O fenómeno das touradas à corda

O primeiro registo historicamente conhecido acerca da realização de uma tourada à corda remonta ao século XVII, mais concretamente ao ano de 1622, praticamente duzentos anos após a descoberta dos Açores pelos portugueses.

À altura, Portugal lutava pela sua independência face ao Reino de Espanha — governava Filipe III (IV de Espanha) e a Câmara de Angra do Heroísmo organizava uma tourada à corda para celebrar a canonização de São Francisco Xavier e Santo Inácio de Loyola. Este é o primeiro registo que se conhece, embora se admita que as touradas à corda já se realizassem há largos anos por ocasião de festividades populares.

As touradas à corda surgem no arquipélago pela influência dos primeiros povoadores, que provinham em grande percentagem de regiões castelhanas de forte tradição tauromáquica. Embora seja uma tradição fortemente vincada na ilha Terceira. Todos os anos há touradas à corda na Terceira, São Jorge, Graciosa, Pico e São Miguel; esporadicamente realizam-se também em Santa Maria; também as ilhas do Faial, Flores e Corvo já receberam touradas à corda, embora tivessem sido poucas as vezes.

Ao longo dos anos, as características das corridas de toiros à corda foram-se moldando e adaptando aos tempos, sempre pautadas por regras de natureza meramente popular e que hoje se encontram legalmente previstas em diplomas que visam assegurar a segurança das pessoas e o bem-estar do animal.

Nas touradas à corda, os toiros não são corridos em pontas; são embolados, como se de uma corrida de toiros normal se tratasse, a fim de proteger o simples cidadão que a uma destas touradas assiste de não sofrer algum acidente imprevisto.

Os toiros que saem às ruas são criados nas verdejantes pastagens das ilhas açorianas e em prestigiadas ganadarias, sendo depois vistos e escolhidos pela sua capacidade de seguir os vultos e serem matreiros. Depois, são largados nas ruas das freguesias que nesse dia têm as janelas e os muros apinhados de populares, curiosos e forasteiros.

É já célebre a designada sorte do guarda-sol — os lidadores abrem subitamente um guarda-chuva em frente aos toiros para deles se esquivarem; enquanto isso, os homens da corda moderam o ímpeto da investida. Porém, sucede por vezes serem arrastados pela força do animal — é a lei das coisas.

Nas últimas décadas, surgiram também as touradas à corda à beira-mar, que colhem de forte adesão nas povoações costeiras, nas quais aficionados e toiro tomam repetidos banhos de água salgada ao fugir das rápidas e inesperadas investidas dos toiros.

Fruto do forte movimento migratório de populações açorianas para a América do Norte na segunda metade do século XX, a tradição das corridas de toiros à corda foram paulatinamente enraizadas no seio das comunidades portuguesas fixadas nos Estados Unidos e Canadá, onde ainda hoje as touradas à corda se realizam e recebem os olhares de muitos curiosos e a destemidade de muitos corajosos.

Este ano, realizaram-se 215 touradas à corda só na ilha Terceira. Nos últimos 20 anos na ilha Terceira, tem-se realizado uma média de 200 corridas de toiros à corda e tem tendência para assim continuar naquela que é uma das regiões de maior tradição tauromáquica no mundo.

São famosos os vídeos de Gabriel Silva das touradas à corda, cujo canal no Youtube já conta com 56 milhões de visualizações e 40 mil visitas diárias à sua página.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0RSygSpB24M

 

 

 

Fotografia: Paulo Gil

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