Em Alenquer cumpriu-se a Tradição

Crónica

Em Alenquer cumpriu-se a Tradição

  • 3 de junho 2022, Alenquer
  • Cavaleiros: Rui Salvador, Paulo Jorge Santos e Joaquim Brito Paes
  • Forcados: Coruche, CT Alenquerense e Arruda dos Vinhos
  • Ganadaria: Eng. Jorge de Carvalho
  • Direção de José Soares assessorado por Jorge Moreira da Silva
  • Praça a 3/4 de lotação

A Vila de Alenquer é tida por muitos historiadores como o berço das festividades religiosas em torno do culto do Império do Divino Espírito Santo, instituídas pela Rainha Santa e por seu marido, o Rei D. Dinis, há cerca de sete séculos. Desde então estas festividades alargaram-se a outras comunidades no território continental português e aos Açores, bem assim como ao Brasil, aos Estados Unidos da América e ao Canadá, nestes casos através da diáspora nacional.

Na essência popular do culto do Espírito Santo a festa do Bodo representa um momento da maior relevância, posto que neste tempo era hábito os lavradores partilharem com os mais pobres o pão, a carne e o vinho. Em localidades onde se criasse gado bravo era tradição os ganadeiros oferecerem um toiro que, depois de lidado pelos populares, era morto e partilhada a sua carne.
Daí que a tradição tauromáquica tenha caminhado de braço dado com esta tradição religiosa, aspecto que assumiu a maior expressão na tão aficionada ilha Terceira, do arquipélago açoriano.

Alenquer é, igualmente, uma terra de gente aficionada, o que justifica a grande presença de público que assistiu em praça desmontável a um agradável espectáculo taurino, para o que bem contribuiu o curro enviado pelo Eng.º Jorge Carvalho, que, à excepção dos toiros lidados em segundo e quarto lugares, serviu muito bem.

Rui Salvador é um toureiro que alia à sua competência técnica e ao seu poderio uma honestidade notável. Perante qualquer público e frente a qualquer toiro o marialva arquitecto empenha-se com o mesmo donaire e determinação. O seu primeiro oponente tinha mobilidade, mas impunha a sua distância, o que levou Rui Salvador a bregar e a citar o toiro nos seus terrenos, colocando vistosa ferragem em emotivas sortes frontais, pondo a carne no assador. Aproveitando uma querença acidental junto às tábuas, Rui Salvador cravou um imponente ferro a sesgo, com um remate magnífico. Frente ao segundo seu lote, Rui Salvador teve de porfiar imenso para solver uma lide digna, mas com escassos motivos de interesse. A colocação da ferragem comprida foi regular, porém o toiro começou a defender-se, não investindo com clareza e ficando a esperar que o cavalo entrasse nos seus terrenos para depois investir de fincão. O voluntarioso cavaleiro fez os possíveis e os impossíveis para alinhar uma lide a seu gosto, mas quando a matéria-prima não serve, não há volta a dar. Aquilo que de melhor nos foi dado apreciar, foi o que o cavaleiro pôs num toiro que não serviu.

Paulo Jorge Santos é um cavaleiro de boa escola, a quem já apreciámos valorosas lides e triunfos interessantes, que, contudo, não têm servido para lhe abrir mais portas dos tauródromos portugueses. Enfim, essas são contas de outro rosário… Nesta noite Paulo Jorge teve pouca sorte com o lote que lhe coube enfrentar, o que mais dificultou o seu labor. Os toiros pouco investiam, e quando o faziam davam grandes arreões, incomodando montadas e cavaleiro. O cavaleiro vila-franquense teve de recorrer ao toureio mais na linha do rejoneio, muito visto nos pueblos do país vizinho, e deste modo foi despachando a ferragem, alguma traseira e descaída, mas animando o conclave que reagiu com agrado ao dinamismo e à alegria com que o cavaleiro rubricou as suas lides, especialmente no tércio dos curtos e nos ferros de apoteose, com destaque para um bom par de bandarilhas. Esta não terá sido a noite desejada por Paulo Jorge Santos, que tem qualidade técnica e artística para fazer muito mais e melhor. Assim os toiros o permitam…

Joaquim Brito Paes, ao invés de Paulo Jorge, teve a sorte pelo seu lado, enfrentando dois toiros muito colaborantes, embora não consentissem equívocos. Num estilo jovial e desinibido o jovem marialva desenvolveu duas lides muito meritórias, fazendo jus à matéria-prima de que dispôs. Avaliando bem os seus oponentes, o marialva alenquerense elegeu os terrenos mais adequados e as melhores distâncias para desenvolver uma brega de muita qualidade, tendo como corolário a colocação vistosa da ferragem da ordem. Como praticante em vésperas de doutoramento, Joaquim Brito Paes primou pelos cites frontais, indo recto à cara dos toiros, e nos seus terrenos cravou certeira e emotiva ferragem, rematando cada sorte como mandam as regras. Em noite de acerto, Joaquim Brito Paes irradiou alegria e interagiu muito com o seu público, o que contribuiu para acentuar ainda mais o seu triunfo.

As pegas deste curro do Eng.º Jorge Carvalho estiveram confiadas a três valorosos Grupos de Forcados – Amadores de Coruche, Amadores do Clube Taurino Alenquerense e os Amadores de Arruda dos Vinhos, os quais dignificaram as respectivas jaquetas de ramagens.

Pelos Amadores de Coruche foram solistas Afonso Freitas e João Firmino, que se fecharam com querer e determinação, contando com prontas e eficazes ajudas;

Pelos Amadores do Clube Taurino Alenquerense, Francisco Nunes concretizou a sua sorte à terceira tentativa, após duas boas tentativas anteriores, e Joaquim Brás fechou-se bem ao primeiro intento, com coesa ajuda do Grupo;

Pelos Amadores de Arruda dos Vinhos, Nuno Aniceto concretizou a sua sorte à segunda, depois de uma excelente primeira tentativa, na qual as ajudas se atrasaram, e João Costa consumou uma pega fácil e tecnicamente perfeita ao primeiro intento.

As quadrilhas dos três cavaleiros estiveram em bom plano, coadjuvando as lides e auxiliando nas manobras de recolha dos toiros, posto que, tratando-se de uma praça desmontável, não houve campinos para assegurar esta função. Direcção acertada e afável de José Soares, assessorado tecnicamente pelo médico veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva.

No final notava-se que o público estava satisfeito com o que tinha apreciado, e quando assim é, tudo está bem, quando acaba bem.

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