José Lupi – Um nome para a História

Por António Vasco Lucas

 

Figura incontornável da história da tauromaquia, José Lupi faleceu com a admirável serenidade dos maestros, que os anos engrandecem e enriquecem, aficionado culto e entusiasta, ganadero e espelho de toureiros, estudioso profundo da vida, com clareza e elegância de pensamento expresso no optimismo da sua existência, sempre presidida pela inteligência, sabedoria e humor.

Foi sempre um homem benemérito, colaborador das mais diversas colectividades e instituições humanitárias, mas foi sobretudo um toureiro genial, um dos maiores cavaleiros portugueses de sempre e um dos grandes vultos da tauromaquia mundial.

Efectivamente, se o génio de João Núncio, Mestre Batista e João Moura marcaram os pilares evolutivos da história do toureio a cavalo, a mesma não seria alicerçada sem o confronto com artistas geniais que, seguindo essas linhas inovadoras, ganharam foros de celebridade.

Ora, quando acontece a revolução de expressão nuncista, operada por Mestre Batista, surge um dos tais toureiros geniais que se chama José Lupi, o qual dimensionando o seu toureio num cite a distâncias inusitadas, encurtado num meio galope quase ao retardador, transmite um entusiasmo tremendo e comunicativo pelo aguentar e arriscar em terrenos até então desconhecidos.

Como cavaleiro amador, desde 1955 a 1962, participa em numerosos festivais e corridas com profissionais, a maioria das vezes com o seu amigo de infância e colega de agronomia José Barahona Núncio, com o qual forma uma das mais interessantes parelhas do toureio a cavalo, confrontando-se o estilo virtuoso e alegre de Núncio, com a discrição, frieza e classicismo de Lupi, pertencendo a este, não raras vezes, os ferros de mais verdade e emoção.

Logo, em 1963, quando chega a corrida de alternativa, Lupi surpreende o público e a crítica com uma actuação de toureiro maduro, revelando espantosa serenidade e uma concepção de toureio sério e valente, predicados que seriam apanágio da restante temporada.

No ano seguinte, Lupi consolida-se como primeira figura em Portugal para, a partir de 1969, se afirmar também em Espanha como, no dizer da crítica, “rei do toureio a cavalo”.

De 1970 a 1973, durante 4 temporadas consecutivas integrado no histórico quarteto “ginetes da apoteose”, leva o toureio a cavalo a todas as praças e triunfa ante todos os públicos.

O aficionado apercebe-se da diferença entre rejoneio e toureio à portuguesa. Lupi espera pelo toiro, controla a sua investida, recebe-o na espádua do cavalo, domina-o sob o braço e deixa o ferro no seu lugar, para depois se adornar com o toiro subjugado na garupa da montada.

Após 1974, com a chegada de Abril, muita coisa mudou e José Lupi é forçado a abdicar de muitos contratos porque a sua vida empresarial trouxe outros rumos, e em 1977 ainda soma algumas corridas, inclusive na Venezuela e no México, embora sem a ilusão de anos gloriosos.

Para trás ficaram 16 temporadas de actividade consecutiva como cavaleiro profissional e muitas mais de amador, continuando, contudo, em toureiro, como aconteceu em 1988 na corrida do 25.º aniversário da sua alternativa, comemorado em Santarém, ou em 1999 numa corrida em sua homenagem no Montijo.

E em 2010 ainda o vimos garbosamente fazer as cortesias na corrida de homenagem a Zoio no Montijo, como o havíamos visto anteriormente dar a alternativa ao seu filho Manuel.

Em linhas gerais e, resumidamente, esta é a trajectória toureira de José Lupi, que foi reconhecida em todos os continentes taurinos, atingindo um número de actuações e troféus difíceis de igualar, ficando para a história o artista que soube assimilar como poucos a entranha do toureio, assumindo o cunho da genialidade e merecendo a gratidão de todo o aficionado.

 

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