dirigiu a corrida João Cantinho, sendo médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

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