O despertador toca mais tarde do que o esperado porque o telefone ficou sem bateria durante a noite. Ao descer à rua, a chuva começa exatamente no momento em que se esqueceu do guarda-chuva. No trabalho, um comentário lançando de forma descuidada por um colega permanece na mente muito mais tempo do que deveria. Em seguida, um documento importante desaparece alguns minutos antes de uma reunião, antes de ser encontrado num outro arquivo. Nada disso é realmente dramático, e, no entanto, o humor muda gradualmente. O dia inteiro parece então adquirir uma cor diferente, como se uma série de pequenos contratempos fosse suficiente para apagar tudo o que, de facto, até correu bem.
Uma mensagem enviada para a pessoa errada. Um encontro cancelado à última da hora após vários dias de preparação. Uma frase pronunciada num tom seco que deixa um sabor amargo durante horas. Estes não são eventos de grande relevância, e, no entanto, um único pode por vezes ser suficiente para arruinar uma tarde inteira.
A atmosfera deteriora-se, a concentração desaparece pouco a pouco, e o restante do dia reconfigura-se em torno de um detalhe que, escrito preto no branco, pareceria quase insignificante. Chegamos então a convencer-nos que foi aquele incidente que arruinou o dia, quando, na realidade, o que pesa mais num momento como esse, não é tanto o evento em si, mas a forma como o interpretamos.
Esta ideia ressoa com a citação de Épicteto, escrita há quase dois mil anos:
“O que perturba os homens não são as coisas, mas os juízos que fazem sobre as coisas.” Esta reflexão surge logo nas primeiras linhas do “Manual”, um breve tratado que compila o essencial do seu ensinamento, transcrito por um dos seus discípulos. O filósofo não afirma que nada de mau acontece jamais.
Ele simplesmente lembra que existe uma diferença entre o que ocorre realmente e a história que construímos depois na nossa mente. E, muitas vezes, é precisamente essa narrativa que criamos, mais do que o evento em si, que acaba por perturbar a nossa paz.
O que a leitura dos estoicos me trouxe verdadeiramente

Li Épicteto, assim como Marco Aurélio e Sêneca, e serei honesta sobre o que isso me trouxe, mas também sobre o que me não trouxe. Conhecer uma frase não significa vivê-la. Posso recitá-la de cor e, no entanto, perder uma hora devido a um comentário que me desagradou.
O que a leitura mudou não é um domínio total sobre mim mesma, mas algo mais modesto e, ainda assim, interessante. Uma melhor capacidade de aproveitar o momento enquanto ele ainda está presente, aquele instante em que percebo que o acontecimento já passou e o que sinto torna-se, muitas vezes, apenas um comentário posterior.
Não me dou conta disso a cada vez, mas mais frequentemente do que antes. E se esta forma de pensar sobreviveu ao longo dos séculos, é provavelmente porque se revelou ser muito mais do que uma simples consolo filosófico.
Do estoicismo à psicologia moderna
Séculos mais tarde, esta ideia tornou-se um dos fundamentos de uma forma de terapia moderna. Albert Ellis, cujos trabalhos na década de 1950 estabeleceram as bases da terapia racional-emotiva e comportamental, fazia uma ligação direta entre o seu método e os estoicos.
O instituto que ainda leva o seu nome descreve hoje esta abordagem como tendo “raízes que remontam ao filósofo estoico Épicteto”.
A ideia central permanece a mesma que Épicteto já defendia: **não é o evento em si que nos afeta mais, mas a crença que associamos a esse evento. É precisamente sobre essa interpretação que podemos agir**.
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A reavaliação cognitiva

A psicologia moderna utiliza um termo mais preciso para designar esse mecanismo: a reavaliação cognitiva. Trata-se de modificar a interpretação de uma situação em vez de reprimir as emoções.
Várias pesquisas demonstraram que esta abordagem tende a diminuir a intensidade das emoções negativas, sem provocar os efeitos nocivos muitas vezes associados à simples repressão emocional.
É precisamente neste ponto que a citação de Épicteto é frequentemente mal interpretada. **Reavaliar uma situação e reprimir as emoções são duas coisas muito diferentes**.
As investigações em psicologia mostram que a repressão emocional é geralmente menos eficaz a longo prazo do que a reavaliação cognitiva. Os trabalhos do psicólogo James Gross, especialista na regulação das emoções na Universidade de Stanford, revelaram que simplesmente suprimir as emoções pode resultar em maior estresse fisiológico e efeitos negativos duradouros.
Os limites desta ideia

É aqui que gostaria de fazer uma nuance, pois esta ideia possui uma versão mais simplista e por vezes irritante. Levado ao extremo, ela torna-se na frase que ouvimos quando alguém atravessa algo realmente difícil: “tudo depende da forma como vemos as coisas” ou ainda “tu escolhes ficar aborrecido”.
Algumas coisas são simplesmente dolorosas, e nenhuma reformulação transformará uma perda em outra coisa que não perda. Não sou psicóloga, e Épicteto não escrevia um manual clínico.
Quando um período se torna tão difícil que uma simples frase não é suficiente para a descrever, é melhor falar com alguém do que tentar racionalizar tudo sozinho.
Esta citação não é uma negação da dor. Ela afirma algo mais nuançado: **entre o que acontece e a nossa reação existe um pequeno espaço, e é nesse espaço que reside uma grande parte da nossa liberdade**.
Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções abordadas baseiam-se em pesquisas publicadas, assim como em observações editoriais, e não são resultado de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.




