Lisboa, foi a capital da Bravura e da Arte

Crónica

A noite de ontem no Campo Pequeno, ficará gravada a letras de ouro na memória dos presentes, na história desta praça, na história dos forcados, de Manuel Ribeiro Telles, da ganadaria Murteira Grave e de Joaquim Grave. Foi a noite!

Tudo se conjugou: Ambiente dentro e fora da praça nas horas que antecederam a corrida, expectativas ao rubro; Toiros de uma apresentação irrepreensível, bravos na sua maioria, triunfo histórico da ganadaria; Triunfo histórico do Manuel Ribeiro Telles; Noite de glória do Grupo de Montemor e para um catedrático da pega de caras, Francisco Borges; Grande Rouxinol e Vila Franca; Noite de comemoração dos 20 anos de Alternativa de Ana Batista.

A bravura é a capacidade de um toiro lutar até à morte, e ontem houve alguns que tiveram essa virtude. O toiro que vai a mais, mais e mais. Esse é o toiro que têm que sair às praças, que faz levantar os aficionados das bancadas, que nos faz emocionar, que nos faz vibrar. O toiro que têm longitude nas investidas, mobilidade, casta, nobreza, fixo, alegria nas acometidas aos cavalos, galopar com o morro pelo chão quando investe ou acomete aos enganos ou ao cavalo.

Joaquim Grave, é um ganadero que sonha e vibra com o Toiro, com a Bravura, com a Festa, com o Toureio! Ontem em Lisboa teve um triunfo histórico, a praça rendeu-lhe um estrondosa ovação quando entrou na arena depois da lide do Marismero, um toiro dos de bandeira, um toiro Bravo. Foi uma praça rendida a um homem que têm dedicado a sua vida esse animal único… Esse toiro, o Marismero, estará próximo do seu toiro sonhado! Todos os adjetivos serão poucos para o descrever… Um hino ao toiro Bravo!  Não foi o único mas foi o que mostrou essa virtude de maneira mais exuberante. Também o segundo, o terceiro e o sexto tiveram a condição de bravos.

Mais detalhadamente: O primeiro foi sério, ovacionado de saída, faltou-lhe entrega, reservado e pedia que os terrenos lhe fossem pisados. O segundo teve mobilidade, casta, alegria, recorrido mas quanto a mim faltou-lhe humilhar qualquer coisa… Grande toiro! O terceiro foi o toiro que qualquer toureiro a cavalo sonha, mobilidade, tranco, galope bonito, pronto, repetidor, mas também com o senão de lhe faltar humilhar mais. O quarto, toiro com classe, de triunfo, com querença na porta dos cavalos, mas que de lá saia sempre que citado, nobre nas investidas humilhada aos capotes e nas acometidas aos cavalos. Bom toiro! O quinto foi e é o toiro! Voltou a Galeana e será semental, está tudo dito… O sexto era uma estampa, outro grande toiro, nobre, repetidor, metia a cara de uma maneira extraordinária nos capotes e acometia ao cavalo com classe. Talvez um pouco ofuscado pelo seu irmão de camada que tinha saído anteriormente. Noite grande para quem gosta do toiro bravo!

Manuel Ribeiro Telles bordou o toureio! Isto bastava já para descrever a sua noite maior em Lisboa… O improviso, a graça, a verdade, o imperfeito do artista, o garbo, a classe de montar a cavalo, o bem vestir de toureiro, a verdade nos ferros aos estribo, a emoção que põem em cada sorte, a brega, a grandeza e o senhorio da família que carrega aos ombros, o génio.

Manuel, ontém foi a vitória do ginete português, de rédeas na mão toureou os bravos, sorriu, venceu, fez nos amar o toureio a cavalo à portuguesa. Os dois últimos ferros ao quinto da noite foram memoráveis.

Luís Rouxinol, foi a juventude, entrega, o pisar terrenos proibidos, foi meter a “carne no assador”, a raça, o valor, a valentia, emoção, a loucura sã, o dizer que está cá para dar cartas, o querer ser o melhor.

A brega ao segundo da noite, foi fantástica, embebeu as acometidas do burraco no Douro e com ele bordou o toureio com de uma muleta se tratasse. As portas gaiolas geniais, os ferros cravados tiveram verdade e emoção a variedade das suas lides. Grande triunfo de Rouxinol em Lisboa.

Ver a Ana Batista montar a cavalo numa praça de toiros é bonito, a doma dos seus cavalos, a maneira com os apresenta são por si só uma beleza para os olhos de quem assiste. Ana, 20 anos de alternativa, 20 anos de batalhas e triunfos, 20 anos de uma senhora toureira que nunca vira a cara a um desafio como se demonstrou ontem. Quem não se lembra daquela apoteosico triunfo com toiros grandes e bravos da Quinta da Foz, quem não se lembra daquela lide histórica a um Passanha em Lisboa… Ontem o primeiro toiro tinha “porras”, pedia papéis foi difícil… Ana, cravou a ferragem da ordem forma digna, não foi certamente a lide sonhada. No quarto a actuação veio em crescendo, a lide foi bonita e agradável, parabéns Ana por estes 20 anos de Alternativa levando o estandarte do toureio a cavalo por essas praças do Mundo.

Graves e Forcados fazem parte da história das nossas vidas de aficionados… É sempre um desafio de valentia bater as palmas e pegar um toiro e se é um toiro de Galeana… Forcados e aficionados sabem que vai haver emoção, grandes pegas, ontem a tradição foi cumprida.

Montemor, foi a Lisboa como sempre vai, para triunfar, e o triunfo foi gordo! Três pegas à primeira tentativa, com o grupo a ajudar como se têm que ajudar, com um rabejador a entrar no momento certo e a fazer parecer o difícil por vezes fácil. Quero destacar o grande ajuda Pena Monteiro e o rabejador Francisco Godinho, que grandes forcados. José Vacas de Carvalho, ao terceiro fez uma pega tecnicamente perfeita e Bernardo Dentinho, uma grande pega ao quinto. Deixo para o fim um caso na história da forcadagem em Portugal, Francisco Borges. O Francisco, lê os toiros na perfeição, cita como se tem que citar, improvisa se é necessário, toureia na cara dos toiros, faz parecer o difícil numa quase facilidade abrumadora, é um eleito para esta arte de pegar toiros, um catedrático da pega. A pega realizada ao primeiro da noite foi tudo isto, olé!

Vila Franca, é significado de segurança, vibração, grandes pegas, de seriedade, de triunfo. Ontem foi mais uma boa noite para este grupo na capital do toureio a cavalo. A primeira tentativa do cabo Vasco Pereira foi fantástica, levantou o público tal foi a emoção vivida na viagem do forcado na cara do toiro, mas um derrote tirou o forcado. Na segunda tentativa o toiro entrou bruto e o forcado saiu, foi pegado à terceira tentativa de forma correcta. David Moreira, na primeira tentativa foi atropelado pela acometida veloz e dura do toiro. Na segunda tentativa realizou uma boa pega com o grupo a ajudar de forma coesa. Rui Godinho, fechou a noite numa soberba pega à primeira tentativa. O grupo ajudou bem e o rabejador Carlos Silva merece o meu olé, como sempre eficiente e garboso a rabejar.

O quinto toiro teve honras de volta à praça e o ganadero foi chamado à arena no fim das lides do terceiro e quinto toiros.

Dirigiu com acerto esta corrida memorável João Cantinho.

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